Vacinação nas escolas? Pesquisa indica o que brasileiros pensam
Pais e responsáveis por estudantes brasileiros manifestam adesão a programas de imunização em ambiente escolar; falta de acesso é obstáculo para a baixa cobertura atual
Uma pesquisa publicada neste mês de setembro constatou que a maior parte dos pais e responsáveis brasileiros apoia a vacinação de seus filhos em escolas. O estudo, realizado entre julho e agosto de 2023, mostrou que a estratégia escolar é vista como uma forma viável de elevar as baixas taxas de cobertura vacinal no Brasil.
A aceitação da vacinação em escolas é majoritária, com nove em cada dez responsáveis aprovando programas contra gripe, dengue e HPV. O apoio é menor para a imunização contra a covid-19, mas ainda assim chega a oito em cada dez cuidadores. A adesão acontece em um momento em que o Ministério da Saúde do governo atual anunciou uma nova iniciativa para implementar ações de vacinação em escolas no País em 2025.
Aceitação das vacinas e fatores de oposição
O levantamento apontou diferenças no nível de apoio entre os diversos imunizantes pesquisados e entre grupos demográficos específicos. Embora somente 7,5% dos pais e responsáveis tenham se manifestado contrários à participação das crianças em qualquer programa de imunização escolar, a vacina contra a covid-19 recebeu a menor propensão de autorização (21,11% disseram que não autorizariam).
Esta hesitação mais acentuada em relação à covid-19 pode ser um reflexo direto do contexto político brasileiro durante a pandemia. Segundo Lorena Barberia, professora da USP, o governo anterior minimizou os riscos da doença para crianças e questionou a segurança das vacinas. Bolsonaro desestimulou medidas para vacinação infantil.
A pesquisadora lembra que a exigência de que os pais assinassem um termo de responsabilidade para a vacina da covid-19, embora não tenha sido efetivada, transmitiu uma mensagem de que este imunizante era diferente dos demais. Além disso, o ex-presidente declarou publicamente que não autorizaria a imunização da própria filha.
Em contraste, a vacina contra a dengue registrou um alto nível de aceitação, mesmo não estando aprovada pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) ou incluída no Programa Nacional de Imunização (PNI) na época da coleta de dados. Este achado sugere que o histórico de uso público da vacina não é um fator determinante para sua aceitação em ambiente escolar.
Fatores demográficos também influenciam a adesão, sendo que pais e responsáveis que se identificaram como evangélicos apresentaram 1,7 vezes mais chances de não apoiar programas de vacinação escolar. A oposição foi maior também entre cuidadores apenas de crianças com menos de seis anos. Os pesquisadores alertam para a necessidade de desenvolver estratégias de comunicação que recuperem a confiança deste grupo populacional.
Conveniência e aprimoramento do acesso
Diante do alto apoio à vacinação em escolas, o estudo sugere que a falta de acesso facilitado, ou “conveniência”, pode ser o principal fator por trás da queda nas taxas de imunização no País. “Como a grande maioria dos responsáveis apoia que seus filhos sejam vacinados nas escolas, é de se perguntar por que então não os levam para ser vacinados nos postos”, questiona Lorena Barberia.
A pesquisadora da USP indica que pais que trabalham enfrentam dificuldades para levar os filhos aos postos de saúde nos horários de funcionamento. Se a vacinação fosse organizada de forma mais favorável, o País poderia estar atingindo coberturas de 80% a 90%.
A hesitação vacinal pode ser analisada em três dimensões: a complacência, a confiança e a conveniência, sendo esta última a oportunidade e a facilidade de acesso à vacinação. A professora argumenta que, embora o monitoramento da desinformação seja importante, é fundamental aprimorar a conveniência para combater a hesitação.
Os índices de vacinação no Brasil e em diversos países têm apresentado declínios preocupantes, ficando abaixo da cobertura ideal. A taxa de cobertura da primeira dose da vacina DTP (difteria, tétano e coqueluche) caiu de 91% em 2013 para 64% em 2016.
As vacinas contra a covid-19, introduzidas mais recentemente, também mostram taxas insatisfatórias, com apenas 24% das crianças de cinco a 11 anos vacinadas até 2025. A persistência da resistência à vacina da covid-19 exige maior compreensão sobre como a falha em garantir a cobertura afetará as crianças e adolescentes.
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O artigo publicado na revista Vaccine pode ser lido na íntegra neste link.
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Comentários (1)
Cesar Luis Peres Da Silva
23.09.2025 21:55Cuidadores?