Defesa de Brazão ironiza delação do assassino de Marielle
“Criação mental”, é como advogado classifica colaboração do ex-PM; acusados dizem que réu busca proteger outro investigado
O julgamento dos supostos mandantes do assassinato da vereadora Marielle Franco (PSOL) e de seu motorista Anderson Gomes entrou em uma fase decisiva no Supremo Tribunal Federal nesta terça-feira, 24.
As defesas dos réus concentraram seus argumentos na descredibilização da delação do ex-policial militar Ronnie Lessa, que confessou ter executado os dois e apontou os demandantes do crime.
O advogado Cleber Lopes de Oliveira, que representa o ex-deputado Chiquinho Brazão, afirmou durante a sustentação oral que a colaboração de Lessa não encontra respaldo nos autos do processo.
“A delação do senhor Ronnie Lessa é uma criação mental. Ronnie Lessa tem uma virtude: é articulado, inteligente, escreve bem. Nas respostas durante a instrução, fugia das dificuldades. Mas ela efetivamente esbarra nos fatos”, declarou Oliveira.
Os argumentos da defesa
Além de Chiquinho, respondem ao processo seu irmão Domingos Brazão, o delegado Rivaldo Barbosa e dois policiais militares. A defesa sustenta que não existem provas independentes – exigidas por lei para validar uma colaboração premiada – que confirmem os encontros descritos por Lessa entre ele e os irmãos Brazão, tampouco evidências de contato entre eles e Rivaldo Barbosa.
Oliveira também sugeriu que Lessa tenta desviar atenções do ex-vereador Cristiano Girão, investigado pela Polícia Civil como possível mandante. Um dos indícios apontados pela defesa é que o ex-PM teria tentado dissociar Girão de outro homicídio pelo qual ambos respondiam. Em 2024, os dois foram condenados juntos por esse crime, contradizendo a versão apresentada pelo colaborador.
O advogado lembrou que agosto de 2017 – período apontado por Lessa como momento em que a trama contra Marielle se intensificou – coincide com a época em que Girão recebeu indulto.
“Agosto de 2017 é o período que Girão é indultado. Quem sofreu consequências da CPI das Milícias? Não foi Chiquinho”, argumentou.
A defesa pontuou ainda que divergências políticas entre parlamentares são corriqueiras e não configuram motivação para um crime.
A posição da acusação
A Procuradoria-Geral da República (PGR) sustenta que Domingos e Chiquinho Brazão ordenaram o assassinato para barrar a atuação de Marielle contra práticas de grilagem de terras que beneficiavam a família.
Segundo a acusação, o atrito entre os Brazão e integrantes do PSOL remonta a 2008, quando a CPI das Milícias, conduzida pelo então deputado Marcelo Freixo na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro, investigou o grupo.
A PGR afirma que o planejamento do crime teve início em 2017 e que a preparação se intensificou no segundo semestre daquele ano. Para a Procuradoria, depoimentos colhidos ao longo da instrução e outras provas documentais confirmam a participação dos irmãos Brazão no comando de uma milícia na zona oeste do Rio, além da influência de Rivaldo Barbosa sobre investigações conduzidas na Delegacia de Homicídios – incluindo a apuração do próprio caso Marielle.
A acusação argumenta que a ausência de rastros físicos é característica de organizações criminosas que contam com policiais experientes em seus quadros, o que explicaria a escassez de registros diretos. Ao encerrar sua fala, o advogado de Chiquinho Brazão reconheceu o peso social do caso.
“É angustiante não saber quem mandou matar Marielle. Não podemos, apesar disso, sacrificar a liberdade de pessoas ao arrepio das provas dos autos”, disse Oliveira.
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