Um periquito ameaçado voltou a se reproduzir numa região onde não havia filhotes registrados havia 114 anos
Projeto de reintrodução na Serra das Almas registra nascimento de filhotes em liberdade e marca nova etapa na recuperação de ave ameaçada da Caatinga
O periquito-cara-suja (Pyrrhura griseipectus) voltou a se reproduzir em liberdade na Reserva Natural Serra das Almas, entre Ceará e Piauí. Em março de 2026, nasceram filhotes de uma população reintroduzida após aproximadamente 114 anos sem registros da espécie na região. O nascimento representa um avanço importante na recuperação de uma das aves ameaçadas da Caatinga.
Por que o periquito-cara-suja desapareceu da Serra das Almas durante tanto tempo?
O periquito-cara-suja é uma ave nativa do Nordeste brasileiro, associada especialmente às florestas serranas do Ceará. A perda e a fragmentação de habitats contribuíram para a redução de suas populações. No Planalto da Ibiapaba, onde fica a Serra das Almas, a espécie deixou de ser registrada por mais de um século, embora continuasse existindo em outras localidades.
A Reserva Natural Serra das Almas protege aproximadamente 6.285 hectares de Caatinga, entre Crateús, no Ceará, e Buriti dos Montes, no Piauí. O retorno da espécie foi planejado para restabelecer uma população numa área historicamente ocupada. Os 114 anos representam uma ausência de registros confirmados, não a extinção mundial do animal.
Como o periquito-cara-suja conseguiu voltar a produzir filhotes na natureza?
O primeiro registro de reprodução em liberdade ocorreu em março de 2026, após pesquisadores identificarem 33 ovos em caixas-ninho instaladas na reserva. O acompanhamento começou em fevereiro, e os primeiros nascimentos foram registrados em 17 de março. As estruturas artificiais reproduzem cavidades de árvores utilizadas naturalmente pelos periquitos para reprodução.
O resultado foi possível graças ao projeto Refaunar Arvorar, desenvolvido pela Associação Caatinga e pela Aquasis, em parceria com o Parque Arvorar. A recuperação envolveu etapas sucessivas de preparação:
- Construção de viveiros para adaptação ao ambiente;
- Seleção e acompanhamento sanitário dos animais;
- Introdução gradual de grupos provenientes de outras áreas;
- Monitoramento dos casais e instalação de caixas-ninho;
- Acompanhamento dos ovos e dos primeiros filhotes.
Como os periquitos-cara-suja se adaptaram novamente ao ambiente da Caatinga?
A reintrodução exige mais do que transportar aves entre localidades. Os animais precisam reconhecer alimentos, identificar predadores, estabelecer territórios e interagir com outros indivíduos. Por isso, os pesquisadores utilizam viveiros de aclimatação, onde os periquitos passam por uma transição antes de enfrentar integralmente as condições naturais.
A reprodução indica que pelo menos alguns casais conseguiram alcançar uma etapa essencial desse processo. O comportamento reprodutivo foi observado em outubro de 2025, antes da identificação dos ovos. Entretanto, o nascimento não garante que todos os filhotes sobrevivam, nem comprova que a população já consiga permanecer estável sem acompanhamento humano.
Qual projeto científico tornou possível a recuperação do periquito-cara-suja?
O relatório oficial da Associação Caatinga, divulgado em março de 2026, documentou a reprodução em liberdade e a cronologia do projeto. A iniciativa começou a ser estruturada em setembro de 2023, com a construção do viveiro, e recebeu os primeiros grupos de aves em 2024.
A metodologia combina avaliação veterinária, aclimatação, solturas acompanhadas e monitoramento reprodutivo. Fábio Nunes, coordenador do Projeto Cara-Suja, destacou a importância da adaptação dos indivíduos provenientes da Serra de Baturité. Diferentemente de um experimento acadêmico isolado, trata-se de um programa continuado de conservação, com resultados documentados pelas instituições participantes.
Quais números comprovam o avanço do periquito-cara-suja na Serra das Almas?
Em dezembro de 2024, ocorreu a primeira soltura, envolvendo 18 periquitos. Novos grupos foram incorporados durante 2025. Em abril daquele ano, quatro filhotes nasceram dentro do viveiro de aclimatação, demonstrando capacidade reprodutiva em condições monitoradas, mas ainda sem representar reprodução plenamente independente na natureza.
O avanço seguinte aconteceu em 2026: pesquisadores contabilizaram 33 ovos nas caixas-ninho externas e registraram os primeiros nascimentos em liberdade. Na divulgação de março, havia 23 adultos soltos na reserva. Esses números representam etapas diferentes e não devem ser somados como se todos os ovos já correspondessem a indivíduos sobreviventes.
O que o nascimento dos filhotes significa para o futuro da espécie ameaçada?
O retorno da reprodução em liberdade demonstra que a restauração de populações desaparecidas localmente pode produzir resultados concretos. Também evidencia a importância da cooperação entre organizações ambientais, instituições de pesquisa e órgãos públicos. A presença de novos indivíduos nascidos na Caatinga amplia as possibilidades de estabelecimento de uma população regional.
Os próximos desafios incluem acompanhar a sobrevivência dos filhotes, a formação de novos casais e a reprodução em gerações seguintes. Predação, eventos climáticos e disponibilidade de alimento continuam influenciando os resultados. Somente o monitoramento prolongado permitirá determinar se a população conseguirá crescer e manter-se sem novas solturas.
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