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General Paulo Chagas: ‘Se tiver impeachment, que seja rápido’

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Ana Maria Campos
10 minutos de leitura 12.09.2021 11:00 comentários
Entrevista

General Paulo Chagas: ‘Se tiver impeachment, que seja rápido’

No caloroso embate da semana, o general do Exército Paulo Chagas tinha motivos para ficar neutro. Ex-bolsonarista, ele não aprova o presidente, tampouco a atuação de ministros do STF, de quem foi alvo há dois anos e meio, com uma busca e apreensão autorizada em sua casa no inquérito das fake news. No episódio do 7 de Setembro, o militar avalia que Bolsonaro demonstrou imaturidade e tendências absolutistas. A carta de recuo, redigida a quatro mãos com Michel Temer, foi um dos raros momentos de bom senso, mas considera que, com o gesto, Bolsonaro decepcionou aliados que queriam sangue com intervenção armada...

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Ana Maria Campos
10 minutos de leitura 12.09.2021 11:00 comentários 0
General Paulo Chagas: ‘Se tiver impeachment, que seja rápido’
Foto: Reprodução/Facebook
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No caloroso embate da semana, o general do Exército Paulo Chagas tinha motivos para ficar neutro. Ex-bolsonarista, ele não aprova o presidente, tampouco a atuação de ministros do STF, de quem foi alvo há dois anos e meio, com uma busca e apreensão autorizada em sua casa no inquérito das fake news. No episódio do 7 de Setembro, o militar avalia que Bolsonaro demonstrou imaturidade e tendências absolutistas. A carta de recuo, redigida a quatro mãos com Michel Temer, foi um dos raros momentos de bom senso, mas considera que, com o gesto, Bolsonaro decepcionou aliados que queriam sangue com intervenção armada.

Chagas diz que não se interessou em participar da manifestação do 7 de Setembro, por mais que tenha simpatia pela pauta crítica a alguns ministros do STF. Ele considerou que seria um culto à personalidade de Bolsonaro, com quem se decepcionou logo no início do mandato.

Agora, o general teme que um processo de impeachment paralise o Brasil. “Mas se tiver que acontecer o impeachment, que aconteça o mais rápido possível“, afirma.

Hoje o oficial do Exército na reserva, que concorreu ao governo do DF nas últimas eleições, apoia a construção de uma terceira via na corrida presidencial. Um nome que defenda o combate à corrupção e coloque em prática o programa de governo apresentado na campanha por Jair Bolsonaro. Ele pretende se filiar ao Podemos e na disputa local aposta na candidatura ao governo do DF do senador José Antônio Reguffe (Podemos-DF).

O senhor participou da manifestação do dia 7 de Setembro contra o STF?

A manifestação do dia 7 tinha coisas que me interessam, mas a pauta como um todo, não. E o objeto maior me pareceu que era o culto da personalidade de Bolsonaro. Eu não faço culto a personalidade nenhuma, a não ser dos nossos grandes heróis nacionais: Caxias, Osório, o Brigadeiro Sampaio.

Muitos manifestantes foram às ruas no dia 7 para protestar contra o Supremo. Essa pauta não lhe agrada?

Essa pauta me agrada. Eu tenho me manifestado. Não é à toa que a Polícia Federal esteve na minha casa, a mando do ministro Alexandre de Moraes.

Como o senhor vê o repúdio que o ministro Alexandre de Moraes despertou na militância bolsonarista?

Não é bem ele. Ele passa a ser a figura de frente. É a vários ministros. Mas o repúdio não é à Suprema Corte. Seria antidemocrático pensar assim. A Suprema Corte é fundamental para a democracia. Temos que ter três poderes. O Supremo é o poder que dá a última palavra. Mas não pode estar aparelhado. Não pode estar aparelhado politicamente nem ideologicamente.

Na manifestação do 7 de Setembro, Bolsonaro mudou o foco. Em vez de mirar os aliados da política, como o PT, atacou o STF. Qual é real o motivo?

Eu tenho uma avaliação disso. No início do governo, apareceu o inquérito da rachadinha. O Flávio (Bolsonaro) estava envolvido e naturalmente toda a família. Bolsonaro, então, se viu ameaçado e foi conversar com o Toffoli, que tinha todo o interesse em barrar o Coaf. Ao mesmo tempo, havia também o interesse do Gilmar Mendes de que alguns assuntos não fossem investigados, vasculhados. Por isso, Bolsonaro não fala mal do Toffoli, nem do Gilmar Mendes. Quem botou Alexandre de Moraes nessa fogueira? Foi o Toffoli, mas Bolsonaro não se queixa dele. Essa é uma incoerência. Alexandre está cumprindo uma missão. Ele foi escolhido. Então, essas coisas colocam uma interrogação sobre o caráter com que estão sendo conduzidas.

Quem segue Bolsonaro enxerga esse interesse familiar?

Enxerga, mas finge que não enxerga. É impossível não enxergar. Mas o que eu vejo é que as pessoas têm tanto medo da volta do PT que ficam apavorados quando se fala algo contra Bolsonaro e a família dele. Mas eles não entendem que quanto mais se esconde isso, mais se fortalece a volta do PT. Não tenho dúvida de que, se não acharmos uma terceira via, o PT volta ao poder. O PT também não fala nada contra Bolsonaro. Eles querem Bolsonaro nessa posição até a eleição e que vá para o segundo turno.

O senhor defende ‘nem Lula nem Bolsonaro’. Acredita no sucesso da terceira via?

Eu acredito na terceira via. Não podemos ficar nessa dicotomia de extrema direita e extrema esquerda. Nós não vamos sair do lugar.

Mas vai aparecer um nome capaz de derrotar os dois?

Eu sou extremamente otimista em relação a isso. Precisamos ter uma terceira via.

Se ficar Lula e Bolsonaro, o senhor ainda vai de Bolsonaro?

Olha, se ficar Lula e Bolsonaro, eu não vou comparecer nas urnas. A volta do Lula é um desastre e reeleger Bolsonaro é dar mais quatro anos para ele e a certeza na cabeça dele de que ele tem todo o poder. Bolsonaro tem uma tendência ao absolutismo. O sonho dele é ser outro ditador do Brasil. É ser outro Getúlio Vargas. Só que Getúlio tinha cultura política. Bolsonaro não tem.

O que o senhor achou dos discursos dele?

O primeiro foi comedido. Foi um discurso áspero, porém comedido. Dava uma no cravo e outra na ferradura. Foi conduzindo aquilo porque a multidão estava ali para protestar contra o Congresso e contra o STF. Então, o discurso dele tinha que ser assim. Se aqui ele fizesse o mesmo discurso que fez na Paulista, o povo se sentiria autorizado a fazer uma grande besteira, de entrar, de quebrar. Um monte de gente que estava ali queria fazer isso. Gente que veio de fora disposto a isso e saiu decepcionado porque ninguém deu a ordem para quebradeira. Na Paulista, ele podia dizer o que quisesse porque estava longe do STF. Entusiasmado com a multidão ovacionando e gritando, ele foi tomado pela imaturidade e começou a dizer impropérios, sem limites. Foi o que redundou nas consequências: a bolsa caindo, o dólar subindo… Tem que ter maturidade e responsabilidade. O que um presidente fala repercute no mundo inteiro.

O bolsonarista ficou decepcionado com a carta de recuo?

Muita gente ficou. Quem ficou decepcionado era quem estava esperando uma intervenção militar, uma atitude radical de levar o país à luta armada. Vi muita gente querendo o enfrentamento. Eu treinei a minha vida inteira para o enfrentamento. Sou um soldado. Fui treinado para a guerra. Mas não fui treinado para lutar contra meus irmãos brasileiros, ver correr sangue de brasileiro. Aqui dentro temos de buscar a harmonia, o diálogo, o convencimento. Convencer as pessoas pelos bons argumentos e não pela violência. Ninguém muda a cabeça das pessoas, as ideias, através da violência. 

O senhor conversa com muita gente. Como os militares estão vendo essa crise?

Nas forças armadas, o que recebi do pessoal militar é que houve bom senso. Mas o pessoal mais fanatizado queria ver correr sangue. 

Quando o senhor se decepcionou com Bolsonaro?

A primeira coisa foram as atitudes dos filhos que passaram a se comportar como herdeiros do trono. A família Bolsonaro é uma família como qualquer outra. Cada um segue seu rumo e como cada um ali é político, cada um cumpre a sua tarefa. Isso o pai pode resolver na macarronada de domingo. Mas eles estarem dentro do Palácio dando palpite é um absurdo. Depois vem o Eduardo e, de uma hora para a outra, quer virar embaixador dos Estados Unidos. Ninguém sai da academia e vira general. Bolsonaro dizia que no seu governo haveria meritocracia. Mentira. Quando veio a rachadinha foi mais uma decepção para mim. Eu disse: ‘nossa defendi tanto esse cara…”. 

A saída do Moro também causou decepção?

A saída do Moro foi a gota d’água. Não tinha mais o combate à corrupção. O mais importante foi para o saco. Pronto. Acabou. Passei a ser crítico e tenho todo o direito.

E o acordo com o centrão?

Quantas vezes Bolsonaro disse que não faria um presidencialismo de coalizão? E o que é hoje? Para garantir a reeleição, ele voltou atrás de tudo. Outro dia, ele disse que sempre foi do centrão. Algumas pessoas me perguntam se traí o Bolsonaro. Mas foi ele que me traiu. Sou uma das pessoas que votaram na proposta dele.

Ele também prometeu que não seria o governo da velha política, mas buscou apoio do ex-presidente Michel Temer para conter a crise com o STF…

Prova de que ele não era capaz de conduzir isso. Ele acreditava que tinha todo o poder porque o povo estava com ele, mas não fez uma conta matemática. Menos de 40% do povo estavam com ele. Do outro lado, 60% não queriam Bolsonaro. Agora certamente esse número aumentou. Eu, por exemplo, não quero mais Bolsonaro.

O senhor acha que ele merece sofrer o impeachment?

Uma coisa é merecer. Outra coisa é você pensar no Brasil com mais um impeachment. Nós estamos numa situação do Brasil complicadíssima, na economia, socialmente. Nós vamos parar o Brasil para fazer o impeachment? Por isso, aposto no diálogo. Cada um assume a sua culpa no imbróglio. O STF enxerga a sua culpa. O presidente também. O problema é o Congresso porque o pessoal que está lá… são todos mercenários. Estão pensando em quanto vão ganhar para apagar o fogo. O impeachment pode virar uma mania e não podemos criar essa mania. Mas se tiver que acontecer que aconteça o mais rápido possível.

O General Hamilton Mourão seria um presidente melhor?

Tenho certeza. É muito mais preparado, tem maturidade. O que falta ao Bolsonaro é maturidade, saber que está onde ele está exige isso. Não precisa ser nenhum gênio. A maturidade faz com que você escolha as pessoas certas para se assessorar e tomar decisões. Ele escolheu perguntar para os filhos que são adolescentes retardados.

Se ele não tem maturidade, podemos esperar um novo show de ataques?

Isso seria o comportamento esperado dele dentro do que ele sempre foi e tem sido. Mas eu sou um otimista incorrigível, acredito que as coisas vão melhorar. Espero que ele tenha entendido que não é possível. Virar a mesa porque porque vai perder a eleição não é uma atitude patriota. Estou torcendo para que ele caia na real e pense no Brasil daqui para frente.

Qual deve ser o plano da terceira via?

O mesmo do Bolsonaro, com o compromisso de cumprir, coisa que ele não fez. O projeto dele de governo era sensacional.

Qual ponto principal do programa ele não cumpriu?

O combate à corrupção. As pessoas acreditavam que a corrupção era uma coisa intrínseca, que fazia parte do jogo e que era impossível abolir. O Moro e a equipe da República de Curitiba mostraram que é possível sim colocar bandido do colarinho branco na cadeia. As coisas estavam mudando. Brasil seria exemplo para o mundo. 

O senhor pensou em voltar para candidaturas no próximo ano?

Não. Ainda não encontrei nenhuma razão para mudar de ideia e já encontrei um possível candidato para apoiar (ao governo) que é o Reguffe (Podemos). Vi uma pesquisa que mostra Reguffe e Ibaneis (MDB) empatados. Vou me filiar ao Podemos.  Eu sempre me simpatizei com o partido, mas não tenho a intenção de me candidatar.

 

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Ana Maria Campos

Ana Maria Campos é jornalista formada pela Universidade de Brasília (UnB). Foi repórter do Jornal do Brasil, colunista de política do Correio Braziliense e integrou a equipe do programa CB Poder, transmitido pela TV Brasília. Participou de coberturas de casos de corrupção e conquistou, ao longo da carreira, os prêmios Esso, CNT, AMB e Engenho.

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