Populismo bate populismo nas eleições dos EUA
Democratas adotaram o discurso da elite contra o povo para vencer Trump e os republicanos nas eleições desta semana
A característica definidora do populismo é a divisão da sociedade em dois campos: o povo e a elite. De um lado, os cidadãos comuns, trabalhadores e honestos. Do outro, uma minoria que controla as instituições em benefício próprio.
Donald Trump se tornou o líder populista por excelência ao construir sua carreira política em torno dessa oposição. Em seu discurso, os americanos que trabalham duro são explorados por elites liberais, empenhadas em impor a eles valores progressistas e em cobrar impostos para sustentar grupos que não fazem parte da “verdadeira América”.
A extraordinária vitória do Partido Democrata nas eleições de meio de mandato mostrou que Trump perdeu o monopólio dessa linguagem. Uma nova geração de políticos democratas descobriu como utilizar o populismo contra os republicanos. Alguns passaram até mesmo a reivindicar o rótulo.
Adeus, guerra cultural
Para funcionar, o populismo precisa identificar claramente uma elite responsável pelas dificuldades do cidadão comum. Precisa dar rosto ao “eles” que se contrapõe ao “nós”.
Os democratas encontraram esse adversário ao deslocar o debate das questões identitárias para a economia. Em vez de insistir nas disputas sobre gênero, raça e costumes, passaram a falar de salários, impostos, escolas, moradia e custo de vida.
“Por mais de uma década, o tema central da política americana foi a guerra cultural: estados republicanos contra estados democratas, feminismo contra a manosphere. Mas as transformações profundas do país ocorreram em outra dimensão: a tecnologia, o dinheiro e os desafios cada vez maiores impostos pela concentração extrema de riqueza e pela desigualdade”, diz uma reportagem sobre o novo populismo na revista New Yorker.
Os democratas em ascensão tentam transformar essas mudanças econômicas no principal eixo da disputa política. “A maior divisão neste país não é entre esquerda e direita, mas entre os de cima e os de baixo”, afirma James Talarico, eleito para o Senado pelo Texas, na mesma reportagem.
A nova elite
Dois personagens e um tipo de empreendimento simbolizam a elite que os democratas afirmam combater.
O primeiro personagem é o bilionário da economia digital. Elon Musk, Jeff Bezos e Mark Zuckerberg se aproximaram da Casa Branca e se tornaram símbolos de uma concentração de riqueza e poder sem limites.
O empreendimento é o datacenter. As instalações que sustentam a inteligência artificial e os serviços digitais se multiplicaram pelos Estados Unidos. Consomem enormes quantidades de eletricidade e água, pressionam a infraestrutura local e frequentemente recebem benefícios tributários.
É fácil explorar o conflito. Enquanto famílias enfrentam contas de luz elevadas, grandes empresas recebem incentivos para consumir recursos escassos.
O segundo personagem é o próprio Trump.
O presidente que prometeu combater os interesses instalados em Washington passou a ser retratado pelos adversários como beneficiário do sistema que alegava enfrentar. Seus negócios, os ganhos de sua família e as relações com grandes financiadores alimentaram a percepção de que utiliza o poder para enriquecer.
Os novos populistas
No Michigan, Abdul El-Sayed, médico e ex-dirigente de saúde pública, venceu a disputa pelo Senado com uma plataforma progressista de forte apelo econômico.
No Maine, Troy Jackson, ligado ao movimento sindical, derrotou a veterana republicana Susan Collins. Sua trajetória oferece aos democratas uma reconexão com o mundo do trabalho.
No Texas, James Talarico conquistou uma cadeira no Senado que os democratas não obtinham desde 1988. Ex-professor e seminarista presbiteriano, combinou na campanha referências religiosas com críticas à corrupção, ao custo de vida e à influência dos bilionários.
Talvez o caso mais interessante seja o de Gina Hinojosa, eleita governadora do Texas, encerrando mais de três décadas de domínio republicano.
Hinojosa construiu sua campanha contra Greg Abbott denunciando os privilégios concedidos às grandes empresas, particularmente os datacenters.
Não escondeu suas posições liberais sobre armas, imigração e aborto, mas se recusou a fazer desses temas o centro da campanha.
Hinojosa não se incomoda em ser chamada de populista. Ao contrário, reivindica a denominação com orgulho.
“A grande disputa neste país é pelo poder econômico. E o populismo diz respeito ao poder econômico”, afirmou em entrevista ao New York Times.
Ela lembra que o Texas possui uma longa tradição populista, anterior à hegemonia republicana. No século XIX, agricultores se organizaram contra o poder das grandes companhias ferroviárias. Hoje, diz ela, os trabalhadores precisam se organizar contra o poder das gigantes de tecnologia.
O confronto entre povo e elite continua organizando a política americana, mas desta vez não foi Trump quem se valeu dele.
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