Exclusivo: parecer de Moro diz que Vale ocultou do mercado riscos de negócio bilionário na Guiné

27.10.2026

logo-crusoe-new
O Antagonista
Exclusivo: parecer de Moro diz que Vale ocultou do mercado riscos de negócio bilionário na Guiné
avatar
Redação O Antagonista
6 minutos de leitura 03.12.2020 20:37 comentários
Brasil

Exclusivo: parecer de Moro diz que Vale ocultou do mercado riscos de negócio bilionário na Guiné

O ex-ministro Sergio Moro estreou na iniciativa privada, no mês passado, produzindo um parecer para o empresário israelense Benjamim (Beny) Steinmetz, que trava uma disputa judicial de US$ 2 bilhões com a Vale pelo polêmico contrato de exploração da mina de Simandou, na Guiné. O Antagonista obteve cópia do documento, de 54 páginas, intitulado "Parecer sobre a falsidade e a ocultação fraudulenta de fato relevante em comunicações ao mercado de valores mobiliários - crimes e tese"...

avatar
Redação O Antagonista
6 minutos de leitura 03.12.2020 20:37 comentários 0
Exclusivo: parecer de Moro diz que Vale ocultou do mercado riscos de negócio bilionário na Guiné
Foto: Adriano Machado/Crusoé

O ex-ministro Sergio Moro estreou na iniciativa privada, no mês passado, produzindo um parecer para o empresário israelense Benjamim (Beny) Steinmetz, que trava uma disputa judicial de US$ 2 bilhões com a Vale pelo polêmico contrato de exploração da mina de Simandou, na Guiné.

O Antagonista obteve cópia do documento, de 54 páginas, intitulado “Parecer sobre a falsidade e a ocultação fraudulenta de fato relevante em comunicações ao mercado de valores mobiliários – crimes e tese”.

Ao longo da análise, baseada numa notícia-crime apresentada por Beny ao MP do Rio, o ex-juiz da Lava Jato repete o modelo didático de suas sentenças, numerando cada item a ser considerado, com referências legais e bibliográficas pontuais.

A conclusão, ainda que em tese, é de que a cúpula da Vale, na gestão de Roger Agnelli, ignorou os riscos inerentes ao negócio e sonegou ao mercado informações estratégicas. “Mesmo diante das suspeitas e dos riscos decorrentes, a Vale S/A preferiu, segundo a Consulente, ignorá-los e prosseguir na celebração do contrato.”

“Embora as conclusões definitivas demandem aguardar os desdobramentos das investigações decorrentes da notícia-crime, é possível falar-se, em tese, de violação dos deveres de comunicação e transparência pela Vale S/A aos seus acionistas e ao mercado quanto às reais condições da celebração da joint venture com a BSGR e da própria rescisão”, escreve Moro.

O caso de Simandou é famoso no Brasil, pois foi motivo de um racha interno na direção da Vale e precipitou a queda de Roger Agnelli, morto num acidente aéreo em 2016.

O ex-presidente da mineradora foi um dos entusiastas do negócio fechado com Beny em 2010, mas nunca conseguiu explicar cláusulas suspeitíssimas e o pagamento antecipado de US$ 500 milhões ao israelense – sem qualquer garantia de que o negócio sairia do papel.

Em 2011, quando o presidente da Guiné, Alpha Condé, anulou a concessão, os problemas em torno do investimento começaram a vir à tona. Uma investigação preliminar apontou indícios de suborno na concessão das minas de Simandou a Beny, em 2008, no governo de Lansana Conté.

Agnelli ainda tentou salvar o negócio com apoio de Lula, mas foi inútil. A Vale, então, alegou que foi enganada e processou Beny numa corte arbitral britânica e obteve veredito favorável, com a imposição de uma indenização de US$ 2 bilhões que Beny deveria pagar à companhia. O israelense foi à Justiça americana, alegando a turma de Agnelli sabia de tudo.

A atuação de Moro num caso em que aparece o ex-presidiário pode ser uma ironia da vida, ou uma jogada do israelense para atrair a atenção da imprensa. Seja como for, a chancela de Moro na tese do empresário pesa.

Em seu parecer, o ex-juiz destaca logo de cara que o Ministério Público guinense desistiu de denunciar Beny e outras cinco pessoas por suborno por “não dispor de prova”. Mas, em 2010, quando a Vale fechou com o empresário, os indícios de corrupção eram conhecidos por seus executivos.

Havia, inclusive, outros riscos: a instabilidade política e, especialmente, a não ratificação pelo Parlamento da concessão da reserva de minério de ferro. Segundo Moro, a gestão da Vale sonegou todos esses dados nas comunicações ao mercado.

Diz o parecer:

“Os documentos internos da Vale S/A relacionados pela Consulente, incluindo mensagens eletrônicas trocadas entre seus executivos e terceiros envolvidos na due diligence, constituem elementos probatórios prima facie: a) de que a empresa tinha prévia e plena ciência dos elevados riscos pertinentes ao negócio; b) de que poderia perdê-los diante da insegurança política na Guiné; e c) de que a BSGR poderia ter obtido os direitos de concessão minerários mediante atos de corrupção e tráfico de influência.”

Os documentos também sugerem, segundo o ex-juiz, que a due diligence contratada pela Vale para avalizar o negócio foi “manifestamente falha”, com indicativos de que o objetivo “não era dissipar suas suspeitas sobre o negócio, mas obter um salvo conduto para nele prosseguir, ignorando os riscos existentes”.

“Os fatos trazidos pela Consulente – e que terão que ser confirmados na investigação – revelam que os executivos da Vale S/A envolvidos na celebração da joint venture com a BSGR para exploração da mina de Simandou não agiram segundo os deveres de integridade corporativa que lhe cabiam.”

Continua o ex-juiz: “Deveriam, em princípio, ter se recusado a celebrar o negócio já que suspeitavam que a BSGR teria adquirido os direitos de concessão do Governo da Guiné mediante suborno ou tráfico de influência. A investigação corporativa teria que ser ampla e abrangente, o que não ocorreu. A due diligence não pode ser contratada para servir como um subterfúgio para a realização do negócio ou como um álibi contra a responsabilização futura dos gestores da empresa. É inequívoco que a suspeita de que a concessão teria sido obtida por corrupção e suborno e os riscos decorrentes de revogação, constituíam fatos relevantes atinentes à celebração do contrato de joint venture com a BSGR para exploração dos direitos sobre Simandou e que, portanto, ela, a suspeita, e os riscos deveriam ter sido comunicados ao mercado e aos acionistas, diminuindo a expectativas de ganho em relação ao negócio e alertando aos investidores os riscos potenciais. Tais fatos, enfim, enquadram-se na definição do art. 157, §4º, da Lei n.º 6.404/1976.”

Moro conclui seu parecer fazendo referência a uma ação que corre na Corte Federal do Distrito Sul de Nova York, e na qual a Vale S/A, após ser instada a apresentar documentos sobre a aquisição dos direitos minerários em Simandou, informou que “teria destruído comunicações eletrônicas e arquivos eletrônicos de pessoas chaves envolvidas no negócio, inclusive de Roger Agnelli”.

“Se essa ação foi mesmo praticada pela Vale S/A, ela pode dificultar a investigação e a completa elucidação dos fatos. Segundo o Consulente, essa prática da Vale S/A contraria os deveres corporativos de conservação dos documentos da empresa estabelecidos na Lei norte-americana Sarbanes-Oxley e a qual ela estaria sujeita por negociar ações junto ao mercado de valores mobiliários daquele país: ‘a Lei Sarbanes-Oxley (SOx) estabelece para as companhias abertas o prazo de ao menos cinco anos como obrigatório para manutenção de documentos’. A lei vai além e ainda estabelece, na Seção 802(a), que a destruição deliberada de documentos para obstruir qualquer investigação por autoridades norte-americanas constitui crime sujeito a multa e a pena de prisão de até vinte anos.”

 

  • Mais lidas
  • Mais comentadas
  • Últimas notícias
1

Crusoé: Flávio ficará sem cargo público e sem foro privilegiado em 2027

Crusoé: Flávio ficará sem cargo público e sem foro privilegiado em 2027
2

Lulistas vão ao STF para impedir que Flávio Bolsonaro fuja do Brasil

Lulistas vão ao STF para impedir que Flávio Bolsonaro fuja do Brasil
3

Quem foi a Carla Zambelli da campanha de Flávio Bolsonaro?

Quem foi a Carla Zambelli da campanha de Flávio Bolsonaro?
4

A herança maldita de Lula

A herança maldita de Lula
5

Crusoé: Flávio, a eleição e os limites da contestação

Crusoé: Flávio, a eleição e os limites da contestação
6

Urnas registraram 5 mil votos após as 17h, aponta análise dos dados do TSE

Urnas registraram 5 mil votos após as 17h, aponta análise dos dados do TSE
7

As duas mensagens contraditórias das urnas

As duas mensagens contraditórias das urnas
8

Integrantes do PL prometem lutar por impeachment de Lula em 2027

Integrantes do PL prometem lutar por impeachment de Lula em 2027
9

A sombra de Zanin nas eleições

A sombra de Zanin nas eleições
10

Crusoé: A reação de Musk aos números da vitória de Lula

Crusoé: A reação de Musk aos números da vitória de Lula
1

Lula reeleito: péssimo para a economia, melhor para a democracia

Lula reeleito: péssimo para a economia, melhor para a democracia
2

A herança maldita de Lula

A herança maldita de Lula
3

Papo Antagonista: Lula ganha quarto mandato e promete regular redes sociais

Papo Antagonista: Lula ganha quarto mandato e promete regular redes sociais
4

Renan Santos diz que Flávio está "planejando fuga" com ajuda dos EUA

Renan Santos diz que Flávio está "planejando fuga" com ajuda dos EUA
5

As duas mensagens contraditórias das urnas

As duas mensagens contraditórias das urnas
6

Crusoé: PT e aliados iniciam perseguição a rivais

Crusoé: PT e aliados iniciam perseguição a rivais
7

Lulistas vão ao STF para impedir que Flávio Bolsonaro fuja do Brasil

Lulistas vão ao STF para impedir que Flávio Bolsonaro fuja do Brasil
8

Após vitória de Lula, Gilmar afirma: “É tempo de união”

Após vitória de Lula, Gilmar afirma: “É tempo de união”
9

Crusoé: "A chance de anular essa eleição é praticamente nula", diz Nikolas

Crusoé: "A chance de anular essa eleição é praticamente nula", diz Nikolas
10

Zanin, Nunes Marques e a prorrogação que deixou uma mancha na eleição

Zanin, Nunes Marques e a prorrogação que deixou uma mancha na eleição
1

“Se a eleição não for reconhecida, vamos pôr gente nas ruas”, diz presidente do PT

“Se a eleição não for reconhecida, vamos pôr gente nas ruas”, diz presidente do PT
2

Polícia identifica mulher que fez saudação nazista após votação no Rio

Polícia identifica mulher que fez saudação nazista após votação no Rio
3

Harry Kane é eleito o melhor jogador do mundo

Harry Kane é eleito o melhor jogador do mundo
4

Tarcísio venceria no 1º turno? A aposta errada no filho de Bolsonaro

Tarcísio venceria no 1º turno? A aposta errada no filho de Bolsonaro
5

Flávio Bolsonaro não reconhece o resultado e pede anulação da eleição

Flávio Bolsonaro não reconhece o resultado e pede anulação da eleição
6

Douglas Ruas reconhece vitória de Lula: “Infelizmente, não vencemos”

Douglas Ruas reconhece vitória de Lula: “Infelizmente, não vencemos”
7

Zanin, Nunes Marques e a prorrogação que deixou uma mancha na eleição

Zanin, Nunes Marques e a prorrogação que deixou uma mancha na eleição
8

No discurso da vitória, Lula prioriza as redes e não fala da economia

No discurso da vitória, Lula prioriza as redes e não fala da economia
9

Justiça italiana nega extradição de Tagliaferro

Justiça italiana nega extradição de Tagliaferro
10

PL reconhece vitória de Lula, mas reforça dúvidas sobre eleição

PL reconhece vitória de Lula, mas reforça dúvidas sobre eleição

Tags relacionadas

Beny Steinmetz Guiné parecer Sergio Moro
< Notícia Anterior

Sucesso de Moro incomoda

03.12.2020 00:00 4 minutos de leitura
Próxima notícia >

Covid-19: Brasil registra 776 mortes em 24 horas, diz consórcio

03.12.2020 00:00 4 minutos de leitura
avatar

Redação O Antagonista

Suas redes

Instagram

Os comentários não representam a opinião do site; a responsabilidade pelo conteúdo postado é do autor da mensagem.

Comentários (0)

Torne-se um assinante para comentar

Início

Seja nosso assinante

E tenha acesso exclusivo aos nossos conteúdos

Apoie o jornalismo independente. Assine O Antagonista e a Revista Crusoé.