Um primata venenoso sumiu dos registros por quase um século e reapareceu onde minas e plantações já haviam tomado parte da floresta
Mais de 90 resgates na Indonésia confirmam a sobrevivência de um primata considerado possivelmente extinto e expõem a destruição de seu habitat
Um pequeno primata venenoso considerado possivelmente extinto voltou oficialmente aos registros científicos após quase 90 anos. O lóris-lento-de-Bangka, encontrado na Indonésia, teve sua sobrevivência confirmada por mais de 90 resgates realizados entre 2015 e 2025, apesar da destruição de extensas áreas florestais por mineração e agricultura.
Por que o lóris-lento-de-Bangka desapareceu dos registros científicos?
Descrito originalmente em 1906, o Nycticebus bancanus vive na ilha indonésia de Bangka, próxima a Sumatra. Os últimos registros históricos considerados confiáveis remontavam à década de 1930. Posteriormente, a ausência de levantamentos sistemáticos deixou dúvidas sobre a continuidade de suas populações.
Em 2020, a União Internacional para a Conservação da Natureza classificou o animal como criticamente ameaçado, acrescentando a indicação de possível extinção. Entretanto, moradores da ilha continuavam encontrando indivíduos em jardins, estradas e áreas próximas às residências, demonstrando uma diferença entre o conhecimento local e a documentação científica.
O que os resgates revelaram sobre a sobrevivência desse primata?
O Alobi Wildlife Rescue Center, organização indonésia dedicada à proteção da fauna, registrou mais de 90 indivíduos entre 2015 e agosto de 2025. Os animais apareceram em diferentes regiões da ilha, indicando que a espécie permanece distribuída por uma área mais ampla do que se poderia imaginar.
Após tratamentos veterinários e reabilitação, 86 indivíduos foram devolvidos a sete localidades com vegetação adequada. Outros chegaram gravemente feridos, principalmente após acidentes envolvendo instalações elétricas. Os registros demonstram sobrevivência, mas não permitem estimar quantos animais continuam livres na natureza.
Os principais resultados documentados incluem:
- Mais de 90 indivíduos resgatados durante uma década;
- Registro da espécie em diferentes regiões de Bangka;
- Reintrodução de 86 animais em sete localidades;
- Ferimentos associados a fios e instalações elétricas;
- Presença frequente em áreas modificadas pela atividade humana.

Como o lóris-lento-de-Bangka produz veneno e sobrevive nas árvores?
O animal apresenta grandes olhos adaptados à atividade noturna, pelagem castanho-avermelhada e movimentos lentos. Seus dedos permitem segurar galhos firmemente enquanto procura alimento. Sua dieta provavelmente inclui insetos, néctar, exsudatos vegetais e outras substâncias encontradas nas árvores.
Uma característica extraordinária é a produção de veneno. O lóris possui glândulas próximas aos cotovelos, cujas secreções podem ser misturadas à saliva antes da mordida. Essa combinação pode provocar reações alérgicas graves em humanos. A substância provavelmente participa de disputas entre indivíduos e mecanismos defensivos.
Como os pesquisadores confirmaram que o primata continuava existindo?
O estudo publicado na revista Spixiana, em outubro de 2026, foi desenvolvido por Langka Sani, Endi Riadi, Andre Septian, Jochen Menner e Timon Glaw. A pesquisa reuniu registros do centro Alobi e especialistas de instituições de conservação da Indonésia e da Áustria.
Em vez de organizar uma expedição que encontrasse inesperadamente o animal, a equipe examinou dados acumulados durante anos de resgates. A identificação considerou características externas e localidades de ocorrência. Assim, informações conhecidas pelos moradores finalmente passaram a integrar a literatura científica.
Quais ameaças ainda colocam o lóris-lento-de-Bangka em risco?
A ilha enfrenta transformações provocadas pela extração de estanho e pela expansão das plantações de dendezeiros, utilizados na produção de óleo de palma. A substituição da floresta fragmenta o habitat e aproxima os primatas de estradas, construções e redes elétricas.
A captura para o comércio de animais também representa uma ameaça. Como esses primatas dependem das árvores para deslocamento e alimentação, a redução da cobertura vegetal pode dificultar a conexão entre populações, mesmo quando permanecem fragmentos florestais aparentemente adequados.
| Ameaça identificada | Consequência potencial |
|---|---|
| Mineração de estanho | Destruição de áreas florestais |
| Plantações de dendê | Fragmentação do habitat |
| Redes elétricas | Queimaduras e ferimentos |
| Comércio ilegal | Captura e retirada da natureza |
O que precisa acontecer para impedir a extinção desse primata?
Os pesquisadores defendem levantamentos populacionais sistemáticos, estudos genéticos e acompanhamento dos animais reintroduzidos. Essas medidas permitirão avaliar a diversidade genética, identificar populações isoladas e verificar se os locais escolhidos para soltura oferecem condições duradouras de sobrevivência.
A principal prioridade continua sendo proteger os fragmentos florestais remanescentes. Embora a redescoberta represente uma notícia importante, os registros de resgate não demonstram recuperação populacional. Sem proteção territorial e monitoramento contínuo, a espécie poderá desaparecer definitivamente, mesmo depois de retornar à atenção científica.
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