O unicórnio paraguaio
Miguel Vázquez queria transformar seu banco na primeira startup bilionária do Paraguai. Causou um escândalo que derrubou o presidente do país
Quando a polícia entrou na mansão do banqueiro Miguel Vázquez, em Assunção, encontrou uma escultura de unicórnio.
Fundador e principal executivo do Ueno Bank, que sofreu intervenção do Banco Central paraguaio na terça-feira, 3, o empresário teve ascensão meteórica no setor financeiro e alimentava uma ideia fixa: criar o primeiro unicórnio do Paraguai, ou seja, a primeira startup avaliadas em mais de 1 bilhão de dólares.
“O sonho que mais sonho é que o Paraguai tenha seu primeiro unicórnio e que seja eu. Para mostrar que nós, paraguaios, somos guapos“, costumava dizer Vázquez. A última palavra tem significados que vão de belo a ousado, valente.
Acusado de quatro crimes financeiros, Vázquez teve sua prisão preventiva decretada nesta quinta-feira, 5, pela Justiça.
Também nesta quinta, o presidente paraguaio Santiago Peña renunciou ao cargo. Ele foi acionista do banco até o início de 2025.
Um terceiro personagem atingido foi o presidente do Banco Central, Carlos Carvallo Spalding, que também renunciou. Antes de assumir o cargo público, ele presidiu a Financeira Ueno, antecessora do banco.
Semelhanças com o Master
Centrado nas operações digitais, o Ueno Bank era, de fato, uma coisa do outro mundo. Num país de 6,4 milhões de habitantes, tinha quase 3 milhões de clientes. A intervenção federal deixou toda essa gente sem acesso aos seus recursos, por um período que pode durar 15 dias.
O escândalo tem semelhanças com o caso do Banco Master, no Brasil.
Como Daniel Vorcaro, Vázquez construiu um negócio financeiro de crescimento acelerado. O Ueno obteve autorização para funcionar em novembro de 2023 e se apresentava como símbolo de inovação e inclusão bancária. Gabava-se de feitos extraordinários, como a emissão de 470 mil cartões em um único dia.
A expansão também se valeu da proximidade com o poder político. O Ueno captou cerca de 850 milhões de dólares em recursos públicos. Parte significativa veio do Instituto de Previdência Social, responsável pelas aposentadorias dos trabalhadores paraguaios. Era dinheiro que deveria estar protegido por critérios rigorosos de segurança.
A investigação aponta que o banco, assim como o Master, emprestava recursos a empresas ligadas aos próprios controladores. Uma das operações mais suspeitas envolveu uma carteira de créditos de 74,4 milhões de dólares.
Segundo o Ministério Público, o Ueno teria financiado uma série de empresas que transferiram recursos, direta ou indiretamente, para a Vinanzas, que atua na aquisição, administração e recuperação de créditos. Essa, por sua vez, utilizou o dinheiro para comprar do próprio Ueno uma carteira de empréstimos a outras empresas relacionadas.
O resultado seria uma venda de fachada: o banco aparentava se livrar de créditos problemáticos, mas continuava sustentando a operação com seu próprio dinheiro. Fraude, em outras palavras.
A fiscalização acabou descobrindo uma situação patrimonial calamitosa. O índice de solvência do Ueno havia caído para 5,56%, menos da metade dos 12% exigidos pelas autoridades paraguaias.
Elefante e carros pretos
Enquanto os brasileiros descobrem os detalhes escandalosos da vida de Vorcaro, os paraguaios também começam a conhecer os hábitos de Vázquez.
A mansão do banqueiro, no bairro de Mbocayaty, era imensa e a polícia teve alguma dificuldade para encontrar sua entrada. Lá dentro, encontraram salões repletos obras de arte. Além da escultura de unicórnio, Vázquez tinha outra, de um elefante.
A coleção de automóveis também impressionou. Havia Porsche, Bentley, Mercedes-Benz, BMW e outros veículos de luxo, avaliados em conjunto em aproximadamente 1,4 milhão de dólares. Eram todos pretos.
A despeito da renúncia de Sebastián Peña, não vieram à tona, até agora, revelações sobre despesas com autoridades semelhantes às que alimentam o escândalo do Banco Master.
O caso Ueno levanta sérias questões sobre os mecanismos de controle do sistema financeiro paraguaio. Mas não só.
Há cerca de sete meses, Miguel Vázquez comemorou em suas redes sociais “a maior emissão internacional de títulos de um banco paraguaio”. Foram 350 milhões de dólares, em uma operação coordenada pelo Bank of America e pelo J.P. Morgan, com auditoria da PricewaterhouseCoopers e classificação de risco feita por Fitch e S&P Global Ratings.
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