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ANTAGONISTA DOCS: De quem é a culpa da tragédia no litoral?

A última calamidade do país, em São Paulo, traz à tona não apenas os estragos causados pelas mudanças climáticas, como aqueles gerados pela incompetência do Estado brasileiro em impedir que famílias vivam em áreas de risco. Assista a reportagem de vídeo sobre as chuvas do último fim de semana no litoral Norte paulista...

José Brito

Voluntários caminhavam entre os escombros das casas na Vila Sahy, na cidade paulista de São Sebastião, quando ouviram o grito de uma criança por socorro. Debaixo de um telhado, eles encontraram um menino assustado de 3 anos no colo de sua mãe. Ele não abria os olhos e sua boca parecia inchada. A mãe e o marido, ao seu lado, estavam sem sinais de vida. A família fora surpreendida por um deslizamento de terra, mas a criança resistiu até ser resgatada por um grupo de quinze pessoas. Outros dois filhos do casal eram dados como desaparecidos. Na mesma Vila Sahy — o ponto mais atingido pelas chuvas do Carnaval do litoral paulista — uma situação inversa foi registrada. Na terça (21), o bebê de 9 meses Levy Santos de Oliveira foi a primeira vítima do desastre a ser enterrada. Sua mãe ficou ilhada e conseguiu ser resgatada na segunda. Uma irmã de 9 anos precisou ser internada em um hospital na cidade vizinha. No funeral, em que o pequeno caixão branco foi carregado por duas pessoas, os pais recebiam a ajuda de psicólogos e de assistentes sociais. Essa última calamidade traz à tona não apenas os estragos causados pelas mudanças climáticas, como aqueles gerados pela incompetência do Estado brasileiro em impedir que famílias vivam em áreas de risco.  

Cinquenta e quatro mortos foram confirmados até esta sexta-feira (24), mas o total ainda pode aumentar, pois mais de 30 continuam desaparecidos. Quase todas as vítimas fatais eram de São Sebastião, no litoral norte paulista. A região foi a que recebeu a maior quantidade de chuvas em 24 horas na história do país. Entre a manhã do sábado (18) e o domingo (19) despencaram 680 mm de água em Bertioga e 626 mm em São Sebastião. O índice de Bertioga é o maior já documentado no país e corresponde a 680 litros de água por metro quadrado, em 24 horas. O volume daria para encher quatro banheiras individuais. A título de comparação, no temporal que deixou 240 mortos em Petrópolis, no Rio de Janeiro, há um ano, a quantidade de água acumulada foi de 534 mm nesse mesmo lapso de tempo. O índice anormal dos últimos dias foi o resultado do encontro de uma lenta frente fria vindo do sul, um centro de baixa pressão que estava no interior do país, a umidade que vem da Amazônia e o calor típico do verão no Sudeste. Resultado: a chuva que era esperada para todo o mês de fevereiro caiu em um único dia. “Foi um evento atípico, que resultou de uma combinação de fatores meteorológicos. Mas, com o aquecimento global, podemos esperar uma frequência maior de temporais como esse”, diz Andrea Ramos, meteorologista do Instituto Nacional de Meteorologia, InMet, em entrevista ao programa Meio-Dia em Brasília.  

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