Gustavo Nogy na Crusoé: Que me perdoe o patrão, às vezes também prefiro não
Toda a vida contemporânea é um sim para tudo o que nos pedem, nos mandam, nos exigem, nos ameaçam, nos sussurram
Nunca se falou tanto em produtividade. Em assertividade. Em proatividade.
Qualquer dispositivo que se encontre ou se invente, qualquer propriedade que se descubra ou se desenvolva, qualquer programa, princípio, fórmula, composto, método, algoritmo, credo, manual, abordagem, pedagogia – só nos interessam enquanto interessem à multiplicação de coisas, ao acúmulo de coisas, ao consumo de coisas.
E essas coisas podem ser, e cada vez mais são, afazeres.
Precisamos de mais. Precisamos de muito. Precisamos que seja agora. Daqui a pouco é tarde. Depois é inaceitável. Amanhã é nunca.
Outro dia, assisti a um breve e vulgar manifesto de uma certa influenciadora – que não sei a quem e a respeito de que influencia. O nome não vem ao caso porque ela é um, é todos, é nenhum.
O que importa é que, hipnotizada pelo próprio mantra, dizia ter preconceito contra aqueles que acordam tarde. Sem contexto, senões ou nuances.
Acordar tarde é não fazer coisas, e não fazer coisas é não ser alguém. Ela, segundo consta, faz coisas e, segundo afirma, é alguém.
Quase fascinado pelo fanatismo produtivista da moça, que poderia facilmente ser confundida com um conjunto de prompts do Gemini, fui à estante e procurei no amontoado o antídoto: Bartleby, o escrivão, pequena novela de Herman Melville, mais famoso como autor de Moby Dick.
Num pequeno escritório de advocacia em Wall Street, um jovem escrivão é contratado para fazer serviços simples e intranscendentes: cópias, ditados, relatórios, contas.
Seu patrão, homem consciencioso e afável, parece satisfeito com a presteza de Bartleby.
E Bartleby, a seu modo, parece satisfeito com o que faz.
Até que um dia não parece mais satisfeito. Uma pequena recusa vira do avesso a ordem do escritório, do advogado, dos colegas, de Wall Street, quiçá do mundo todo.
Chamado às pressas…
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