O centrismo, essa heresia 

30.07.2026

logo-crusoe-new
O Antagonista

O centrismo, essa heresia 

avatar
Carlos Graieb
5 minutos de leitura 10.06.2024 14:57 comentários
Análise

O centrismo, essa heresia 

Nada deixa petistas e bolsonaristas mais confusos e irritados do que gestos de moderação

avatar
Carlos Graieb
5 minutos de leitura 10.06.2024 14:57
O centrismo, essa heresia 
Foto: Ricardo Stuckert

Nada é mais perturbador para petistas e bolsonaristas do que demonstrações de moderação. Nada os deixa mais em pânico ou furiosos. 

O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, tem causado esse desconcerto em crentes de ambos os lados da divisão política.  

Na última sexta-feira, 7, ao mesmo tempo que revelava ter convivido bem com Dilma Rousseff quando participou do governo da petista, mesmo sem concordar com ela politicamente, ele reclamou do patrulhamento a que é submetido pelo radicalíssimo Silas Malafaia, que o acusa de trair o bolsonarismo por não se comportar o tempo todo como um cão hidrofóbico.  

Do lado da esquerda, observa-se a necessidade permanente de “desmascarar” os gestos moderados de Tarcísio de Freitas como farsas de um político que, no fundo, não difere em nada de seu padrinho Jair Bolsonaro, como demonstrariam suas políticas de segurança pública e sua defesa das escolas cívico-militares. “Bolsonarista que sabe usar garfo e faca” é a fórmula empregada para desqualificá-lo.  

Um centro viável

Não pretendo defender Tarcísio de Freitas neste artigo. Isso equivaleria a fazer o que Celso Rocha de Barros, colunista da Folha de S. Paulo, fez no final de maio em relação a Lula, procurando apontar suas concessões ao centro na economia e na composição do governo (Alckmin, Tebet e, de novo, a turma de Kassab). 

A esta altura do campeonato – junho de 2024, faltando cerca de dois anos para a próxima eleição presidencial – interessa-me na verdade discutir o que pode ser uma posição centrista viável na política brasileira. Um centro que não viva das migalhas de atenção que os pragmáticos ou espertalhões da direita e da esquerda estão dispostos a lhe dar, sabendo que sem isso não há vitória possível nas urnas. 

O efeito enervante dos gestos de moderação sobre os radicais é um ponto de partida para mostrar que o centro tem substância. Petistas e bolsonaristas raiz ficam aflitos quando alguém do seu time faz um aceno para o outro lado: isso rouba deles a tranqulidade das certezas absolutas, da convição de que toda a justiça e toda a razão estão decantadas na ortodoxia que eles seguem.  

O centro, pelo contrário, aceita que o pluralismo é uma condição incontornável da vida nos tempos de hoje. Por isso, defende a tolerância como um valor fundamental. A alternativa à tolerância é a guerra civil – como já foi o caso 500 anos atrás, na época das guerras de religião na Europa.  

Mas isso é muito abstrato.  

Tolerância sem moleza

Uma reportagem publicada pelo Estadão na quarta-feira, 5, mostrou como a polarização afetou os partidos políticos brasileiros. Enquanto PT e PL conquistaram mais filiados nos últimos quatro anos, partidos tradicionalmente associados ao centro ou ao “centrão”, como MDB e PSDB, viram seus quadros encolherem.  

A reportagem remete a uma pesquisa da Universidade de São Paulo (USP) e da Universidade Federal de São Carlos (Ufscar), segundo a qual ver o seu grupo triunfar nas eleições não é o único motivo para que um eleitor dedique seu tempo à política: derrotar o inimigo tem quase a mesma importância como fator de engajamento, impulsionando a filiação partidária. Os pesquisadores chamam isso de “engajamento pelo ódio”

Se a tolerância é um valor fundamental para a política de centro, é óbvio que ela não pode trabalhar com a ideia de engajamento pelo ódio. Mas também não chegará a lugar nenhum se não assumir uma posição de combate contra seus adversários à esquerda e à direita. Moderado não pode ser sinônimo de “morno” ou “mole”, sob pena de não mobilizar ninguém.  

Políticas públicas

Uma das características do centro é avaliar e defender políticas públicas por seus méritos, com base em evidências, e não por mero reflexo ideológico.  

O centro leva a sério, por exemplo, os dados que mostram que câmeras corporais, onde foram adotadas, melhoraram o trabalho da polícia e a confiança dos cidadãos nos policiais.  

Também encara o fato que a indexação de despesas pelo salário mínimo e os gastos obrigatórios com saúde e educação, tal como previstos na Constituição de 88, se tornaram disfuncionais e precisam ser repensados, depois de 45 anos.  

O centro pode e deve fazer esse tipo de avaliação mostrando a covardia e a acomodação dos políticos que não mexem nesses vespeiros por medo de cara feia dos que compõem sua base. 

Parasitismo

O centro, é óbvio, precisa de políticos dispostos a disputar eleições pensando no médio prazo, em vez de praticar o parasitismo tão caro ao Centrão e tão bem exemplificado pelo PSD de Gilberto Kassab, que consegue se aninhar tanto no governo de Lula quanto no de Tarcísio de Freitas. Esses políticos são difíceis de encontrar. O parasitismo é vantajoso e não acarreta responsabilidades.  

Sei que é tolo ficar listando mandamentos. Mas este artigo resulta menos da certeza de dispor de uma receita para o centro do que do desgosto de imaginar mais uma eleição em que direita e esquerda vão cortejar o eleitor não alinhado atirando-lhe farelos.  

Minha única certeza é que a conversa sobre o centro precisa começar agora. e não em junho de 2026. Aceito sugestões.  

  • Mais lidas
  • Mais comentadas
  • Últimas notícias
1

Moro aponta “grande absurdo ilegal” no caso de Bolsonaro

Moro aponta “grande absurdo ilegal” no caso de Bolsonaro
2

Crusoé: Uma má notícia para Eunício Oliveira no Ceará

Crusoé: Uma má notícia para Eunício Oliveira no Ceará
3

A aposta de Derrite para chegar ao Senado

A aposta de Derrite para chegar ao Senado
4

Kalil lidera, e Marcelo Aro estreia em terceiro sem Cleitinho em MG

Kalil lidera, e Marcelo Aro estreia em terceiro sem Cleitinho em MG
5

O cafezinho de Lula com Moraes

O cafezinho de Lula com Moraes
6

Cleitinho contradiz Republicanos: “Sou candidato”

Cleitinho contradiz Republicanos: “Sou candidato”
7

Lula critica Judiciário e defende reformas

Lula critica Judiciário e defende reformas
8

Ciro tem 13 pontos de vantagem sobre petista no 2º turno, indica Quaest

Ciro tem 13 pontos de vantagem sobre petista no 2º turno, indica Quaest
9

Fora da disputa, Cleitinho segue favorito ao governo em MG

Fora da disputa, Cleitinho segue favorito ao governo em MG
10

Zucco diminui distância para Juliana Brizola no 2º turno, aponta Quaest

Zucco diminui distância para Juliana Brizola no 2º turno, aponta Quaest
1

Moraes já envenenou a eleição

Moraes já envenenou a eleição
2

O cafezinho de Lula com Moraes

O cafezinho de Lula com Moraes
3

Compra de votos? Lula usa Super El Niño para distribuir cestas básicas

Compra de votos? Lula usa Super El Niño para distribuir cestas básicas
4

Crusoé: Guerra no Irã deixa arsenal dos EUA em nível crítico

Crusoé: Guerra no Irã deixa arsenal dos EUA em nível crítico
5

Crusoé: Lula boca-suja

Crusoé: Lula boca-suja
6

Alckmin critica Bolsonaro: “Quem não acredita na democracia não devia disputar eleição”

Alckmin critica Bolsonaro: “Quem não acredita na democracia não devia disputar eleição”
7

Moro aponta “grande absurdo ilegal” no caso de Bolsonaro

Moro aponta “grande absurdo ilegal” no caso de Bolsonaro
8

"Não quero Trump como inimigo", diz Lula

"Não quero Trump como inimigo", diz Lula
9

A aposta de Derrite para chegar ao Senado

A aposta de Derrite para chegar ao Senado
10

Ásia recua, EUA sobem: o dia dos mercados nesta quinta

Ásia recua, EUA sobem: o dia dos mercados nesta quinta
1

Kataguiri troca farpas com Eduardo Bolsonaro: “Frouxo”

Kataguiri troca farpas com Eduardo Bolsonaro: “Frouxo”
2

Presidentes do PT e Rede dizem a Dino que não interferem na destinação de emendas

Presidentes do PT e Rede dizem a Dino que não interferem na destinação de emendas
3

Flávio troca marketing da campanha e convoca Duda Lima

Flávio troca marketing da campanha e convoca Duda Lima
4

Não perca tempo: 5 sinais de que uma conversa não vai virar encontro

Não perca tempo: 5 sinais de que uma conversa não vai virar encontro
5

Tarot mensal: previsões para os 12 signos em agosto de 2026

Tarot mensal: previsões para os 12 signos em agosto de 2026
6

Crusoé: Ministro de Lula compara agentes econômicos a “caminhão de japoneses”

Crusoé: Ministro de Lula compara agentes econômicos a “caminhão de japoneses”
7

Oposição pede moção de repúdio contra Durigan por chamar Milei de “palhaço”

Oposição pede moção de repúdio contra Durigan por chamar Milei de “palhaço”
8

Greca deve ser vice de Sandro Alex na disputa pelo governo do Paraná

Greca deve ser vice de Sandro Alex na disputa pelo governo do Paraná
9

Rodrigo Hilbert enfrentou pânico e depressão na Globo

Rodrigo Hilbert enfrentou pânico e depressão na Globo
10

Justiça condena jornalista a prisão por chamar Dino de “governador vagabundo”

Justiça condena jornalista a prisão por chamar Dino de “governador vagabundo”

Tags relacionadas

bolsonarismo Centrão Centro eleições 2026 partidos políticos Petismo políticas públicas tolerância
< Notícia Anterior

Planalto vai atuar contra projeto do PT que esvazia delação premiada

10.06.2024 00:00 4 minutos de leitura
Próxima notícia >

Abel e Álvaro: técnicos do Palmeiras e Vasco se enfrentam pela primeira vez

10.06.2024 00:00 4 minutos de leitura
avatar

Carlos Graieb

Carlos Graieb é jornalista formado em Direito, editor sênior do portal O Antagonista e da revista Crusoé. Atuou em veículos como Estadão e Veja. Foi secretário de comunicação do Estado de São Paulo (2017-2018). Cursa a pós-graduação em Filosofia do Direito, da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (USP).

Início

Seja nosso assinante

E tenha acesso exclusivo aos nossos conteúdos

Apoie o jornalismo independente. Assine O Antagonista e a Revista Crusoé.