Piratas do Caribe em Harvard

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Mario Sabino
6 minutos de leitura 11.04.2022 12:40 comentários
Opinião

Piratas do Caribe em Harvard

Com o fim da Terceira Via, aquela que foi sem nunca ter sido, por obra e graça dos suspeitos de sempre, e a leve recuperação de Jair Bolsonaro nas pesquisas eleitorais, ganhou força a tentativa de fantasiar Lula e o PT de democratas empedernidos, em oposição a um tiranete de extrema-direita, que passou o mandato inteiro tentando minar as instituições democráticas e não aceitará o resultado das eleições de outubro, caso venha a perder nas urnas...

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Mario Sabino
6 minutos de leitura 11.04.2022 12:40 comentários 0
Piratas do Caribe em Harvard
Divulgação

Com o fim da Terceira Via, aquela que foi sem nunca ter sido, por obra e graça dos suspeitos de sempre, e a leve recuperação de Jair Bolsonaro nas pesquisas eleitorais, ganhou força a tentativa de fantasiar Lula e o PT de democratas empedernidos, em oposição a um tiranete de extrema-direita, que passou o mandato inteiro tentando minar as instituições democráticas e não aceitará o resultado das eleições de outubro, caso venha a perder nas urnas.

Neste fim de semana, por exemplo, os petistas fizeram alarde nas redes sociais porque, no evento Brazil Conference, organizado pela Universidade Harvard, nos Estados Unidos, Sergio Moro equiparou Lula e Jair Bolsonaro como extremistas e foi questionado pelo mediador do painel do qual o ex-juiz participava. Professor e pesquisador da universidade americana, Hussein Kalout afirmou o seguinte:

“Eu queria fazer um esclarecimento para não parecer que eu estou tomando partido dos lados dessa contenda. Como cientista político, gostaria de dizer que, quando a gente fala em extremismo, colocar duas forças políticas como extremadas, talvez isso não reflita a realidade. Acho que sim, o presidente Bolsonaro se mostrou um político extremista, se mostrou, sim, um político radicalizado, e ele procura fazer isso constantemente no exercício da função pública na condição de presidente da República. O senhor reconheceu que ele aviltou as instituições, impediu a implementação de um política anticorrupção nas instituições públicas brasileiras, mas eu acho que — e isso não se trata da defesa do presidente Lula e nem do PTnão é apropriado trazer uma avaliação, colocando um governo ou uma instituição partidária que exerceu o poder durante 13 anos, vencendo quatro eleições presidenciais, como extremada no exercício da política nacional.”

E Hussein Kalout continuou:

“Acho que, sim, pode haver críticas às políticas públicas, é importante, mas rotular com extremismo é um pouco perigoso. É importante que isso seja dito. O PT, quando foi impichado, reconheceu o resultado jurídico do processo de impeachment, houve uma transição pacífica do poder. O presidente Lula, quando sua prisão foi determinada pelo senhor, cumpriu a decisão judicial, não a desafiou. Então, isso reflete um pouco também um espírito democrático, ainda que haja discordância sobre sua política pública ou sua conduta. É importante reconhecer isso. Acho que colocar Bolsonaro e Lula na mesma equivalência me parece uma grande distorção histórica, ainda que se possa criticar o ex-presidente. Não há uma simetria possível, equivalente entre os dois lados no exercício do cargo público e no respeito às instituições.” 

Hussein Kalout é ex-secretário especial de Assuntos Estratégicos da Presidência da República no governo de Michel Temer. Pois é. Mas ele não defendeu Lula. Pois é. Um cientista político sem lado é, certamente, tudo do que a Universidade Harvard precisa, como se sabe.

Jair Bolsonaro é um boçal perigoso, não há dúvida. Mas Lula está muito, mas muito longe de ser essa figura cândida pintada por Hussein Kalout. A simetria entre ambos é, além de possível, necessária. Para começar, é simplesmente mentira que Lula não desafiou a ordem de prisão expedida contra ele por Sergio Moro, Ele se entrincheirou na sede do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo, cercado por partidários seus, e o ministro Raul Jungmann, então titular do Ministério da Justiça e Segurança Pública de Michel Temer — do mesmo governo a que Hussein Kalout servia — teve de negociar a rendição com Lula, num episódio digno de uma república das bananas, transmitido ao vivo pela televisão. A data fartamente documentada é 7 de abril de 2018.

Também não é verdade que o PT tenha reconhecido “o resultado jurídico do processo de impeachment” de Dilma Rousseff. O partido e a ex-presidente chamam o impeachment de “golpe” e o braço universitário do PT empenha-se em inculcar essa falsidade a alunos. Aliás, Michel Temer, na versão petista original, é um “golpista”.  Também é preciso lembrar que, por ocasião das gigantescas manifestações de rua contra Dilma Rousseff, que fraudou as contas do seu primeiro governo, por meio das pedaladas fiscais, para perpetrar o seu estelionato eleitoral e ser reeleita, emissários petistas procuraram o Exército para propor que as Forças Armadas apoiassem a decretação do estado de defesa, o que permitiria impedir que os cidadãos fossem às ruas.

Como já escrevi diversas vezes, baseado em fatos, “tanto Jair Bolsonaro quanto Lula representam um perigo para o regime democrático. Se o primeiro o ataca frontalmente, com falas ignominiosas, promovendo badernas e sabotando aparatos institucionais, o segundo, de forma sorrateira, tentou corroê-la na sua estrutura, por meio do financiamento de campanhas eleitorais com dinheiro roubado, do aparelhamento de ministérios e autarquias e da tentativa de controlar a imprensa. Para não falar do apoio às ditaduras de Cuba e da Venezuela, reveladoras das suas afinidades eletivas”.  Além disso, se Jair Bolsonaro tem no AGU e no PGR dois advogados particulares seus, Lula tinha no então ministro da Justiça Márcio Thomaz Bastos o seu próprio advogado criminal, como ficou evidente no escândalo do mensalão e do dossiê dos aloprados” — dossiê que visava a torpedear a candidatura de José Serra ao governo de São Paulo, em 2006, tramoia no qual estava envolvido um então segurança pessoal do próprio Lula.

O PT tinha um projeto de poder autoritário que tratava a democracia como valor estratégico, não universal. Esse projeto naufragou com a descoberta dos escândalos bilionários protagonizados pelo partido. Agora, com Jair Bolsonaro servindo de assombração conveniente, a carcaça desse projeto volta à tona, enquanto providenciam fantasias de democratas aos piratas do Caribe brasileiros. A fantasia não cabe, como mostra ainda a sugestão de Lula, feita na semana passada, em evento da CUT, para que militantes “mapeassem” as casas de parlamentares, a fim de “incomodar a tranquilidade” deles e das suas famílias, batendo à sua porta em grupos de até 50 pessoas, em vez de fazer manifestações em frente ao Congresso.

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Mario Sabino

Mario Sabino é jornalista, escritor e sócio-fundador de O Antagonista. Escreve sobre política e cultura. Foi redator-chefe da revista Veja.

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