O Nobel e os direitos humanos seletivos
A escolha de Navi Pillay exige respostas sobre imparcialidade, antissemitismo e proteção de dissidentes
Por Nira Broner Worcman*
Em entrevista à CNN internacional em 14 de outubro, Navi Pillay (foto) afirmou que o Nobel da Paz ampliará sua capacidade de continuar o trabalho que vem realizando. Também declarou saber atuar com imparcialidade e examinar cuidadosamente as evidências. O prestígio do prêmio reforça sua influência. Mas quem examina as questões sobre sua própria atuação?
Em 2022, a prefeitura de Berlim retirou seu apoio à entrega da Medalha Otto Hahn da Paz a Pillay, após o embaixador israelense apresentar críticas à sua atuação, e a cerimônia foi cancelada. Quatro anos depois, Oslo lhe concede o Nobel da Paz. Como o comitê avaliou as controvérsias que já cercavam a laureada?
O comitê premiou Pillay por promover a paz e o direito internacional, destacando sua coragem e integridade. Sua atuação contra o apartheid merece reconhecimento. Mas esses méritos não dispensam o exame das controvérsias de sua trajetória.
“Lobby judaico”
Em julho de 2022, Miloon Kothari, integrante da comissão da ONU presidida por Pillay, atribuiu ao “lobby judaico” e a determinadas organizações controle sobre as redes sociais.
Também questionou a permanência de Israel na ONU. Pillay defendeu o colega, alegando que suas palavras haviam sido deliberadamente retiradas de contexto.
O próprio presidente do Conselho de Direitos Humanos advertiu que os comentários de Kothari poderiam ser interpretados como estigmatização dos judeus. Kothari posteriormente reconheceu que sua referência ao “lobby judaico” fora errada e pediu desculpas.
Em coletiva na ONU em outubro de 2022, Pillay classificou as acusações de antissemitismo contra a comissão como “mentiras”.
Criticar Israel não é antissemitismo. Atribuir aos judeus poder sobre os meios de comunicação reproduz, porém, um conhecido estereótipo antissemita. Nesse caso, ele partiu de alguém encarregado de investigar violações de direitos humanos e foi defendido pela presidente da comissão.
Imparcial?
Sua imparcialidade também exigia atenção. Em 2020, antes de presidir a investigação sobre Israel, Pillay assinou uma petição em defesa de sanções contra o país. A UN Watch, ONG que monitora a atuação da ONU, pediu seu afastamento por parcialidade. Como assegurar uma investigação aberta às evidências quando sua presidente já havia defendido a punição do investigado?
Há ainda a denúncia de Emma Reilly, ex-funcionária do escritório de direitos humanos da ONU. Segundo ela, durante a gestão de Pillay, nomes de dissidentes foram entregues à China apesar de seus alertas sobre os riscos.
Em abril de 2024, a Comissão de Relações Exteriores da Câmara dos Comuns britânica publicou seu depoimento escrito sobre o caso. Nele, Reilly relatou que familiares de participantes identificados à China sofreram intimidação, prisões e tortura.
A publicação do depoimento não equivale à confirmação das denúncias, mas demonstra que elas chegaram formalmente ao escrutínio parlamentar.
Leia mais: Vencedora do Nobel da Paz acusou Israel de cometer genocídio em Gaza
Genocídio dos uigures
Reilly acusa Pillay de cumplicidade no genocídio dos uigures. A acusação não equivale a culpa comprovada. Exige apuração e resposta, inclusive de quem decidiu homenageá-la.
Ronald Lauder, presidente do Congresso Judaico Mundial, condenou a escolha, criticando a investigação presidida por Pillay e rejeitando sua conclusão sobre genocídio em Gaza.
Já o grupo terrorista Hamas celebrou a premiação.
Seu dirigente Bassem Naim apresentou o Nobel como uma mensagem de esperança para os palestinos. O apoio do Hamas não determina o mérito da escolha. Mostra, porém, como o prestígio do Nobel pode ser mobilizado para legitimar uma narrativa política.
Direitos humanos seletivos deixam de ser universais. Uma celebração que encobre essas contradições faz o Nobel correr o risco de alimentar a hostilidade que deveria ajudar a superar.
O comitê precisa prestar contas dos valores que afirma defender. Se exige integridade de quem homenageia, deve demonstrá-la ao justificar suas escolhas. Sem isso, o Nobel da Paz compromete a autoridade que pretende conferir.
*Nira Broner Worcman é jornalista, CEO da Art Presse Comunicação e autora de ‘Enxugando Gelo’, livro hors commerce sobre desinformação a respeito de Israel e do povo judeu.
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