Bolsonaro não está mais em 1964: está em 1930

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Bolsonaro não está mais em 1964: está em 1930
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Mario Sabino
3 minutos de leitura 23.08.2021 14:57 comentários
Opinião

Bolsonaro não está mais em 1964: está em 1930

Como noticiamos, João Doria afastou hoje, por indisciplina, o coronel Aleksander Lacerda, que comandava 7 batalhões da PM paulista. Esse Aleksander, o Grande, estava compartilhando mensagens golpistas, convocando malucos para os atos bolsonaristas de 7 de setembro, pedindo tanques na rua e dizendo que "o caldo vai entornar". João Doria fez muito bem em entornar o caldo do sujeito. Desde o motim dos policiais militares em Alagoas, em fevereiro de 2020, quando um ensandecido Cid Gomes jogou uma retroescavadeira contra o piquete montado em frente ao batalhão da cidade de Sobral, acendeu-se a luz amarela de que Jair Bolsonaro e seus acólitos estariam açulando as diversas PMs...

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Mario Sabino
3 minutos de leitura 23.08.2021 14:57 comentários 0
Bolsonaro não está mais em 1964: está em 1930
Foto: Adriano Machado/Crusoé

Como noticiamos, João Doria afastou hoje, por indisciplina, o coronel Aleksander Lacerda, que comandava 7 batalhões da PM paulista. Esse Aleksander, o Grande, estava compartilhando mensagens golpistas, convocando malucos para os atos bolsonaristas de 7 de setembro, pedindo tanques na rua e dizendo que “o caldo vai entornar”. João Doria fez muito bem em entornar o caldo do sujeito.

Desde o motim dos policiais militares no Ceará, em fevereiro de 2020, quando um ensandecido Cid Gomes jogou uma retroescavadeira contra o piquete montado em frente ao batalhão da cidade de Sobral, acendeu-se a luz amarela de que Jair Bolsonaro e seus acólitos estariam açulando as diversas PMs, todas subordinadas aos governadores, para que elas os apoiassem em caso de autogolpe. A estratégia seria reproduzir, em nível nacional, mudando o que deve ser mudado, a estratégia das milícias fluminenses, para transformar o Brasil numa grande comunidade a ser dominada.

Não parece agora haver muita dúvida de que a ideia passou pela cachola de Jair Bolsonaro e os seus acólitos. Mas, se lograssem algum objetivo, eles conseguiriam promover,  no máximo, badernas pontuais, nem por isso menos indesejáveis, uma vez que não se brinca com gente armada. A coisa pararia no plano de alguma desordem, porque policiais militares têm os limites estreitos de forças de segurança destinadas a agir em problemas cotidianos – formação e arsenal adequados apenas à repressão de crimes e à contenção de manifestações que descambam para a violência. Há ainda outro componente: policiais militares, na esmagadora maioria das vezes, não são ideologizados o suficiente para entregar-se a uma aventura golpista e não dispõem de um comando central que os pudesse coordenar nacionalmente. Talvez a ideia fosse que eles funcionassem como linha auxiliar das Forças Armadas, em caso de autogolpe. Mas, ainda que houvesse hipótese de que a caserna estivesse mesmo disposta a derrubar o Estado de Direito, nenhum general gostaria de ter ao seu lado gente que não respeita hierarquia. Além disso, historicamente, seria um contrassenso.

Na República Velha, as forças públicas estaduais funcionavam como exércitos dos governadores. Eram as suas milícias, justamente. Isso acabou com o Estado Novo, que as esvaziou e fortaleceu as Forças Armadas. Ao fazê-lo, Getúlio Vargas fulminou a capacidade dos governadores dos estados de desafiarem militarmente o governo central, como ocorreu no caso de São Paulo e a sua revolução constitucionalista de 1932. O esvaziamento das forças públicas estaduais e o fortalecimento das Forças Armadas beneficiaram o ditador, mas se mostrariam essenciais para a manutenção da unidade nacional e a preservação da ordem institucional, apesar do golpe de 1964 promovido pelos militares. Tudo poderia ser ainda pior na trajetória brasileira, se os governos estaduais ainda dispusessem de um verdadeiro aparato bélico.

A tentativa de transformar polícias militares em milícias seria, portanto, mais um anacronismo de Jair Bolsonaro. Ele não está mais em 1964. Regrediu à década de 1930 e dá as costas para a história, provavelmente porque não a conhece.

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Mario Sabino

Mario Sabino é jornalista, escritor e sócio-fundador de O Antagonista. Escreve sobre política e cultura. Foi redator-chefe da revista Veja.

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