Um cogumelo associado a visões de centenas de pessoas minúsculas foi identificado por DNA e não contém os alucinógenos conhecidos mais famosos
Análises genéticas ligaram cogumelos da China e das Filipinas a alucinações incomuns e levantaram a hipótese de uma substância psicoativa desconhecida
Um cogumelo chamado Lanmaoa asiatica está no centro de uma investigação sobre alucinações extremamente incomuns: pessoas relatam enxergar centenas de figuras humanas minúsculas, movimentando-se pelo ambiente. Pesquisadores da Universidade de Utah, nos Estados Unidos, identificaram geneticamente o fungo encontrado na China e nas Filipinas. Surpreendentemente, as análises não revelaram os mecanismos genéticos conhecidos de produção de substâncias como a psilocibina.
Como o Lanmaoa asiatica ficou conhecido pelas visões de pessoas minúsculas?
Na província chinesa de Yunnan, o cogumelo é conhecido como jian shou qing e aparece em mercados e tradições alimentares. Entretanto, relatos de intoxicação descrevem experiências visuais peculiares, principalmente após a ingestão de exemplares crus ou insuficientemente cozidos.
Pacientes contam enxergar pequenas figuras caminhando sobre móveis, atravessando portas ou interagindo com objetos. Essas experiências recebem o nome de alucinações liliputianas, referência aos habitantes imaginários de Lilipute, descritos no livro As Viagens de Gulliver, publicado por Jonathan Swift em 1726.
Por que o Lanmaoa asiatica também foi encontrado nas Filipinas?
Em 2024, o pesquisador Colin Domnauer investigou relatos de comunidades indígenas da Cordilheira setentrional filipina. Moradores conheciam um cogumelo chamado sedesdem, associado a experiências semelhantes às descritas em Yunnan. Apesar das diferenças de aparência, os exemplares coletados pertenciam à mesma espécie.
A investigação reuniu evidências importantes:
- Amostras de cogumelos provenientes da China;
- Exemplares coletados em comunidades das Filipinas;
- Relatos independentes de alucinações liliputianas;
- Sequenciamento de DNA para identificação das espécies;
- Análises genéticas de substâncias potencialmente psicoativas.
Um vídeo publicado em março de 2026 pelo canal Your Mate Tom apresenta o cogumelo e utiliza imagens fornecidas pelo próprio pesquisador Colin Domnauer. O material aborda o fenômeno e os riscos associados, sem substituir a publicação científica.
Como o Lanmaoa asiatica pode provocar alucinações sem psilocibina?
A psilocibina é uma substância encontrada em determinados fungos e conhecida por alterar a percepção. Entretanto, o genoma de Lanmaoa asiatica não apresentou os conjuntos de genes normalmente associados à produção dessa molécula ou do ácido ibotênico, outra substância psicoativa conhecida.
Isso levou os cientistas a considerar a existência de um composto ainda não identificado. Análises químicas também não detectaram os alucinógenos conhecidos investigados. Contudo, a ausência desses marcadores não revela automaticamente qual molécula provoca os sintomas nem como ela atua sobre o sistema nervoso.
Qual estudo científico identificou geneticamente o Lanmaoa asiatica?
A pesquisa de Colin Domnauer e Bryn T. M. Dentinger foi publicada em 5 de junho de 2026 na revista Mycologia. O estudo original sobre a diversidade genética de Lanmaoa utilizou sequenciamento genômico para investigar relações evolutivas, espécies desconhecidas e possíveis mecanismos associados à atividade psicoativa.
Os pesquisadores analisaram genomas de 53 exemplares e compararam 1.515 genes ortólogos, utilizados para reconstruir parentescos evolutivos. O trabalho também identificou quatro espécies anteriormente desconhecidas, ampliando para 17 o número de espécies reconhecidas no gênero.

Quais números revelam a dimensão da investigação sobre o Lanmaoa asiatica?
O levantamento examinou 53 exemplares, incluindo materiais de coleções científicas e amostras recentes. Também reuniu 21 espécimes de referência taxonômica, permitindo revisar identificações e distinguir espécies morfologicamente semelhantes.
Os relatos históricos remontam a 1934, em Papua-Nova Guiné, mas os pesquisadores ainda não conseguiram confirmar geneticamente o fungo associado àquelas ocorrências. A identificação molecular está estabelecida para materiais da China e das Filipinas.
| Indicador científico | Resultado documentado |
|---|---|
| Genomas analisados | 53 exemplares |
| Genes comparados | 1.515 |
| Espécimes taxonômicos de referência | 21 |
| Novas espécies identificadas | 4 |
| Espécies reconhecidas no gênero | 17 |
Por que descobrir a substância do Lanmaoa asiatica interessa à neurociência?
As alucinações liliputianas também aparecem associadas a determinadas condições neurológicas e alterações da percepção visual. Identificar um possível composto responsável por experiências semelhantes poderia oferecer novas ferramentas para investigar como o cérebro constrói imagens de pessoas e objetos inexistentes.
Entretanto, a molécula responsável ainda não foi isolada nem caracterizada. As observações também não tornam o cogumelo seguro: intoxicações podem exigir atendimento médico e apresentar sintomas prolongados. Os próximos estudos deverão identificar os compostos envolvidos e verificar seus efeitos sem depender da exposição humana a riscos desconhecidos.
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