Dennys Xavier na Crusoé: Herança sem voz
Os gregos de hoje praticamente não estudam seus próprios filósofos. Mesmo assim, somos todos gregos
Os gregos de hoje praticamente não estudam seus próprios filósofos.
Tenho ouvido isso durante minha atual viagem à Grécia. No começo, isso me pareceu um exagero. Depois, incômodo com arestas. Por fim, foi uma revelação.
Não é uma constatação dita com orgulho, nem com vergonha. Soa mais como um fato banal, conformado, desses que emergem numa conversa qualquer e seguem adiante.
Ainda assim fico com aquilo na cabeça por dias… talvez porque contrarie uma expectativa silenciosa.
A tradição que moldou parte decisiva do pensamento ocidental não desapareceu do mundo, mas desapareceu da vida cotidiana de quem a produziu.
E o curioso é que isso não acontece só aqui. Em quase todo lugar, até mesmo entre pessoas muito instruídas, Sócrates, Platão ou Aristóteles aparecem mais como nomes familiares do que como presenças reais.
Estão por perto, mas de maneira difusa, meio decorativa. Permanecem como referências simbólicas, raramente como interlocutores, merecedores de escuta crítica.
Mesmo assim, continuamos pensando com eles. Mesmo sem saber.
A ideia de discutir o que é justiça, por exemplo, não surgiu naturalmente em qualquer sociedade humana.
Ela precisou ser inventada como problema. A noção de que a vida pode ser examinada com rigor, debatida em público, posta em questão sem apelo imediato à autoridade religiosa ou ao costume herdado, também precisou surgir em algum momento.
Isso não acontece sozinho, no automático. Alguém começa. Alguém insiste. Alguém transforma a pergunta em hábito.
Hoje essas coisas parecem tão evidentes que raramente lembramos que tiveram origem, um momento inicial no tempo.
Herdamos…
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