Neandertais podem ter passado uma substância pegajosa de bétula em feridas e testes modernos encontraram propriedades antimicrobianas no material
Experimento recriou uma substância usada por neandertais e identificou atividade contra bactérias, levantando uma nova hipótese sobre cuidados com feridas
Uma substância escura utilizada pelos neandertais para fabricar ferramentas pode ter servido a outra finalidade surpreendente. Pesquisadores recriaram o alcatrão de bétula e descobriram que ele consegue inibir uma bactéria associada a infecções de feridas. Publicado em março de 2026, o estudo apresenta evidências experimentais de uma possível aplicação medicinal, mas não comprova que os neandertais realmente utilizavam o material como tratamento.
Por que os neandertais produziam alcatrão de bétula há milhares de anos?
Muito antes das colas industriais, populações neandertais já produziam uma substância pegajosa a partir da casca de árvores do gênero Betula. Vestígios encontrados em sítios arqueológicos europeus mostram que o material era utilizado para prender componentes de pedra a cabos de madeira.
A fabricação envolvia aquecimento controlado da casca, permitindo recuperar compostos liberados durante sua transformação térmica. Evidências arqueológicas indicam que essa tecnologia existia há mais de 150 mil anos, demonstrando conhecimentos práticos sobre materiais naturais e suas propriedades.
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Como o alcatrão de bétula revelou propriedades antimicrobianas?
Os pesquisadores reproduziram técnicas compatíveis com aquelas disponíveis durante o Paleolítico Médio. Depois de obter diferentes amostras de alcatrão, colocaram pequenas quantidades do material em contato com culturas bacterianas, observando possíveis alterações no crescimento dos microrganismos.
Os resultados mostraram atividade contra Staphylococcus aureus, bactéria frequentemente associada a infecções cutâneas. Entretanto, o mesmo material não apresentou efeito detectável contra Escherichia coli, demonstrando que sua atividade antibacteriana não é universal.
O experimento apresentou cinco resultados importantes:
- Seis amostras de alcatrão foram avaliadas;
- Cinco apresentaram alguma atividade contra S. aureus;
- A maior zona de inibição alcançou 10,5 milímetros;
- Nenhuma amostra inibiu significativamente E. coli;
- A eficácia variou entre amostras, sem depender claramente do método de produção.

Por que essa substância poderia ter sido aplicada em feridas?
O alcatrão possui consistência viscosa e consegue aderir à pele, formando uma camada relativamente persistente. Essa característica, combinada com a atividade antibacteriana observada, torna plausível a hipótese de aplicação sobre pequenos ferimentos ou irritações cutâneas.
Entretanto, proteger fisicamente uma superfície e impedir uma infecção são processos diferentes. Os testes identificaram inibição bacteriana em laboratório, sem avaliar cicatrização em tecidos vivos, segurança dermatológica ou possíveis efeitos irritantes. Portanto, não permitem recomendar seu uso como medicamento.
Como os cientistas recriaram uma tecnologia utilizada pelos neandertais?
O estudo publicado na revista PLOS One, em 18 de março de 2026, foi liderado por Tjaark Siemssen, com pesquisadores das universidades de Colônia, Oxford, Liège e Cape Breton. A equipe utilizou cascas de Betula pendula e Betula pubescens.
As amostras foram obtidas por métodos de condensação, aquecimento em estruturas subterrâneas e um procedimento moderno com recipiente metálico. Posteriormente, passaram por ensaios de difusão em disco, nos quais a área sem crescimento bacteriano indica possível atividade antimicrobiana.
Quais bactérias foram afetadas pelo alcatrão de bétula?
A resposta mais evidente ocorreu contra S. aureus, bactéria Gram-positiva. A melhor amostra produziu uma zona de inibição de 10,5 ± 0,7 milímetros, enquanto outras apresentaram resultados próximos de sete milímetros. Uma delas não produziu efeito detectável.
Já E. coli, bactéria Gram-negativa, não apresentou inibição mensurável. O antibiótico gentamicina, utilizado como controle positivo, produziu zonas maiores, entre 22 e 23 milímetros. Essa comparação mostra que o alcatrão teve atividade limitada nas condições experimentais.
| Material testado | Resultado laboratorial |
|---|---|
| Alcatrão contra S. aureus | Inibição variável, até 10,5 ± 0,7 mm |
| Alcatrão contra E. coli | Nenhuma inibição detectável |
| Gentamicina | Zonas de 22–23 mm |
| Controle negativo | Sem atividade antibacteriana |
O que essa descoberta muda sobre os cuidados de saúde dos neandertais?
A pesquisa amplia as possibilidades de interpretação de uma tecnologia anteriormente associada principalmente à fabricação de ferramentas. Também dialoga com evidências arqueológicas de indivíduos neandertais que sobreviveram a ferimentos graves, possivelmente recebendo cuidados de outros integrantes de seus grupos.
Há registros etnográficos de comunidades indígenas Mi’kmaq, no Canadá, utilizando preparados de bétula para cuidados da pele. Embora essas práticas mostrem uma aplicação possível, não demonstram continuidade cultural com os neandertais. A hipótese medicinal permanece aberta, e serão necessárias evidências arqueológicas mais diretas para estabelecer se o uso em feridas realmente aconteceu.
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