HC de SP chega a mil transplantes de medula em dez anos
Unidade do hospital público renova técnicas, amplia faixa etária dos pacientes e projeta acesso da terapia CAR-T Cell ao SUS em dois anos
A Divisão de Hematologia, Hemoterapia e Terapia Celular do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP atingiu a marca de mil transplantes de medula óssea ao longo de uma década. O índice de sobrevida dos pacientes submetidos ao procedimento passou de 30% para 70% no período, impulsionado por mudanças técnicas, estruturais e terapêuticas na unidade.
O professor Vanderson Rocha, responsável pela divisão, atribui o avanço a uma combinação de fatores: a incorporação de novos conhecimentos médicos, a adoção de tecnologias mais modernas e a abertura do procedimento a perfis de pacientes antes excluídos do protocolo.
Doadores incompatíveis e nova estrutura hospitalar
Uma das mudanças de maior impacto foi a possibilidade de realizar transplantes com doadores que não apresentam compatibilidade plena com o receptor. Segundo Rocha, “antigamente não tínhamos essa possibilidade de fazer transplantes incompatíveis”. A ampliação do leque de doadores elegíveis contribuiu para o aumento do volume de procedimentos ao longo dos anos.
A faixa etária dos pacientes atendidos também foi estendida. Se antes o limite era de 50 anos, atualmente o transplante pode ser indicado a pessoas de até 70 anos. A mudança reflete tanto a melhora no suporte clínico quanto a segurança proporcionada pela nova unidade, instalada no 8º andar do HC, com mais leitos e ambiente protegido contra contaminações externas.
O controle de infecções evoluiu. A divisão incorporou novos antibióticos e técnicas de detecção de agentes infecciosos por biologia molecular, o que reduziu complicações no pós-transplante e contribuiu para o aumento da sobrevida.
CAR-T Cell e inteligência artificial no horizonte do SUS
Entre as terapias em uso, destaca-se a CAR-T Cell, aplicada a pacientes com linfoma. O tratamento consiste na retirada de células do organismo, sua modificação em laboratório para que adquiram capacidade de combater células cancerosas, e a posterior reinfusão no paciente. O ciclo completo dura cerca de um mês.
O custo do procedimento, porém, é proibitivo: aproximadamente US$ 2 milhões por paciente. Para viabilizar o acesso pelo Sistema Único de Saúde, o Hemocentro e a Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da USP desenvolvem pesquisas em conjunto. Rocha estima que a terapia possa estar disponível no SUS em cerca de dois anos.
O Centro de Pesquisa Clínica da Hematologia conduz atualmente 80 estudos de alta complexidade com novas terapias: “Esperamos que o ano que vem já tenhamos alguns resultados para poder ser liberado para a Anvisa para o uso dos pacientes do SUS”, disse Rocha.
A divisão também firmou acordo com uma empresa chinesa para ampliar o uso da CAR-T Cell a pacientes com mieloma múltiplo. Em paralelo, foi criado um núcleo de inteligência artificial voltado ao aprimoramento de diagnósticos e à elaboração de algoritmos para decisões terapêuticas — tanto na prática clínica quanto nas pesquisas em andamento.
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