Fragmentos de ossos sem forma reconhecível guardavam DNA de um animal da Era do Gelo que a ciência ainda não conhecia
Genomas recuperados na Sibéria revelam uma espécie extinta aparentada aos iaques que permaneceu oculta entre fragmentos ósseos pré-históricos
Pequenos ossos encontrados na caverna de Denisova, na Sibéria, revelaram uma espécie extinta de bovino que permaneceu desconhecida por milhares de anos. Apelidado de Yak X, o animal viveu durante a Era do Gelo e pertencia a uma linhagem que começou a se separar dos iaques modernos há pelo menos 400 mil anos.
Por que o Yak X permaneceu desconhecido durante tanto tempo?
A caverna de Denisova, localizada nas montanhas de Altai, tornou-se mundialmente conhecida pela descoberta de vestígios de humanos arcaicos. Entretanto, suas camadas arqueológicas também preservaram milhares de fragmentos pertencentes a animais que habitavam a região durante diferentes períodos glaciais.
Muitos desses ossos estavam quebrados demais para permitir uma identificação anatômica. Mesmo quando pesquisadores reconheciam características de bovinos, não conseguiam determinar precisamente a espécie. O problema começou a ser resolvido quando análises moleculares revelaram sequências genéticas incompatíveis com as linhagens conhecidas de iaques.
O que os cientistas descobriram no DNA do Yak X?
Os pesquisadores recuperaram 20 genomas nucleares antigos de ossos encontrados na caverna de Denisova e em outros sítios arqueológicos asiáticos. As comparações indicaram que os animais pertenciam a uma linhagem distinta, cuja separação evolutiva dos iaques atuais começou aproximadamente entre 400 mil e 250 mil anos atrás.
Os espécimes também revelaram que essa população atravessou diferentes transformações climáticas do Pleistoceno. A linhagem persistiu por mais de 200 mil anos na região, embora tenha apresentado redução populacional e mudanças em sua diversidade genética ao longo desse intervalo.
Entre os principais resultados estão:
- Identificação de 20 genomas nucleares antigos;
- Divergência evolutiva iniciada há pelo menos 400 mil anos;
- Presença prolongada nas montanhas de Altai;
- Redução da diversidade genética durante o Pleistoceno;
- Ausência de evidências relevantes de cruzamentos com outros bovinos.

Como o DNA antigo revelou uma espécie invisível para a anatomia?
O DNA mitocondrial, transmitido principalmente pela linhagem materna, havia indicado anteriormente a existência de um grupo desconhecido. Entretanto, somente essa informação não permitia esclarecer se os animais representavam uma espécie independente ou uma população geneticamente diferenciada de iaques.
A análise do genoma nuclear forneceu evidências mais abrangentes. Comparando milhares de regiões genéticas, os pesquisadores reconstruíram relações evolutivas e investigaram possíveis cruzamentos. A ausência de mistura genética significativa com outros bovinos conhecidos reforçou a interpretação de que o Yak X representava uma espécie distinta.
Como os pesquisadores reconstruíram a história genética do Yak X?
O estudo publicado na revista Current Biology, em outubro de 2026, foi conduzido por Jonas Oppenheimer, Alexandre Gilardet e colaboradores, incluindo Love Dalén, da Universidade de Estocolmo. A pesquisa reuniu especialistas em paleogenômica, arqueologia e evolução de mamíferos.
A equipe extraiu DNA de fragmentos ósseos, sequenciou material nuclear e comparou os resultados com genomas de iaques, bisões e auroques. Modelos evolutivos também permitiram investigar mudanças populacionais próximas ao último período interglacial, entre aproximadamente 130 mil e 115 mil anos atrás.
Quais características diferenciavam o Yak X dos bovinos conhecidos?
Embora sua identidade genética tenha sido estabelecida, a aparência exata do animal continua desconhecida. Os pesquisadores consideram provável que apresentasse características semelhantes às dos iaques atuais, adaptados a ambientes frios. Entretanto, os fragmentos disponíveis não permitem reconstruir com segurança seu tamanho, pelagem ou formato dos chifres.
O Yak X compartilhou regiões da Ásia com bisões-das-estepes e auroques, mas as análises indicaram mistura genética desprezível entre essas linhagens. Isso diferencia sua história de alguns grupos humanos arcaicos encontrados na mesma região, cujos genomas preservaram evidências de cruzamentos.
| Evidência | Descoberta genética |
|---|---|
| Genomas analisados | 20 indivíduos antigos |
| Divergência | 400 mil a 250 mil anos |
| Distribuição | Ásia de latitudes médias |
| Cruzamentos | Mistura genética praticamente ausente |
O que o Yak X revela sobre as extinções da Era do Gelo?
A descoberta mostra que parte da diversidade dos grandes mamíferos desapareceu sem deixar fósseis anatomicamente reconhecíveis. O Yak X pode representar uma extinção anteriormente ignorada nos estudos sobre megafauna, ampliando a compreensão das transformações ecológicas ocorridas na Ásia durante o Pleistoceno.
Ainda não se sabe exatamente quando ou por que a espécie desapareceu. Os dados sugerem declínio populacional e possíveis substituições de populações, mas não demonstram suas causas. Novos genomas e fósseis mais completos poderão esclarecer sua aparência, distribuição e eventual relação com os antigos habitantes humanos da região.
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