A luz e a lama no Rio Grande do Sul A luz e a lama no Rio Grande do Sul
O Antagonista

A luz e a lama no Rio Grande do Sul

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Catarina Rochamonte
4 minutos de leitura 07.05.2024 09:19 comentários
Análise

A luz e a lama no Rio Grande do Sul

A solidariedade não se submete a partidarismos; a luz que brota do coração humano quando ele se vê fortemente inclinado em direção ao próximo que necessita de ajuda não se confunde com o holofote que jogam sobre si aqueles que se aproveitam das calamidades públicas para a autopromoção.

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Catarina Rochamonte
4 minutos de leitura 07.05.2024 09:19 comentários 5
A luz e a lama no Rio Grande do Sul
Foto: LAURO ALVES/SECOM)

Por mais que tentemos escrever sobre solidariedade, as palavras não são suficientes para expressar a beleza de um gesto humano no momento em que o semelhante mais precisa.

O que fica de uma tragédia como essa, que atingiu os nossos irmãos do Rio Grande do Sul, além da lama, da aflição e do medo? Fica o gesto de quem estendeu a mão, de quem entregou um cobertor, de quem arriscou a própria vida, de quem cedeu seu tempo, de quem juntou alguns pertences para doação no intuito singelo de colaborar, o mínimo que fosse.

Diante de uma tragédia, o que se mostra além do caos, é o ato genuíno de compaixão, que nos lembra daquilo que nos foi ensinado em parábolas cristãs mas que pouco sentido fazia até que nos deparamos nós mesmos com o bom samaritano que cada um pode ser quando a frieza do seu coração se dissipa diante do sofrimento do seu próximo.

O que podemos fazer também em respeito à dor dos gaúchos é limitar nossos comentários maledicentes, educar nossa língua ferina, refrear nossa necessidade infantil de apontar o dedo para este ou aquele político em especial, como se houvesse um único culpado para uma catástrofe ambiental na qual todos estamos enredados.

Tampouco é pertinente insistir em teorias ideologizadas que utilizam as mudanças climáticas para justificar radicalismos que nada têm a ver com a questão ambiental.

O que nos falta é coragem para enxergarmos que estamos todos juntos em um mesmo barco que afunda. Somos partícipes de erros e irresponsabilidades coletivas, mas somos, sobretudo, responsáveis pelos nossos próprios atos.

Cada um de nós tem um papel a realizar nesse ensaio cacofônico para que ele se torne uma sinfonia. Cada um de nós é um instrumento que pode se afinar e se harmonizar a fim de ser utilizado por Deus para soerguimento da terra convulsa. Isso pressupõe liberdade e responsabilidade.

Não é livre aquele cujo pensamento está subjugado à ideologia da hora ou cujas ações têm por móbil somente o autointeresse, desconsiderando o apelo ao bem comum, ao cuidado com o outro.

A solidariedade não se submete a partidarismos; a luz que brota do coração humano quando ele se vê fortemente inclinado em direção ao próximo que necessita de ajuda não se confunde com o holofote que jogam sobre si aqueles que se aproveitam das calamidades públicas para a autopromoção.

Todos os políticos deveriam olhar hoje para o Rio Grande do Sul e se envergonhar. Não porque sejam diretamente culpados pelo evento trágico, mas porque aquilo que podem fazer é mínimo diante da catástrofe. E isso mostra quão ridícula é a sua soberba, quão fantasiosa é a sua presunção de que o Estado pode mais do que o povo unido em torno de um objetivo comum.

Tudo o que o Estado brasileiro representa hoje está em descrédito. A opulência, as regalias, as emendas bilionárias, os orçamentos secretos, os desvios por corrupção, os fundos partidários, a ineficiência: tudo isso fica mais gritante diante do cenário de guerra que se avista no Rio Grande do Sul. É como se a lama na qual o estado gaúcho submerge materializasse a lama moral da qual a política brasileira jamais se limpou.

Já passa da hora de acenarmos um adeus para todos aqueles que parasitam a máquina estatal para o seu próprio benefício.

O mundo dá sinais de convulsão: pandemias, guerras, catástrofes ambientais, terrorismo, fanatismo, histerias coletivas: tudo isso soa como uma espécie de trombeta do apocalipse para os mais impressionáveis. Mas, mesmo para os céticos e para os incrédulos, parece prudente aceitar que o momento pede um pouco de reflexão para reajuste.

Aceitemos a nossa falibilidade, paremos um pouco com a nossa intolerância e com a disseminação de um ódio difuso. Voltemos um pouco para o nosso próprio eu a fim de investigarmos onde temos errado e como podemos redirecionar a conduta a fim de nos tornarmos mais úteis. Tragédias como essa deveriam, pelo menos, trazer o espanto filosófico que leva a um minuto de circunspecção e silêncio.

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Catarina Rochamonte

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Comentários (5)

Maria Ramos

2024-05-20 11:04:47

De novo: parabéns, Catarina!


Maria

2024-05-09 08:34:38

👏🏻👏🏻👏🏻👏🏻👏🏻👏🏻


Nelson Alves dos Santos

2024-05-08 09:14:27

A Catarina foi direto ao ponto. A hipocrisia dos políticos que conseguem suas mordomias com os votos do povo e depois de eleitos simplesmente tratam com descaso quando este necessita de uma resposta efetiva para amenizar seu sofrimento. Porque os chefões dos partidos políticos não se unem e doem uma parcela do fundo eleitoral para ajudar as vítimas.


Marcia Elizabeth Brunetti

2024-05-07 16:08:19

Perfeito Catarina. Ao mesmo tempo que vemos a sociedade civil, mais do que organizada, trabalhando, vemos políticos se exibindo em retóricas vazias sem nenhuma ação concreta. Chega! Não queremos saber quem fez, mas queremos ver os resultados. Quem doa não espera agradecimentos. Simplesmente o faz para ajudar.


Dorothea Knoch

2024-05-07 11:14:01

Novamente parabéns, Catarina! Acertou perfeitamente em sua análise de mundo e de Brasil. E agora está mais do que na hora de sermos críticos com aqueles que foram eleitos e NADA fazem pelo país. Dizemos a uma só voz: Basta!!!


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