Dois aglomerados com massa de quadrilhões de sóis estão colidindo e podem exigir uma matéria escura mais estranha do que o modelo padrão prevê
Simulações de El Gordo sugerem partículas capazes de mudar de estado energético durante colisões cósmicas, mas novas observações ainda precisam testar a hipótese
A aproximadamente sete bilhões de anos-luz da Terra, a colisão dos aglomerados de galáxias El Gordo pode revelar um comportamento desconhecido da matéria escura. Simulações publicadas em 2026 indicam que partículas invisíveis capazes de alternar entre dois estados energéticos reproduzem melhor determinadas características do sistema. A hipótese, entretanto, ainda precisa ser confirmada.
Por que a colisão de El Gordo desafia os modelos cosmológicos?
Identificado oficialmente como ACT-CL J0102−4915, El Gordo reúne dois aglomerados extremamente massivos em processo de colisão. O sistema contém centenas de galáxias, gás superaquecido e enormes concentrações de matéria escura, alcançando uma massa total estimada em alguns quadrilhões de sóis.
Sua estrutura apresenta uma particularidade intrigante: as posições das galáxias, do gás quente e da massa invisível não coincidem perfeitamente. Essas separações oferecem pistas sobre o comportamento gravitacional e sobre possíveis interações entre partículas durante encontros cósmicos extremamente energéticos.
Leia também: Mais de mil sítios arqueológicos aparecem dentro deste parque brasileiro e 204 deles podem ser visitados pelo público
O que as simulações revelaram sobre a matéria escura em El Gordo?
O novo trabalho examinou um cenário no qual partículas de matéria escura podem existir em dois estados energéticos. Durante colisões suficientemente intensas, algumas passariam do estado fundamental para um estado excitado, absorvendo parte da energia cinética disponível.
Nas simulações, esse mecanismo ajudou a reproduzir a distribuição de massa observada e as distorções gravitacionais provocadas pelos aglomerados. O ajuste mostrou vantagens sobre modelos sem colisões entre partículas escuras ou com interações exclusivamente elásticas.
As condições investigadas envolveram diferentes processos físicos:
- Colisões elásticas, nas quais a energia cinética total é conservada;
- Transições inelásticas capazes de excitar partículas;
- Velocidades mínimas necessárias para permitir essas transições;
- Alterações na distribuição espacial dos halos invisíveis;
- Comparações com medições de lentes gravitacionais fracas.
Uma apresentação audiovisual oficial do telescópio James Webb permite explorar El Gordo e observar galáxias distorcidas pela gravidade do sistema. O vídeo mostra observações reais, não as simulações publicadas em 2026.
Como partículas invisíveis poderiam trocar de estado durante uma colisão?
No modelo cosmológico convencional, a matéria escura praticamente não interage consigo mesma por forças diferentes da gravidade. A proposta alternativa permite colisões entre partículas, incluindo processos capazes de alterar seus estados internos.
Quando uma partícula passa para um estado excitado, parte da energia do movimento é convertida em energia interna. Isso pode modificar a dinâmica dos halos de matéria escura e sua distribuição após o encontro. Não significa, necessariamente, que a energia desapareça do sistema.
Qual estudo testou essa hipótese de matéria escura interativa?
O estudo publicado no The Astrophysical Journal, em setembro de 2026, foi conduzido pelo astrofísico Riccardo Valdarnini, anteriormente vinculado à Escola Internacional Superior de Estudos Avançados, conhecida como SISSA, na Itália.
O pesquisador utilizou simulações hidrodinâmicas e de N-corpos para acompanhar a evolução da colisão, comparando os resultados com observações astronômicas. A análise incluiu perfis de lentes gravitacionais fracas, técnica que permite investigar a distribuição de massa por meio de pequenas distorções na aparência de galáxias distantes.

Quais números mostram a diferença entre os modelos testados?
Os melhores ajustes utilizaram seções de choque elásticas próximas de quatro a cinco centímetros quadrados por grama. Para as transições inelásticas, os valores ficaram aproximadamente entre dois e quatro centímetros quadrados por grama, com velocidades de ativação entre 1.200 e 1.600 quilômetros por segundo.
Esses parâmetros descrevem a intensidade das interações no modelo, não o tamanho físico das partículas. Seu comportamento depende também da massa estimada dos aglomerados e da distância projetada entre os centros de matéria escura.
| Parâmetro investigado | Resultado do modelo |
|---|---|
| Interação elástica | 4–5 cm²/g |
| Interação inelástica | 2–4 cm²/g |
| Velocidade de ativação | 1.200–1.600 km/s |
| Principal restrição | Massa e separação dos aglomerados |
O que falta para descobrir se El Gordo realmente exige uma nova física?
A hipótese permanece dependente de incertezas observacionais importantes. Segundo o estudo, uma massa menor para o aglomerado principal, combinada com uma separação projetada maior entre os halos, poderia tornar o modelo incompatível com as medições.
Novos levantamentos de lentes gravitacionais poderão reduzir essas dúvidas e testar outros aglomerados em colisão. Por enquanto, El Gordo oferece evidências favoráveis a uma possibilidade física interessante, mas não demonstra que partículas de matéria escura realmente alternem entre estados energéticos.
Os comentários não representam a opinião do site; a responsabilidade pelo conteúdo postado é do autor da mensagem.
Comentários (0)