Pianista usa capacete para mapear atividade cerebral enquanto toca
Método desenvolvido por Nicolas Namoradze permite estudar o que ocorre no cérebro de músicos durante a execução de obras
Um recital de piano na Universidade da Califórnia, em São Francisco, apresentou mais do que música. Enquanto o pianista Nicolas Namoradze executava obras de Claude Debussy, Johann Sebastian Bach, Ludwig van Beethoven e Alexander Scriabin, uma tela projetava imagens translúcidas de seu cérebro em atividade. Correntes elétricas de diferentes comprimentos de onda registravam padrões coloridos que mudavam conforme a música avançava.
O evento marcou um avanço na neurociência da música. Pela primeira vez, pesquisadores conseguiram capturar com nitidez o que acontece no cérebro de um músico durante uma apresentação ao vivo, área que até então escapava aos estudos científicos.
Theodore Zanto, neurocientista do laboratório Neuroscape da UCSF e criador das animações do “Cérebro de Vidro”, definiu o resultado como “provavelmente a representação em tempo real mais nítida do que acontece dentro do cérebro durante uma apresentação de piano”.
Solução técnica para problema antigo
A dificuldade em estudar músicos em ação sempre esteve nas limitações dos equipamentos. Ferramentas como a ressonância magnética funcional exigem que participantes permaneçam imóveis dentro de aparelhos. Tecnologias vestíveis, como toucas de EEG (eletroencefalograma) com eletrodos, permitem movimento, mas precisam de dezenas de repetições sincronizadas com precisão de milissegundos para separar sinais neurais do ruído elétrico causado por outras atividades corporais.
Namoradze, de 33 anos, encontrou a resposta no piano mecânico Steinway Spirio. O equipamento captura cada detalhe de uma performance e a reproduz tecla por tecla. No laboratório de Andrea Protzner, neurocientista da Universidade de Calgary, o pianista gravou seu programa e depois o tocou múltiplas vezes, sincronizando os dedos com a reprodução mecânica.
“No final, eu realmente me esquecia que não estava tocando”, disse Namoradze. “Meus músculos estavam fazendo a mesma coisa; eu estava ouvindo a mesma coisa. Eu conseguia incorporar meu próprio espírito”.
O método garantiu a precisão temporal necessária para que o EEG identificasse padrões relacionados à música. Protzner explicou que a precisão de milissegundos é o que permite distinguir atividade neural significativa de movimentos musculares acidentais e outros estímulos. “Isso é fácil com os ouvintes, que podem ouvir a mesma gravação repetidas vezes”, afirmou. “Com um músico, é incrivelmente difícil”.
Padrões distintos para cada compositor
Durante o recital em São Francisco, Namoradze descreveu o que via nas imagens: ondas suaves de atividade em Debussy, coordenação complexa entre diferentes regiões cerebrais em Bach, explosões de movimento entre planejamento e execução em Beethoven. Na música de Scriabin, observou aumento de atividade no lobo occipital, área onde a visão é processada.
O pianista levantou a hipótese de que a sinestesia do compositor russo, que o levava a associar sons a cores, poderia ter se codificado na sonata. Protzner manteve cautela. “Se acho que houve sinestesia envolvida? Não. Mas será que para ele estava mais associado às cores do que às outras peças? Definitivamente”.
As observações de Namoradze permanecem como hipóteses. Zanto reconheceu que o músico está “literalmente gerando hipóteses” para os cientistas. Distinguir interpretação de evidência exigirá estudos comparativos com outros pianistas executando o mesmo repertório ou com cérebros de ouvintes medidos junto aos dos intérpretes.
Limitações e perspectivas
O método criado por Namoradze pode não funcionar para todos. Pianistas amadores teriam dificuldade em manter o nível de precisão necessário. Muitos pianistas de concerto apresentam movimentação física excessiva para estudos de EEG, nos quais até o menor movimento da cabeça contamina os dados. “Todos ficaram chocados com a imobilidade com que ele tocava”, lembrou Protzner sobre as horas que o músico passou em seu laboratório.
Namoradze tem formação em neuropsicologia, o que o diferencia de outros músicos. Zanto e sua equipe preparam a análise dos dados para publicação científica. O pianista já planeja o próximo passo: participar do desenvolvimento de um “Corpo de Vidro”, que usaria medições de uma dúzia de parâmetros fisiológicos, incluindo frequência cardíaca, condutividade da pele e digestão.
Ao The New York Times, Zanto admitiu que analisar os vastos conjuntos de dados que essa modelagem exige ainda é um objetivo distante. Namoradze, porém, já se declarou pronto para retornar ao laboratório assim que a tecnologia existir. O objetivo é tornar visível a comunicação entre cérebro, mãos e pés que transforma intenção musical em movimento.
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