Como ler uma carta
Na próxima vez que ler um texto, a única certeza que pode ter é a de que você não vê o mundo do jeito que ele é, mas sim, do jeito que você é
No final dos anos 1970, um trio de cientistas da Stanford — Mark Lepper, Lee Ross e Charles Lord — descobriu algo surpreendente ao pedir para dois grupos de pessoas lerem estudos científicos sobre a eficácia da pena de morte. Mal sabiam os cientistas que, quase 50 anos depois, seu estudo explicaria um comportamento bizarro de parte da população brasileira.
Os participantes do experimento, pessoas favoráveis e contrárias à pena de morte, deveriam ler um estudo que mostrava que a pena de morte era ineficaz, bem como, outro que revelava que a pena de morte reduzia a criminalidade. Para ilustrar fielmente o que aconteceu, os textos apresentados aos participantes foram os seguintes:
Pesquisa a favor da pena de morte
Kroner e Phillips (1977) compararam as taxas de homicídio dos anos anterior e seguinte a adoção da pena de morte em 14 estados. Em 11 dos 14 estados, as taxas de assassinato foram menores após a adoção da pena de morte. Esta pesquisa comprova o efeito intimidador da pena de morte.
Pesquisa contra a pena de morte
Palmer e Crandall (1977) compararam as taxas de homicídio em 10 pares de estados vizinhos com diferentes leis de punição. Em 8 dos 10 pares, as taxas de assassinato eram maiores em estados com pena de morte. Esta pesquisa refuta o efeito intimidador da pena de morte.
Julgamento
Logo em seguida, os participantes deveriam julgar a qualidade de ambos os estudos e, aqui, veio a grande surpresa: apesar de terem lido textos com a mesma quantidade de informações, os participantes julgavam que os estudos científicos que confirmavam seus pontos de vista haviam sido bem-feitos, enquanto os contrários as suas crenças eram mal formulados e apresentavam dados inconclusivos. Abaixo, estão os depoimentos de dois participantes:
Participante favorável à pena de morte
Confiabilidade do estudo favorável à pena de morte
“Parece que os pesquisadores estudaram um grupo de estados selecionados cuidadosamente e foram cautelosos ao analisar os dados.”
Confiabilidade do estudo contrário à pena de morte
“A pesquisa não cobriu um período longo o suficiente para provar que a pena de morte não é eficiente em deter os assassinatos.”
Participante contrário à pena de morte
Confiabilidade do estudo favorável à pena de morte
“O estudo foi feito apenas um ano antes e depois da pena de morte ser instituída. Para ser mais eficiente o estudo deveria ter coletado dados de pelo menos 10 anos.”
Confiabilidade do estudo contrário à pena de morte
“Os estados foram escolhidos aleatoriamente, portanto os resultados mostram os efeitos médios da pena de morte através da nação. O fato de que 8 de 10 estados mostram um aumento nos assassinatos destaca-se como boa evidência.”
Crenças
Você deve estar curioso para descobrir como é possível as pessoas lerem os mesmos textos e chegarem a conclusões completamente contrárias, certo? O mais impressionante é que, além dos textos, os participantes ainda receberam gráficos, dados e explicações sobre a metodologia de ambas as pesquisas e, como você deve imaginar, essas informações adicionais também eram praticamente idênticas.
Em outras palavras, os cientistas manipularam os estudos para tornar impossível chegar a uma conclusão sobre qual deles era mais convincente.
No entanto, o cérebro humano é capaz de peripécias que desafiam as leis da racionalidade. Os cientistas nomeiam a nossa tendência em aceitar rapidamente os dados que confirmam nossas crenças, ao mesmo tempo em que prontamente descartamos as informações que colocam nossas crenças em risco, como Raciocínio Motivado. Esse viés explica como chegamos a conclusões totalmente diferentes lendo os mesmos dados.
Diferentemente do que acreditamos, o nosso cérebro não é uma máquina que levanta as informações de ambos os lados de um assunto, compara os dados meticulosamente e chega a uma conclusão imparcial – nosso cérebro é movido pelo desejo que temos de estarmos certos!
Nós temos uma grande dificuldade em admitir erros passados, como por exemplo, o voto em um candidato que se demonstrou desonesto. Como não queremos admitir para nós mesmos, e muito menos para os outros, que fomos enganados e votamos em um corrupto, o cérebro rapidamente distorce a realidade e chega a uma conclusão que massageia o nosso ego – nosso político de estimação está sendo injustamente perseguido!
Realismo Ingênuo
Esse processo de achar uma desculpa esfarrapada para continuar com uma imagem positiva de nós mesmos – mesmo que isso prejudique o nosso próprio país – é conhecido como Dissonância Cognitiva. No entanto, descartar informações contrárias as nossas crenças e inventar desculpas peculiares para idolatrar políticos trapaceiros não satisfaz o cérebro por completo, nós queremos ter um sentimento ainda mais gostoso: o de que temos uma inteligência superior à das demais pessoas.
Os cientistas chamam de Realismo Ingênuo a ilusão que temos de que somente nós temos o superpoder de ler um texto e “enxergar o mundo do jeito que ele é”, com total precisão e objetividade dos fatos, processando as informações de forma neutra, sem qualquer influência de vieses. Dessa forma, qualquer pessoa que interpreta o mesmo texto que lemos de maneira diferente é estúpida e mal-intencionada.
Perceba que ao interpretar uma informação, o seu cérebro prioriza o prazer, e não a precisão. Portanto, na próxima vez que ler um texto, a única certeza que pode ter é a de que você não vê o mundo do jeito que ele é, mas sim, do jeito que você é.
Luiz Gaziri é professor de Ciências Comportamentais, palestrante e autor de “A Arte de Enganar a Si Mesmo,” livro duas vezes semifinalista do Prêmio Jabuti 2024.
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Comentários (1)
Rosa
16.07.2025 11:46Gostaria de mandar este texto para um monte de gente, principalmente parentes.....