Mais de 50 políticos do Ceará envolvidos com facções, aponta investigação
"É uma investigação em andamento. A gente vai trabalhar exatamente essas investigações para impedir que essas pessoas saiam candidatas ou sejam reconduzidas", disse o promotor de justiça
Em entrevista publicada pelo jornal cearense O POVO, o promotor de justiça Adriano Saraiva, nome do Ministério Público Estadual (MPCE) e que está à frente das operações que combatem a ação das facções criminosas no Ceará, declarou que mais de 50 políticos no Ceará estariam envolvidos com facções criminosas.
“Segundo as informações, são mais de 50 políticos no Estado. É uma investigação em andamento. A gente vai trabalhar exatamente essas investigações para impedir que essas pessoas saiam candidatas ou sejam reconduzidas”, disse Saraiva, que desde 2021 ocupa a coordenação do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado no Ceará (Gaeco), núcleo que integra desde 2018.
Na entrevista, o promotor destaca que a principal dificuldade no combate às organizações criminosas é a agilidade com que elas operam. Atualmente, as decisões da facção mais proeminente do estado, o Comando Vermelho (CV), são tomadas diretamente do Rio de Janeiro, onde se encontram seus líderes.
Entre os indivíduos mais influentes do CV no Ceará está “ZM” (José Mário Pires Magalhães), que escapou da grande operação realizada em 31 de maio deste ano na comunidade da Rocinha, a qual envolveu a ação conjunta de autoridades do Rio e do Ceará.
A operação tinha como alvo 29 membros da facção, mas apenas dois foram capturados, enquanto os outros conseguiram fugir.
De acordo com levantamentos realizados pelo Gaeco, aproximadamente 200 membros do CV estão atualmente refugiados no Rio de Janeiro, número significativamente maior do que os 40 citados anteriormente pela Secretaria da Segurança Pública e Defesa Social do Ceará (SSPDS).
Adriano analisou a evolução das ações do Gaeco diante da crescente sofisticação do crime organizado, destacando que as facções estão muitas vezes associadas a agentes de segurança pública corruptos, complicando as investigações.
Atualmente, os principais alvos do Gaeco são as lideranças da facção no Rio de Janeiro. Segundo Saraiva, esses indivíduos estão há cerca de três anos na região fluminense e utilizam rotas estabelecidas entre o Ceará e o Rio para se deslocarem.
Ceará e o crime organizado
A ascensão das facções no Ceará é marcada por violência extrema e recrutamento agressivo entre jovens vulneráveis.Os dados revelam um cenário alarmante: cerca de mil mortes atribuídas ao CV nos últimos três anos no Ceará.
A hierarquia dentro das facções é bem definida, com ZM sendo reconhecido como o líder absoluto do CV no Ceará. Apesar das lideranças locais possuírem certa autonomia anteriormente, hoje todas devem submeter suas decisões às ordens emanadas do Rio.
A cooperação entre as forças policiais do Ceará e do Rio foi fundamental nas operações conjuntas. No entanto, Adriano admitiu que houve surpresas durante as operações, especialmente quanto à quantidade inesperada de membros das facções identificados.
Políticos e facções criminosas
No que diz respeito a relação direta de políticos com o crime organizado, o promotor de justiça destaca a Operação Voto Livre:
“Tivemos a Operação Voto Livre, de Santa Quitéria. Foi uma operação inédita no Brasil, do ponto de vista eleitoral. Existiam informações sobre políticos envolvidos com o crime organizado, mas, até então, não tínhamos uma prova concreta, principalmente de um prefeito vinculado a uma facção criminosa. Nessa operação, identificamos que o prefeito de Santa Quitéria tinha, sim, uma relação direta com uma dessas lideranças que estavam no Rio”, afirmou.
Na investigação relacionada a Santa Quitéria, houve a descoberta da estreita relação entre o crime organizado no Ceará e no Rio de Janeiro.
“Inclusive descobrimos, durante a investigação, que esse prefeito havia mandado aqui um veículo e o valor de R$ 1,5 milhão para serem entregues a essa liderança do Rio. Para que ele pudesse pagar os membros da facção, que estavam vindo aqui para o Ceará, para ameaçar os eleitores do opositor desse candidato, que era prefeito e foi inclusive, reconduzido”, afirmou, relembrando o caso de Braguinha (PSB), que foi cassado e segue em prisão domiciliar.
Saraiva destaca a inédita comprovação de ligação entre um gestor municipal e o crime organizado:
“Houve uma Ação de Investigação Judicial Eleitoral (AIJE), e tem uma ação penal. Na AIJE, ele foi cassado e o próprio Tribunal Regional Eleitoral do Ceará (TRE-CE) manteve a decisão e a ação penal está tramitando. Foi algo inédito, na seara eleitoral, a comprovação da ligação do prefeito com a facção criminosa”.
Leia também: Megaoperação mira líderes cearenses do Comando Vermelho no Rio
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Comentários (1)
Carlos Renato Cardoso Da Costa
12.08.2025 17:05Narcoestado. Se o dedo do pé apodrecer é melhor cortar, sob pena de apodrecer o resto do corpo.