A fuga e a vida “comum” de Josef Mengele na América Latina
Médico responsável por experimentos sádicos contra judeus no campo de extermínio em Auschwitz via a si mesmo como um “burocrata”
Falado em alemão e dirigido pelo cineasta e diretor de teatro russo Kirill Serebrennikov, “O Desaparecimento de Josef Mengele”, investiga a complexidade psicológica do criminoso durante sua rota de exílio pelo continente sul-americano.
O filme estreou em maio, no Festival de Cinema de Cannes. No Brasil, foi exibido na última quinta-feira, 23, na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. A produção ainda não tem previsão de lançamento comercial nas salas de cinema do país.
Exílio e apoio logístico
Após o fim da Segunda Guerra Mundial, Mengele, conhecido como “Anjo da Morte”, conseguiu evitar a captura na Alemanha. Ele fugiu para a Argentina com o suporte de ex-membros da SS, a guarda de elite do regime de Adolf Hitler.
O drama detalha as tentativas bem-sucedidas do criminoso de guerra em se furtar do julgamento. Ele se deslocou de Buenos Aires para o Paraguai, e depois, para o Brasil.
A produção é baseada no livro homônimo e premiado de 2017, escrito pelo jornalista e autor francês Olivier Guez. A trama se inicia em 1956, quando o médico vivia em Buenos Aires usando a identidade falsa de Helmut Gregor.
Enquanto arquitetos nazistas como Adolf Eichmann enfrentaram a justiça, outros escaparam para a América do Sul com a colaboração de simpatizantes e o auxílio, no caso argentino, do presidente Juan Perón.
Agentes do serviço secreto israelense Mossad, oficiais alemães ocidentais e caçadores de nazistas estavam na perseguição de Mengele.
O ator August Diehl (conhecido por seu trabalho em “Bastardos Inglórios”, de Quentin Tarantino) interpreta o protagonista. O filme mostra como recursos financeiros, contatos e capacidade de adaptação para disfarces permitiram que um dos indivíduos mais procurados do mundo escapasse da justiça por décadas.
O médico acabou morrendo em 1979, afogado em uma praia brasileira, e foi enterrado em um cemitério no interior de São Paulo.
A rede de pessoas na Europa e na América do Sul que ofereceu proteção, financiamento e refúgio a Mengele também é um ponto de atenção. O diretor enfatiza que “o mal não é apenas Mengele, mas também todas essas pessoas”. Serebrennikov aponta que muitos desses colaboradores escaparam impunes.
A banalidade do mal
O filme trata sobre como, mesmo foragido, idoso, solitário, doente e vivendo sob uma identidade falsa, Mengele jamais conseguiu se desvencilhar de seu histórico.
Em um dos momentos retratados, o médico tem um encontro com seu filho, Rolf, que o confronta sobre o que realmente ocorreu no campo de concentração. Mengele, confrontado pela nova geração que exige a verdade, apenas reproduz as antigas falsidades fascistas utilizadas para justificar os crimes.
Serebrennikov, crítico do ditador Vladimir Putin, se inspirou em perguntas sobre o fim da guerra e a punição dos algozes: “O que acontece com os criminosos de guerra quando a guerra acaba? Existe justiça divina? Essas pessoas acabarão sendo punidas por seus atos?”.
O cineasta tentou aproximar o público da mentalidade dogmática do nazista, uma abordagem influenciada pelo conceito da “banalidade do mal”, da filósofa política Hannah Arendt.
Esse conceito, concebido após o julgamento de Eichmann, conclui “que os monstros não são diferentes de pessoas comuns”.
A intenção da produção é que o espectador compreenda que “o caminho da pessoa comum para o criminoso e o sádico pode ser assustadoramente curto”. Contudo, o diretor insiste que ter “simpatia por Mengele é impossível”.
O produtor do filme, Felix von Boehm, afirmou que, com o ressurgimento de ideologias extremistas em todo o espectro político, a produção visa alertar sobre os riscos do dogma. Ele espera que o filme, em sua descrição da estreiteza ideológica, ajude a evitar que as pessoas sejam “enganadas por ideologias de qualquer tipo”.
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