Uma torre romana reapareceu sob uma fortaleza medieval exatamente onde viajantes do século XVII diziam que ela deveria estar
Escavações na Romênia revelam fundações de uma entrada militar romana reutilizada na Idade Média e confirmam relatos históricos de quatro séculos atrás
Uma torre romana de quase dois mil anos foi identificada a aproximadamente quatro metros de profundidade em Alba Iulia, na Romênia. A descoberta revelou parte da entrada principal do antigo acampamento militar de Apulum, posteriormente incorporada a uma fortificação medieval cuja origem romana já aparecia em relatos de viajantes do século XVII.
Como uma torre romana permaneceu escondida sob uma fortaleza medieval?
A descoberta ocorreu no bastião Capistrano, dentro da Fortaleza Alba Carolina, durante escavações coordenadas pela arqueóloga Anca Timofan. Os pesquisadores identificaram uma plataforma maciça pertencente à fundação de uma das torres da Porta Praetoria, principal entrada do acampamento da Legião XIII Gemina.
Construída durante a ocupação romana da Dácia, a estrutura permaneceu parcialmente preservada sob edificações posteriores. Na Idade Média, suas fundações foram aproveitadas na construção da Porta de São Jorge, demonstrando como diferentes sociedades utilizaram o mesmo ponto estratégico ao longo dos séculos.
O que os arqueólogos encontraram quatro metros abaixo da superfície?
A fundação descoberta revelou informações sobre as dimensões da entrada romana. A construção utilizava grandes blocos de calcário cuidadosamente trabalhados, organizados pela técnica opus quadratum, comum em obras monumentais romanas e caracterizada pelo emprego de pedras aparelhadas em fiadas regulares.
Com os novos vestígios e informações sobre outra entrada anteriormente identificada, os especialistas puderam reconstruir parcialmente a configuração da Porta Praetoria. A estrutura provavelmente apresentava duas torres retangulares, duas passagens em arco e um elemento central separando os acessos.
A escavação reuniu evidências de diferentes momentos históricos:
Fundação monumental localizada aproximadamente quatro metros abaixo do terreno atual;
Blocos de calcário empregados na construção romana;
Estruturas medievais sobrepostas às fundações antigas;
Vestígios de transformações realizadas durante o domínio habsburgo;
Elementos arquitetônicos importantes para reconstruir a entrada oriental.
Em uma reportagem gravada no próprio sítio arqueológico, Anca Timofan explica as descobertas e apresenta as diferentes fortificações encontradas em Alba Iulia.
Por que a torre romana foi reaproveitada pelos construtores medievais?
Fortificações antigas frequentemente ofereciam materiais resistentes e fundações aproveitáveis para novas construções. Em Apulum, a entrada oriental ocupava uma posição estratégica, conectando o exterior do acampamento à Via Praetoria, caminho que conduzia ao edifício do comando militar, conhecido como principia.
Séculos depois, a Porta de São Jorge foi construída aproveitando parte dessas estruturas. A descoberta confirma uma continuidade arquitetônica naquele local, mas não significa que todas as muralhas medievais tenham acompanhado exatamente o traçado romano original.
Como documentos do século XVII ajudaram a confirmar a descoberta?
O comunicado oficial do Museu Nacional da União de Alba Iulia apresentou os primeiros resultados das escavações em outubro de 2025. Os trabalhos continuaram em 2026, aprofundando a investigação das fundações romanas e sua relação com construções posteriores.
O cronista Wolfgang Bethlen descreveu uma entrada oriental protegida por uma barbacã, associada a uma representação da loba amamentando Rômulo e Remo. Considerada uma possível relíquia romana, essa decoração já sugeria a presença de estruturas anteriores à fortaleza medieval.
Reconstrução da Porta Praetoria mostra como poderia ter sido a entrada principal do acampamento da Legião XIII Gemina em Apulum
O que a torre romana revela sobre as sucessivas fortificações de Alba Iulia?
O local preserva vestígios de construções pertencentes a diferentes períodos, incluindo o domínio romano, a ocupação medieval, o Principado da Transilvânia e a administração habsburga. Essas camadas ajudam a compreender como Alba Iulia modificou suas defesas sem abandonar completamente sua organização territorial anterior.
Outro resultado importante envolve a posição das muralhas. Pesquisadores identificaram que o limite oriental do acampamento romano ficava aproximadamente vinte metros além da muralha medieval, indicando que a sobreposição das entradas não corresponde a uma coincidência integral entre os sistemas defensivos.
Período histórico
Estrutura identificada
Séculos II–III
Porta Praetoria romana
Período medieval
Porta de São Jorge
Séculos XVI–XVII
Defesas da Transilvânia
Século XVIII
Fortaleza Alba Carolina
Quais questões permanecem abertas depois da descoberta em Apulum?
A identificação das fundações permite compreender melhor a planta do acampamento da Legião XIII Gemina, mas ainda existem dúvidas sobre a altura original das torres, os detalhes das passagens e as modificações realizadas durante a reutilização medieval.
Os pesquisadores pretendem aprofundar a documentação arquitetônica e desenvolver reconstruções que facilitem a interpretação pública do monumento. A conservação também representa um desafio, pois diferentes estruturas históricas ocupam o mesmo espaço, exigindo intervenções cuidadosas para preservar vestígios de quase dois milênios.
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