Josias Teófilo na Crusoé: O declínio estético do catolicismo
As igrejas deixaram de ser o lugar do encontro com o mistério para tornarem-se um ambiente racionalmente projetado.
A história da arte nos últimos dois milênios tem forte presença da Igreja Católica.
O que acontece dentro da igreja repercute na sociedade como um todo, mas também acontece o contrário: o que acontece na sociedade em geral repercute dentro da igreja.
O estilo gótico, por exemplo, nasceu dentro da Igreja e se difundiu na sociedade – nasceu especificamente na Basílica de Saint-Denis, em Paris, concebida pelo Abade Surger.
Depois virou arquitetura civil, e teve ressurgimentos como arquitetura de igrejas católicas e protestantes pelo mundo.
O Renascimento surgiu em ambientes católicos, e foi amplamente promovido dentro da Igreja Católica — a sede da Igreja no Vaticano é renascentista e barroca: a Basílica de São Pedro.
Porém, foi no Renascimento que iniciou-se o processo de dessacralização da arte religiosa, processo que não parou nos últimos cinco séculos.
No Renascimento, os artistas desenvolveram uma obsessão pelo realismo, que pode ser muito bem ilustrada pelo comentário de Théophile Gautier sobre a Mona Lisa: “Ela fala!”. Ou seja, é tão realista que só falta falar.
No período medieval, os artistas estavam muito mais interessados em representar o outro mundo, a realidade do céu, mesmo quando tratavam de um fato que aconteceu na terra, como a vida, morte e ressurreição de Cristo — é por isso que eles se utilizavam da perspectiva inversa (um princípio da iconografia ortodoxa em que as linhas não convergem para dentro da imagem, mas se abrem em direção ao observador).
Se você observa uma catedral gótica, vê um ícone religioso, ou ouve um canto gregoriano sabe prontamente que está lidando com o sagrado – mesmo que não reconheça a cena representada no ícone, ou entenda a letra do que é cantado.
É que o sagrado está na forma, e não somente no conteúdo.
A partir do Renascimento, a forma com que se representa Nossa Senhora ou uma dama da sociedade não é substancialmente diferente.
Mais recentemente, a partir do século 20, uma igreja não se diferencia formalmente de um edifício civil – nem mesmo as católicas.
Antigamente, mesmo uma igreja pequena e simples tinha um frontão triangular e uma cruz. Hoje, nem isso ela precisa ter.
Com o modernismo em arquitetura, veio a liberdade formal de inovar: Oscar Niemeyer projetou a Igrejinha de Brasília em formato de chapéu de freira.
O protestantismo teve grande impacto na dessacralização da arte, ao negar quase totalmente a representação religiosa, e construir igrejas simples, brancas e despojadas.
Para os protestantes, o templo não é sagrado em si, mas a assembleia dos fiéis. O importante é a pregação, e não o edifício.
Infelizmente, o protestantismo…
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