A ‘kirchnerização’ de Trump
O caso lembra os tempos de Cristina Kirchner, que interferiu nos dados do Indec (o IBGE deles), para subestimar a inflação argentina
A demissão da chefe do Bureau of Labor Statistics (BLS) por Donald Trump, após um relatório de empregos decepcionante em julho, e a nomeação de E.J. Antoni levantaram temores sobre a politização das estatísticas econômicas dos Estados Unidos.
Trump acusou a ex-comissária de manipular dados, sem provas, e apresentou Antoni como garantia de números “honestos e precisos”.
Só que a escolha de um economista entusiasta de Trump, dos tarifaços e tido por muitos como medíocre e inexperiente para liderar a agência responsável por relatórios mensais de empregos e o índice de preços ao consumidor (CPI), gera desconfiança sobre a independência do BLS.
Os dados levantados e divulgados pelo órgão são cruciais para investidores do mundo inteiro e para embasar as decisões do banco central americano (FED).
O caso lembra os tempos de Cristina Kirchner à frente da presidência argentina, quando seu governo interferiu no Instituto Nacional de Estatística e Censos, Indec (o IBGE deles), para subestimar a inflação, que superava 25% ao ano, mas era oficialmente reportada como inferior a 10%.
Por lá, a manipulação, com demissões e pressões sobre técnicos, buscava sustentar políticas populistas e custou caro: a Argentina perdeu credibilidade internacional, enfrentou sanções do FMI e viu os mercados rejeitarem seus títulos.
Investidores passaram a confiar em índices alternativos, como o IPC Congresso, enquanto a economia sofria com fuga de capitais e inflação descontrolada.
Temor semelhante ocorreu no Brasil quando Marcio Pochmann foi nomeado por Lula à frente do IBGE, mas até agora suas maiores controvérsias foram o mapa-múndi invertido e a mal sucedida tentativa da fundação do IBGE+.
Nos EUA, a nomeação de Antoni, que já criticou dados do BLS como “bobagem” e sugeriu suspender relatórios mensais, intensificou preocupações e pode até abalar o dólar.
Essa desconfiança internacional pode encarecer empréstimos, dado o papel central dos dados fornecidos pelo BLS na avaliação da maior economia do mundo.
Há quem acredite que a estrutura técnica do BLS dificulte manipulações, mas o risco de fragmentação da confiança é real, com previsões de aumento na demanda por dados privados, o que pode levar a uma multiplicidade de “verdades” econômicas.
A politização de instituições técnicas, como vimos na Argentina e mesmo no Brasil, pode comprometer a estabilidade econômica.
Kirchner pagou o preço com recessão prolongada e isolamento internacional. Nos EUA, a priorização de lealdade política sobre experiência e tecnicidade pode ameaçar não só a credibilidade interna, mas também a confiança mundial, com possíveis consequências no mercado financeiro.
Os olhos do mundo estarão atentos aos próximos movimentos do senado, se vai aprovar a indicação de Antoni, e na qualidade e embasamento dos dados que o BLS divulgar sob sua gestão, caso ele realmente assuma.
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Comentários (3)
FRANCISCO JUNIOR
13.08.2025 19:01Lula, Bolsonaro, Kirshner, Trump, o povo precisa esquecer esses mitos e (tentar) votar em gente melhor.
Emerson
13.08.2025 15:19Quero ver quem supera o mapa mundi .
JEAN PAULO NIERO MAZON
13.08.2025 11:35Do mesmo jeito que há desconfiança em nomear aliados, também há em manter opositores! Que se indique técnicos, não torcedores