Avaliação mostra desempenho fraco em cursos de medicina
Dados do Enamed revelam que 107 instituições de ensino brasileiras apresentam índices de proficiência abaixo de 60% entre seus graduandos
O Exame Nacional de Avaliação da Formação Médica (Enamed) registrou que 107 das 351 graduações em medicina analisadas no Brasil tiveram aproveitamento insatisfatório. O índice de alunos considerados proficientes nessas instituições não atingiu o patamar de 60%.
Em conversa com o Estadão, Carlos Frederico Sparapan Marques, professor livre docente da Faculdade de Medicina da USP, indicou que os dados eram esperados pelo setor acadêmico.
O professor manifestou preocupação com o volume de profissionais que ingressam no mercado sem a capacitação plena. Marques descreve a situação como um problema grave que reflete de forma direta na qualidade do atendimento aos pacientes:
“Nós do meio acadêmico, já esperávamos que a qualidade do que seria entregue nesses cursos seria muito aquém devido à abertura totalmente desproporcional das faculdades de medicina ao longo dos últimos anos”.
A quantidade de alunos com formação incompleta foi apontada como um fator de alerta pelo especialista. “Mas essa nota trouxe um susto, porque, a quantidade de gente que está sendo subformada é grande. Agora a gente tem que cuidar de uma doença gravíssima, que é quando o médico trata mal o paciente”, afirmou Marques.
Limitações de infraestrutura física e prática
O diagnóstico das avaliações remete à falta de estrutura básica em diversas instituições distribuídas pelo território nacional. Para Marques, o estudo de conceitos teóricos é insuficiente para garantir a competência médica sem o suporte laboratorial.
O professor indica que certas faculdades operam sem os equipamentos e espaços necessários para o treinamento dos estudantes. Ele cita a ausência de locais para o ensino de anatomia e a falta de hospitais conveniados para o aprendizado prático.
“O médico ele não atende o paciente só do ponto de vista teórico. Não acredito que só voltar e estudar e tentar fazer uma prova melhor que vai transformar o curso desses lugares num curso melhor. Tem lugares que não tem laboratórios de anatomia, que não tem hospitais para atender”, declarou o cirurgião.
A análise sugere que a mudança na metodologia de avaliação, pleiteada por algumas entidades, não resolve as carências físicas das escolas. O foco deve estar na base estrutural oferecida ao aluno durante o período de graduação.
Contestação judicial e o papel da residência
A Associação Nacional das Universidades Particulares (ANUP) iniciou movimentos jurídicos para questionar os critérios utilizados na aplicação do Enamed. A entidade argumenta que existem falhas no método de aferição de conhecimento da prova.
Contudo, Marques contesta essa visão ao observar o desempenho de instituições tradicionais sob as mesmas regras de avaliação. Ele ressalta que faculdades consolidadas mantiveram índices elevados, o que validaria o instrumento de medição.
“Há métodos de avaliação que não são perfeitos, mas faculdades de renome mantiveram um desempenho muito elevado neste mesmo exame”, comentou o médico. A discrepância de notas entre instituições reforça a tese de falhas pedagógicas em vez de erros metodológicos no teste.
Como proposta de mitigação para as lacunas educacionais, o livre docente defende a adaptação dos programas de residência médica. Esta etapa de pós-graduação seria responsável por tentar suprir o conhecimento não absorvido na faculdade.
“Os programas de residência tem a possibilidade de corrigir algumas falhas e os cursos têm que estar preparados para receber esses alunos com essas notas abaixo do esperado”, sugeriu Marques. A preparação desses cursos de especialização passa a ser vista como um mecanismo de correção.
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Comentários (1)
Marian
27.01.2026 20:58Constatação da decadência do ensino no país.