Um rio vermelho que escorre sobre o gelo da Antártida pode guardar descendentes de organismos marinhos isolados há milhares de anos
Análises genéticas revelaram microrganismos ligados ao oceano em sedimentos vermelhos da Antártida e levantaram novas hipóteses sobre a vida isolada sob o gelo
As Cataratas de Sangue, na Antártida, podem preservar vestígios biológicos de um antigo ambiente marinho que ficou isolado sob o gelo. Um estudo publicado em agosto de 2026 identificou microrganismos com características genéticas associadas ao oceano em sedimentos avermelhados próximos ao Glaciar Taylor. A descoberta sugere que algumas linhagens sobreviveram a profundas transformações ambientais.
Por que as Cataratas de Sangue apresentam água vermelha em meio ao gelo antártico?
Localizadas nos Vales Secos de McMurdo, as Cataratas de Sangue formam um escoamento avermelhado na extremidade do Glaciar Taylor. A água salgada emerge periodicamente de um sistema subglacial e percorre uma pequena extensão até a região do Lago Bonney, contrastando com a paisagem congelada.
A coloração resulta principalmente do ferro presente na salmoura. Quando esse material entra em contato com condições diferentes das encontradas sob o gelo, ocorrem transformações químicas que produzem depósitos avermelhados. Portanto, a aparência não está relacionada a sangue nem à presença de algas vermelhas.
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Quais microrganismos foram encontrados nas Cataratas de Sangue?
Os cientistas identificaram organismos microscópicos associados a ambientes marinhos em amostras de lama, sedimentos e gelo avermelhado. Entre eles estavam diatomáceas, dinoflagelados, ciliados e haptófitas, grupos que incluem importantes componentes das comunidades aquáticas.
A investigação revelou características particularmente interessantes:
- Diatomáceas com afinidades genéticas marinhas;
- Dinoflagelados associados a ambientes oceânicos;
- Ciliados presentes nas comunidades microscópicas;
- Organismos com atividade genética detectável;
- Linhagens diferenciadas de parentes encontrados no mar.
Um vídeo do canal PBS Terra, publicado em fevereiro de 2020, apresenta as Cataratas de Sangue e acompanha pesquisadores que investigam sua química e seus microrganismos. O documentário é anterior ao estudo de 2026.
Como organismos marinhos poderiam sobreviver isolados sob o gelo antártico?
Uma hipótese considera que águas oceânicas penetraram no Vale Taylor durante períodos antigos de clima mais quente. Posteriormente, o avanço do glaciar e alterações ambientais teriam isolado parte dessa água, formando reservatórios salinos com características diferentes das encontradas no oceano atual.
A sobrevivência microbiana depende de adaptações à salinidade, ao frio e à disponibilidade limitada de nutrientes. Alguns organismos produzem estruturas resistentes ou entram em estados de baixa atividade. Entretanto, o estudo não demonstrou que todos os microrganismos identificados viveram continuamente sob o gelo durante milhares de anos.
Como os pesquisadores descobriram a origem marinha das Cataratas de Sangue?
O estudo publicado na revista Nature Geoscience, em 3 de agosto de 2026, foi liderado por Angela Zoumplis, com participação de pesquisadores da Universidade da Califórnia em San Diego, da Universidade Yale e do Instituto J. Craig Venter.
A equipe examinou 167 amostras de ambientes aquáticos, sedimentos, materiais transportados pelo vento e regiões marinhas próximas. Técnicas de sequenciamento de DNA e análise de RNA permitiram identificar organismos e detectar atividade celular. Os resultados apontaram uma comunidade distinta na superfície influenciada pela salmoura, mas não comprovaram a presença desses eucariotos diretamente no reservatório subterrâneo.

Quais números reforçam a ligação das Cataratas de Sangue com o oceano?
A análise identificou 7.077 variantes de sequências genéticas de eucariotos nas amostras investigadas. Na região do Glaciar Taylor, aproximadamente 9,34% das variantes apresentavam correspondência com comunidades marinhas de referência, contra 1,15% nos demais ambientes dos Vales Secos.
As diatomáceas foram particularmente reveladoras: linhagens de origem marinha representaram mais de 60% dessa comunidade em determinadas amostras avermelhadas. Os números indicam uma afinidade biológica relevante, sem permitir estabelecer exatamente quando ocorreu o isolamento.
| Indicador científico | Resultado da pesquisa |
|---|---|
| Publicação | 3 de agosto de 2026 |
| Amostras analisadas | 167 |
| Variantes genéticas de eucariotos | 7.077 |
| Correspondência com amostras marinhas | 9,34% na região das cataratas; 1,15% nas demais áreas |
| Diatomáceas de afinidade marinha | Mais de 60% em certas amostras vermelhas |
Por que as Cataratas de Sangue podem revelar a história climática da Antártida?
As diferenças genéticas entre microrganismos próximos ao glaciar e organismos marinhos atuais sugerem uma história de isolamento e adaptação. A baixa presença dessas assinaturas nas amostras transportadas pelo vento também enfraquece a hipótese de que toda a comunidade tenha chegado recentemente por dispersão atmosférica.
Entretanto, ainda não foi comprovado que os organismos sejam descendentes diretos de populações preservadas desde uma única invasão marinha antiga. O principal avanço está na identificação de uma comunidade ativa com fortes sinais de ancestralidade oceânica. Novas análises poderão esclarecer quando ocorreu a separação e como a vida persistiu durante mudanças climáticas extremas.
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