Dennys Xavier na Crusoé: A cidade sitiada
A verdadeira cidade não é aquela que se abstém de punir, mas a que sabe punir com medida, direção e propósito
A tradição clássica, desde Aristóteles, jamais confundiu a violência da injustiça com a força da justiça.
Para o filósofo da pólis, a krátos (o poder de ação) não é um mal em si, mas um instrumento da razão quando submetido à díkē, à justiça.
A verdadeira cidade não é aquela que se abstém de punir, mas a que sabe punir com medida, direção e propósito.
A força legítima é aquela que nasce da responsabilidade de preservar a ordem, proteger os inocentes e restaurar o equilíbrio violado.
Quando o Estado empunha a espada não por ira, mas por dever, ele não se iguala ao criminoso: ele o enfrenta com autoridade moral superior.
Ignorar essa distinção é lançar a cidade no abismo da anarquia sentimental, em que toda repressão é lida como abuso, e toda firmeza como opressão.
Se desejamos reparar o que foi corrompido, devemos reabilitar a coragem da autoridade (por óbvio, não como tirania, mas como expressão madura da razão política).
Pois uma cidade que renuncia ao direito de defender a si mesma, cedo ou tarde, se curva diante daqueles que jamais desistiram de conquistar pelo medo o que não conquistariam pela justiça.
A verdadeira barbárie, então, não é a que vimos pelas telas dos nossos celulares ou televisores nesses dias marcados por incredulidade.
É a de bem antes, a que foi tolerada. A barbárie não começou com os tiros nas encostas nem com os blindados a rasgar as vielas.
Começou muito antes, nos gabinetes confortáveis da burocracia em que a covardia foi travestida de prudência, nas redações em que o medo de parecer severo foi disfarçado de compaixão, nas universidades onde a indulgência se fez doutrina/ideologia e o criminoso se tornou personagem romântico, caricato: uma “vítima” sempre, apesar de tudo.
O que vivemos agora é apenas o saldo. O preço do que denomino um “adiamento moral”. Porque a civilização não se destrói de fora: ela apodrece por dentro, lentamente, enquanto seus próprios guardiões desistem de defendê-la (ou se enganam nas escolhas pensadas para a tarefa).
Por décadas, ensinou-se ao cidadão que reagir era violência, que punir era vingança, que conter era opressão.
A cada crime desculpado, a cada transgressão relativizada, a cada morte esquecida sob o pretexto da “inclusão social”, mais um tijolo da ordem era removido.
E agora, quando o edifício desaba, muitos se horrorizam com a poeira manchada por sangue. Fingem espanto diante do caos que eles próprios ajudaram a parir.
Não, a barbárie não é o hoje: o hoje é…
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Comentários (1)
Celia Maria Penedo
01.11.2025 09:55Excelente reflexão. Parabéns