Movimento aposta na reabertura dos cinemas de rua de SP
Notícias sobre volta do Cine Copan e incentivos sociais tentam restituir a vocação urbana e a sociabilidade do Centro Velho
Carlos Augusto Calil, professor e ex-Secretário Municipal de Cultura, Renata Forato e Marcelo Colaiácovo, gestores culturais, se juntaram para articular o retorno e a revitalização dos cinemas de rua, do Centro Velho de São Paulo, à antiga Cinelândia (região das Avenidas Ipiranga e São João, próxima à Praça da República) e à Boca do Lixo.
O movimento é uma resposta ao esvaziamento da região. A ideia é reintegrar cultura e inclusão social ao tecido urbano, promovendo um modelo de sociabilidade que contrasta com a experiência isolada dos shopping centers.
O declínio de um polo de entretenimento
A capital tem história com a sétima arte, especialmente na região central. Entre os anos de 1930 e 1960, o cinema era a principal forma de divertimento popular. Antes que a televisão se estabelecesse, ir ao cinema toda semana era um hábito social difundido.
A área conhecida como Cinelândia abrigava salas de grande porte, como o Bijou Theatre, Comodoro, Coral, Cine Espacial, Regina, Rivoli e o Cine Copan. Alguns desses espaços tinham capacidade para receber mais de mil pessoas.
Carlos Augusto Calil, professor da USP, lembra que “a Cinelândia era o bairro que concentrava todos os cinemas. Naquela época, décadas de 40, 50, o cinema era a grande diversão popular, não havia televisão. A televisão estava começando em 50. Então todo mundo ia ao cinema, toda semana. E os melhores cinemas ficavam no centro”.
Mas a absorção das salas em shopping centers, a insegurança na região e a transferência do eixo econômico do Centro, contribuiu para o fechamento em massa dessas salas. O núcleo urbano se deslocou inicialmente para a Avenida Paulista, e mais tarde, seguiu para a região da Faria Lima.
O desligamento das atividades das salas antigas resultou no abandono da infraestrutura. Esse vazio, em alguns casos, foi preenchido pela exibição de filmes adultos. Na Cinelândia histórica restam poucas salas em funcionamento, como a Galeria Olido, o Cineclube Cortina e o reformado Marabá.
Calil lamenta o estado de abandono, mas vê nos cinemas os “os traços que guardaram do antigo centro da cidade”. Ele tem esperança de conseguir recuperar algumas dessas salas.
A cultura como elemento de transformação
Melancolia à parte, a notícia da possível reabertura de salas emblemáticas, como o Cine Copan, traz algum alento.
Na Boca do Lixo, próximo à Estação da Luz, o cinema Soberano, localizado na Rua do Triunfo, é um foco de resistência. O cinema, que foi um ponto de encontro de cineastas até seu fechamento em 1994, reabriu em março do ano passado.
Gerido por Renata Forato e Marcelo Colaiácovo, o espaço funciona como bar, museu e – principalmente – cinema. Eles apostam na cada vez mais rara prática do cinema analógico na capital. O casal reconhece a dificuldade de administrar um cinema de rua, embora se sintam realizados por atuar em uma região marcada pela vulnerabilidade social.
Renata Forato expõe a complexidade do modelo de negócio: “Cinema de rua não é fácil. Cinema de rua, trabalhando só para o cinema, vai ser barra pesada para o cara”.
Os administradores questionam a falta de incentivo público para democratizar o acesso à arte. O Soberano, contudo, funciona como um espaço de união para estudantes, trabalhadores, cinéfilos e a população em situação de rua.
Um projeto social chamado “Luz na Tela” exemplifica o poder inclusivo desses espaços. A iniciativa exibe filmes para a população de rua na Estação da Luz.
Renata Forato narra o impacto de uma dessas sessões: “As crianças de classe mais baixa viram no cinema? Não! Custa R$ 70, cara. A gente passou no Luz na Tela, que é nesse projeto da Estação da Luz. A gente nunca viu um projeto tão cheio de criança. Era ônibus de criança parando para assistir de graça, com pipoca e guaraná. Isso é transformador”.
Apesar dos desafios, há o reconhecimento de um retorno, ainda discreto, dos cinemas de rua. Esse movimento é estimulado por incentivos fiscais e pela retomada da vida noturna.
Calil diferencia a experiência do cinema de rua, que é “um ponto de encontro que se dá no tecido urbano”, da sensação de estar “enfiado em uma caixa, como num shopping center”. O professor conclui que a recuperação da cidade exige mais do que apenas moradia; a cultura é um fator essencial de habitabilidade.
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Comentários (1)
Eliane ☆
30.09.2025 21:39O cine Biarritz, na av.Brigadeiro Luiz Antônio, Metro 1 e 2,na Av. São João. Quanta saudade.