“O bolsonarista não precisa de Bolsonaro como pessoa, mas como símbolo”, diz filósofo Marcos Nobre
Em meio à disfuncionalidade da democracia brasileira, existem “avanços e retrocessos”, mas “PEC da blindagem é um escândalo absoluto”
O filósofo e pesquisador Marcos Nobre, professor titular de Filosofia Política na Unicamp e diretor do Centro para Imaginação Crítica no Cebrap, ofereceu uma análise sobre a democracia brasileira em entrevista à BBC Brasil.
Para Nobre, a democracia brasileira está operando de modo “disfuncional” e, entre a condenação de um ex-presidente por tentativa de golpe de Estado e a votação de proposta na Câmara dos Deputados, que pode dificultar processos criminais contra parlamentares, existem “avanços e retrocessos ao mesmo tempo”.
Por um lado, o Brasil efetuou a punição das lideranças da tentativa de golpe de 2022, um feito “inédito, extraordinário e exemplar em termos democráticos”; por outro, os parlamentares votam a favor da PEC da Blindagem, uma espécie de “anistia preventiva a qualquer deputado que cometa crime”, que é “um escândalo absoluto”.
Os arranjos e desarranjos de forças para 2026
Marcos Nobre detalha o rearranjo de forças para a corrida presidencial de 2026. Ele aponta que, desde a inelegibilidade do ex-presidente Jair Bolsonaro em 2023, a busca por um candidato substituto era evidente. O governador Tarcísio de Freitas surge como o nome mais provável, na busca dos votos bolsonaristas sem a candidatura direta de Bolsonaro.
Há uma disputa interna pela hegemonia. A extrema-direita tem uma vantagem estratégica, com uma direção clara em busca do autoritarismo e um “partido digital” para mobilizar seus apoiadores. A direita tradicional, por sua vez, precisa da extrema-direita para engajamento e não pode abrir mão dos votos de Jair Bolsonaro.
A estratégia de Bolsonaro visa uma anistia penal e a influência sobre a chapa. Tarcísio de Freitas, segundo Nobre, não deve lançar sua candidatura sem o apoio do ex-presidente. Uma chapa única para essa aliança aumenta suas chances de vitória, cenário que está sendo calculado pelas partes.
Ainda há uma parcela da direita tradicional que não se alinhou ao bolsonarismo em 2022 e não definiu seu posicionamento para 2026. MDB e PSD de Gilberto Kassab figuram como forças com futuro incerto. O PSD, apesar de uma lógica que favoreceria a aliança com a candidatura do presidente Luiz Inácio Lula da Silva devido a seus governadores, enfrenta a situação de seu presidente, Gilberto Kassab, que é secretário do governo Tarcísio e almeja o governo de São Paulo. A postura do PSD, historicamente, tem sido de liberar seus membros para apoiar os candidatos de sua escolha.
Lula no páreo, mas sem margem para erro
A candidatura de Lula é competitiva, mas sem margem ou conforto de aprovação, o que indica uma disputa voto a voto. O governo tem a vantagem de estar no cargo, além de apresentar, segundo Nobre, melhorias econômicas e a reconstrução de políticas sociais.
O filósofo também menciona a tensão gerada pela intervenção do governo Trump, que coloca a aliança da direita sem medo com a extrema-direita em uma situação delicada, dados os alinhamentos com os Estados Unidos e a importância da China para as exportações brasileiras.
“Isso dá um discurso para o governo Lula, para se apropriar do patriotismo por um lado progressista, dizer que a aliança da direita sem medo com a extrema-direita é entreguista. O que dá para dizer é que vai ser uma eleição muito acirrada, como foi em 2022. Pequenas coisas vão resultar na vitória de um lado ou de outro”, ponderou.
Bolsonarismo sem Bolsonaro?
O país está divido quanto a questões como a anistia para Bolsonaro e os envolvidos na tentativa de golpe. Uma pesquisa indicou 41% de rejeição contra 36% de apoio à anistia. A transformação de Bolsonaro em mártir, seja em prisão domiciliar ou presídio, representa um símbolo de mobilização para a base digital da direita. A impossibilidade de comunicação direta, contudo, o tornaria um “recipiente vazio”, permitindo a atribuição de qualquer mensagem à sua figura na campanha.
Para Nobre o autor de Limites da Democracia e Como nasce o novo, “vai ter uma mudança importante dentro da lógica do partido digital bolsonarista, porque o Bolsonaro, ele mesmo, não tá mais funcionando diretamente como alguém que está estabelecendo a pauta e a liderança. Ele vai ter que passar isso para alguém. Ele vai ter que dizer: ‘Olha, vai ser o Flávio, ou vai ser o Carlos’. O Carlos a gente sabe que não tem condição de ser essa pessoa. Ele vai passar para pessoas próximas dele essa posição. Isso vai mudar a correlação de forças. O partido digital bolsonarista não precisa do Bolsonaro como pessoa, precisa como símbolo”.
O bolsonarismo como parasita institucional
Derrotado nas eleições de 2022, derrotado na tentativa de dar um golpe de Estado, derrotado na pretensão de se livrar de qualquer sentença, o bolsonarismo sobrevive, de acordo com Nobre, porque sabe aonde quer chegar:
“O que a extrema-direita perdeu, pelo menos por enquanto, foi a possibilidade de instalar o autoritarismo pela via do golpe. Foi exemplarmente punida a liderança do golpe, o que é um acontecimento extraordinário não só para o Brasil, mas para o mundo. Então, qual é a outra possibilidade que resta para extrema-direita, estando afastada, pelo menos temporariamente, a possibilidade de golpe? É o manual tradicional do autoritarismo do século 21, que é ir corroendo as instituições por dentro. Nesse sentido, eles têm mais direção do que todo mundo”.
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Esta é uma versão editada. Você pode ler a íntegra da entrevista do filósofo Marcos Nobre à BBC Brasil.
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