O cocô de pinguins fica rosa por causa do alimento e manchas enormes podem ser vistas do espaço para acompanhar colônias inteiras
Satélites detectam manchas rosadas deixadas por pinguins-de-adélia e ajudam cientistas a identificar colônias, investigar sua alimentação e acompanhar mudanças na Antártida
O cocô de pinguins-de-adélia (Pygoscelis adeliae) pode adquirir coloração rosa devido ao consumo de krill, pequeno crustáceo abundante nas águas antárticas. Quando milhares de aves se concentram para reproduzir, seus excrementos formam manchas detectáveis por satélites. Pesquisadores agora utilizam essas marcas para localizar colônias e investigar mudanças na alimentação, transformando um resíduo biológico em ferramenta de monitoramento ambiental.
Por que o cocô de pinguins fica rosa depois que eles comem krill?
O krill antártico (Euphausia superba) alimenta-se principalmente de organismos microscópicos, incluindo algas que contêm pigmentos carotenoides. Entre eles está a astaxantina, responsável por tonalidades avermelhadas observadas em diversos animais marinhos. Quando os pinguins consomem grandes quantidades desses crustáceos, parte dos pigmentos aparece nos excrementos.
A coloração, entretanto, não é sempre rosa. A dieta dos pinguins-de-adélia também inclui peixes, especialmente o peixe-prateado-antártico. Quando esses animais predominam na alimentação, o guano tende a apresentar tonalidade mais clara ou esbranquiçada. Essas diferenças oferecem pistas sobre os recursos alimentares encontrados pelas aves.
Como o cocô de pinguins consegue aparecer nas imagens de satélite?
Durante a reprodução, milhares de pinguins ocupam áreas rochosas relativamente pequenas, onde constroem ninhos e permanecem por semanas. O acúmulo de guano colore grandes superfícies, produzindo manchas rosadas, avermelhadas ou alaranjadas. O contraste com a neve e as rochas facilita sua identificação em imagens orbitais.
Os satélites não precisam fotografar cada pinguim individualmente. Sensores registram a luz refletida pelas superfícies e permitem reconhecer padrões associados às colônias. O método envolve cinco etapas fundamentais:
- Identificar manchas coloridas nas áreas costeiras da Antártida;
- Analisar a assinatura espectral dos depósitos de guano;
- Diferenciar excrementos de neve, rochas e outros materiais;
- Comparar imagens obtidas em diferentes temporadas;
- Estimar a localização, extensão e evolução das colônias.
O vídeo da National Geographic, publicado em abril de 2016, mostra como pesquisadores utilizam manchas de guano para rastrear pinguins por satélite. Ele é anterior ao estudo de 2026, mas aborda diretamente a mesma técnica.
Como os cientistas descobrem o alimento dos pinguins pela cor das fezes?
A astaxantina possui características específicas de absorção e reflexão da luz. Sensores orbitais conseguem detectar diferenças espectrais entre superfícies aparentemente semelhantes, inclusive em comprimentos de onda não percebidos pelo olho humano. Assim, depósitos com maior presença do pigmento podem indicar alimentação predominantemente baseada em krill.
Entretanto, a cor isolada não revela uma dieta exata. Umidade, envelhecimento dos depósitos e características do terreno também interferem nas medições. Para reduzir essas incertezas, pesquisadores combinam imagens de satélite com amostras coletadas diretamente nas colônias e análises químicas realizadas em laboratório.
Qual estudo demonstrou que as manchas permitem investigar populações de pinguins?
O estudo publicado na revista Current Biology, divulgado em julho de 2026, foi liderado por Casey Youngflesh, da Universidade Clemson, em colaboração com pesquisadores da Universidade da Califórnia em Santa Cruz, Stony Brook e NASA. O trabalho examinou mudanças alimentares dos pinguins-de-adélia em escala continental.
A equipe analisou imagens Landsat obtidas entre 1984 e 2013, relacionando assinaturas espectrais do guano a análises de isótopos estáveis de amostras reais. Modelos estatísticos permitiram reconstruir padrões alimentares em diferentes regiões. Os resultados mostraram maior consumo de krill onde havia menos gelo marinho e maior participação de peixes nas áreas com cobertura mais extensa.

Quais números mostram a importância dessas manchas para o monitoramento?
O levantamento de 2026 examinou mais de 100 localidades antárticas durante um intervalo de 30 anos. Um exemplo anterior ocorreu nas Ilhas Danger, próximas à Península Antártica, onde imagens de satélite ajudaram a identificar colônias que reuniam aproximadamente 1,5 milhão de pinguins-de-adélia em estimativas divulgadas em 2018.
Essa população não foi contada pela observação individual de cada ave em imagens Landsat. Os pesquisadores combinaram extensão das manchas, imagens de maior resolução e levantamentos de campo. As diferentes fontes ajudam a estimar quantidades, mas permanecem sujeitas a margens de incerteza e variações sazonais.
O que o cocô de pinguins pode revelar sobre as mudanças climáticas na Antártida?
As manchas oferecem informações sobre a distribuição das colônias e a disponibilidade relativa de alimentos. O estudo de 2026 encontrou associação entre menor cobertura de gelo marinho e maior dependência do krill. Também identificou relações entre dietas predominantemente baseadas nesse crustáceo e tendências populacionais desfavoráveis em determinadas regiões.
Essas associações não demonstram que o consumo de krill, isoladamente, provoque declínio populacional. Temperatura, disponibilidade de presas e condições reprodutivas também influenciam as aves. Com séries históricas de satélites e observações de campo, cientistas conseguem investigar transformações difíceis de perceber numa única expedição à Antártida.
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