Ministério da Saúde confirma morte de bebês Yanomami
Governo e lideranças indígenas divergem sobre causas do avanço da doença no território; associações acusam atraso federal
Três bebês do povo Yanomami morreram em decorrência de coqueluche, segundo confirmação do Ministério da Saúde. O número pode ser maior, conforme alertam representantes indígenas. Há 16 casos confirmados da doença e seis pacientes permanecem internados.
O surto concentra-se no território Yanomami, em Roraima, e expõe uma disputa entre lideranças indígenas e o governo federal sobre as razões do avanço da infecção.
O presidente da Urihi Associação Yanomami, Hekurari Yanomami, atribuiu as mortes à falta de imunizantes no território. Em entrevista ao Estadão publicada nesta sexta-feira, 27, ele afirmou que o governo não enviou vacinas à região, deixando recém-nascidos sem proteção.
“Minha comunidade está enfrentando surto de coqueluche, já removeram crianças, são recém-nascidas, são meses de idade. Não ouviram o som da floresta e morreram de coqueluche por falta de cuidado, porque o Ministério da Saúde e o governo não mandaram as vacinas”, disse Hekurari.
Governo nega falhas e aponta avanço na vacinação
O Ministério da Saúde rejeitou as acusações. Em nota, a pasta afirmou que o programa de imunização na região não apresenta fragilidades, e que a cobertura vacinal entre crianças com menos de um ano dobrou nos três anos anteriores – de 29,8% em 2022 para 57,8% em fevereiro de 2025.
A vacina em questão é a pentavalente, que protege contra coqueluche, difteria, tétano, hepatite B e infecções por Haemophilus influenzae b, administrada no segundo, quarto e sexto mês de vida.
Os próprios dados do ministério, porém, indicam lacunas. O plano de contingência elaborado pela pasta registrou que, até 19 de fevereiro, apenas 56% dos bebês abaixo de um ano no polo base de Surucucu – o principal do território – tinham o esquema vacinal completo. O índice está abaixo do mínimo recomendado para conter a circulação do vírus.
Atraso no alerta e força-tarefa
As associações Urihi e Hutukara enviaram, em 23 de fevereiro, um ofício aos Distritos Sanitários Especiais Indígenas (DSEI) Yanomami e Ye’kwana, à Secretaria de Saúde Indígena e à Casa de Governo em Roraima para questionar a demora na comunicação sobre o surto.
O alerta epidemiológico foi disparado apenas em 19 de fevereiro. As entidades apontam que, mesmo em reunião com os DSEI no dia 20 de fevereiro, não foram informadas sobre a classificação oficial do surto.
A Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab) afirmou, em nota, não ter recebido informações que confirmem falta ou atraso no envio de vacinas. A entidade disse acompanhar a situação e que, se irregularidades forem identificadas, acionará os órgãos competentes.
Diante do surto, o Ministério da Saúde montou uma força-tarefa. Desde o início de fevereiro, foram realizados 1.048 atendimentos e vacinados 108 indígenas no DSEI Yanomami. A pasta também registrou 350 ações de quimioprofilaxia – administração de medicamentos preventivos contra a doença.
“Além do reforço da vacinação, está sendo realizada busca ativa e coleta de material de análise clínica. Todos os pacientes com suspeita de coqueluche e contactantes estão em tratamento e acompanhamento do seu estado de saúde”, informou o ministério.
O território Yanomami vive uma crise sanitária prolongada. Em janeiro de 2023, Lula visitou a região e decretou estado de emergência. O governo promoveu a retirada de garimpeiros e reabriu postos de saúde desativados. Em janeiro de 2024, a própria administração federal reconheceu que as medidas adotadas até aquele momento não haviam sido suficientes para resolver o problema.
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