Antibolsonarismo de chegada e o futuro da direita
Traços negativos associados à família Bolsonaro impedem que ela volte ao poder; seu peso eleitoral bloqueia alternativas à direita
O cientista político Maurício Moura, do instituto de pesquisas Idea, formulou o conceito de antipetismo de chegada: um voto anti-PT que não se manifesta nas sondagens eleitorais e só se revela nas urnas.
As eleições de domingo parecem ter trazido à luz o fenômeno oposto: um antibolsonarismo de chegada, que se manifestou de modo ainda mais peculiar.
Na virada de Lula, que saltou de 53,8 para 64,2 milhões de votos entre o primeiro e o segundo turnos, somaram-se indecisos (que eram cerca de 2% segundo as pesquisas de fim de campanha); nulos e brancos do primeiro turno que decidiram fazer uma escolha no segundo (a taxa de nulos e brancos caiu de 4,77% para 2,24%); acima de tudo, gente que não havia comparecido às urnas em 5 de outubro, mas votou no domingo, 25 (a abstenção caiu de 21,0% para 19,2% entre os dois momentos).
Flávio Bolsonaro também se beneficiou dessas movimentações, mas em muito menor medida. Ele cresceu de 56,1 para 59,8 milhões de votos.
Campanha do medo
Uma das razões por que Lula conseguiu tirar mais gente de casa, converter eleitores que não haviam feito uma escolha anteriormente e conquistar indecisos está na campanha negativa que conduziu contra o adversário.
O PT tem uma longa história de mobilizar o medo dos eleitores – especialmente, o medo de que o Estado deixe de contemplar suas necessidades. Fez isso com sucesso, mais uma vez.
É fato que a sociedade brasileira está mudando. O próprio Lula reconheceu isso. Há um desejo maior de autonomia, de empreender, de andar com as próprias pernas. Inclusive na classe C, cuja ascensão marcou os dois primeiros mandatos do petista.
Mas tudo indica que esse desejo ainda convive com a preocupação de que os benefícios garantidos pelo Estado continuem disponíveis.
Não à toa, Flávio Bolsonaro gastou muita energia no segundo turno insistindo que não faria certas coisas: não acabaria com o Bolsa Família, nem interromperia pagamentos de maneira abrupta; não deixaria de dar aumentos reais ao salário mínimo, nem desvincularia pensões e aposentadorias desse indexador; não reduziria os gastos obrigatórios com saúde e educação – e assim por diante.
Preocupações plausíveis
Sabe-se agora que os desmentidos não surtiram o efeito desejado. E, se isso aconteceu, é porque há muito no passado de Jair Bolsonaro e seus filhos que tornava plausível a desconfiança. Por exemplo, o voto contrário de Flávio à ampliação da licença-maternidade e sua declaração de que o Bolsa Família entrega “farelos”, ambos explorados por Lula em debates.
Há um imenso número de brasileiros vivendo sob estresse econômico. Eles sabem que o governo Lula não melhorou seu cotidiano, muito pelo contrário. Não apenas a picanha ficou na promessa, como outros alimento encareceram. Ainda assim, acharam preferível dar um quarto mandato ao presidente do que conceder uma nova chance ao bolsonarismo.
É provável que o medo de um novo período de tensão política permanente, como aquele que desaguou no 8 de Janeiro, também tenha desempenhado um papel importante na mobilização de última hora que deu a vitória a Lula. Bolsonaro pai governou provocando atrito, sem trégua. A memória disso permanece no Brasil e deve ter mudado votos ou levado gente às urnas.
O bolsonarismo sabia da necessidade de neutralizar certos traços associados ao movimento. Flávio Bolsonaro trabalhou com afinco para isso: apresentou-se como o filho moderado que sabe dialogar, aquele que tomou vacina, que respeita e valoriza as mulheres, que não desdenha dos pobres e dos nordestinos (“O Nordeste é solução”).
O dilema da direita
A hipótese do antibolsonarismo de chegada sugere que as ideias e sentimentos associados ao governo de Jair Bolsonaro se calcificaram. Os 45 dias de uma campanha eleitoral não são suficientes para dissolvê-los.
Isto impõe um dilema à direita. O nome Bolsonaro ainda aglutina uma parcela impressionante do eleitorado – 15%, ou mais. Isso é suficiente para bloquear qualquer alternativa que queira se impor nesse campo político. Ao mesmo tempo, depois das derrotas consecutivas de 2022 e 2026, o bolsonarismo parece despertar uma rejeição atávica na maioria do eleitorado, a ponto de reduzir a abstenção e o número de nulos e brancos na votação.
Como convencer o clã Bolsonaro a colaborar com um projeto de direita que não seja liderado por eles? Esse é o enigma.
Por enquanto, a família não parece disposta a abrir espaço.
Nesta segunda, 26, Flávio Bolsonaro publicou um vídeo depois de visitar o pai. Apresentou-se como “último obstáculo” à consolidação da hegemonia petista e disse que cabe a ele organizar e comandar a oposição.
Deve haver gente à sua volta nutrindo o desejo inconfessável de vê-lo fora do jogo, quem sabe pelas mãos de Alexandre de Moraes.
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