A lição da Coreia do Sul para a política industrial brasileira
País asiático dá prosseguimento a décadas de política industrial dobrando investimentos em inteligência artificial e semicondutores
O governo da Coreia do Sul apresentou nesta segunda-feira, 2, uma proposta orçamentária que prevê 16 bilhões de dólares para inteligência artificial, semicondutores, robótica e data centers em 2027. O valor é quase o dobro do previsto para este ano.
O presidente Lee Jae-myung também anunciou investimentos em infraestrutura elétrica e hídrica, pesquisa e formação de profissionais especializados.
Por que isso importa
A Coreia do Sul é uma referência interessante para o Brasil porque demonstra como um país que não estava entre as grandes potências industriais conseguiu transformar sua estrutura produtiva e conquistar posições de liderança em mercados internacionais. Em poucas décadas, passou de uma economia relativamente pobre a potência tecnológica, com empresas como Samsung e SK Hynix, grandes produtoras de chips de memória.
Essa transformação resultou de uma combinação de investimentos privados, planejamento estatal, financiamento, educação e políticas de apoio a setores considerados estratégicos. A experiência sul-coreana tornou-se, por isso, um dos casos mais estudados de política industrial.
O novo orçamento mostra que essa estratégia não foi aposentada. A Coreia procura aproveitar suas competências em semicondutores para avançar em inteligência artificial, robótica e infraestrutura digital.
Panorama: a estratégia sul-coreana
O plano concentra investimentos em três grandes frentes: semicondutores, inteligência artificial aplicada ao mundo físico – como robôs e fábricas inteligentes – e data centers.
Segundo a imprensa sul-coreana, cerca de 1,5 bilhão de dólares serão destinados à ampliação da capacidade de fabricação de chips e outros 1,6 bilhão à infraestrutura de eletricidade, água e parques industriais.
Há ainda 3,5 bilhões de dólares previstos para desenvolver modelos próprios de inteligência artificial, com a ambição declarada de alcançar desempenho comparável ao dos líderes mundiais.
A formação de mão de obra também integra a estratégia. O governo pretende preparar 2 mil especialistas em projetos de semicondutores e ampliar programas universitários desenvolvidos em parceria com empresas.
A política procura conectar diferentes elos de uma mesma cadeia produtiva. Não basta financiar a fabricação de chips se faltarem energia, água, profissionais qualificados ou capacidade de aplicar as novas tecnologias na indústria.
Lupa: o paralelo brasileiro
O Brasil também dispõe de uma política industrial estruturada. A Nova Indústria Brasil (NIB), lançada em 2024, organiza suas prioridades em seis missões, que incluem agroindústria, saúde, infraestrutura, transformação digital, descarbonização e tecnologias estratégicas.
O financiamento é um dos principais instrumentos. Segundo balanço divulgado pelo Ministério do Desenvolvimento em outubro, os recursos disponibilizados pelo Plano Mais Produção alcançaram 713,3 bilhões de reais, dos quais 653,15 bilhões haviam sido desembolsados até dezembro de 2025, para 428 mil projetos.
Os números mostram a dimensão financeira da iniciativa, embora não permitam avaliar seus resultados sobre produtividade, inovação e competitividade (indicadores a que a NIB deveria dar mais atenção).
Radar empresarial
O Brasil não dispõe de fabricantes de semicondutores com a escala e a posição internacional da Samsung ou da SK Hynix. Possui, no entanto, competências empresariais e científicas em áreas como agroindústria, energia, saúde e aeronáutica.
A questão não é reproduzir as prioridades sul-coreanas, mas aplicar uma lógica semelhante: concentrar esforços onde existem capacidades produtivas, oportunidades tecnológicas e perspectivas concretas de expansão dos mercados.
A primeira questão para uma agenda de acompanhamento para empresas e profissionais de relações governamentais é o foco. Quais cadeias produtivas devem receber prioridade e por quê? A seleção precisa considerar não apenas seu potencial tecnológico, mas também a capacidade de atrair investimentos privados.
A segunda é a coordenação. Financiar uma fábrica pouco resolve quando gargalos de infraestrutura, mão-de-obra qualificada ou acesso a tecnologias complementares continuam presentes. Os programas de apoio precisam considerar esses obstáculos conjuntamente.
A terceira é a avaliação. O desempenho da NIB não deveria ser medido apenas pelos valores anunciados, aprovados ou desembolsados. É necessário acompanhar outros indicadores, como novos produtos criados, ganhos de produtividade, volume de exportações e inserção das empresas em cadeias de maior valor agregado.
Associações setoriais podem contribuir com essa agenda identificando gargalos comuns, oportunidades de cooperação tecnológica e condições necessárias para que empresas de diferentes portes participem dos projetos apoiados.
Resumo da ópera
A Coreia do Sul mostra como uma política industrial de longo prazo pode combinar investimentos públicos, competências empresariais existentes e infraestrutura para disputar mercados tecnológicos.
O Brasil possui instrumentos de financiamento e uma agenda de prioridades. O desafio para a próxima etapa, a partir de 2027, é demonstrar que esses recursos estão produzindo resultados duradouros.
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