Acima de 1.200 metros, a cidade da serra da Chapada Diamantina onde nasce o rio que atravessa a Bahia até o mar de Itacaré
A paisagem das alturas guarda uma ligação pouco conhecida com o litoral
Todo grande rio começa pequeno, num fio de água que mal cobre a pedra. No caso do Rio das Contas, esse começo fica nas serras de Piatã, na Bahia, um município de clima ameno na Chapada Diamantina que divide com a vizinha Abaíra as cabeceiras protegidas de um rio que molha boa parte do estado.
Onde nasce o Rio das Contas?
As nascentes ficam nas serras da Tromba e do Atalho, em terrenos acima de 1.600 metros de altitude, na divisa entre Piatã e Abaíra. Segundo o Instituto do Meio Ambiente e Recursos Hídricos (Inema), o governo baiano criou em 5 de junho de 2001 a Área de Relevante Interesse Ecológico Nascentes do Rio de Contas, com 4.771 hectares nos dois municípios.
A paisagem dessas cabeceiras é dominada pelo campo rupestre, vegetação baixa que cresce sobre afloramentos de rocha, misturado a trechos de cerrado, mata e caatinga. Ali aparecem espécies raras de sempre-vivas e orquídeas. O próprio órgão estadual reconhece pressões como desmatamento e queimadas, e a categoria permite uso sustentável, o que não significa acesso livre a qualquer trilha.
O tamanho da área de drenagem que começa nessas serras ajuda a medir o peso dessas nascentes para a Bahia:
Até onde chegam as águas que nascem na serra?
Elas percorrem o interior baiano até o litoral sul e deságuam no Atlântico em Itacaré. De acordo com o plano de bacia do Inema, a bacia do Rio das Contas ocupa 55.334 km² e reúne 81 municípios, o equivalente a cerca de um décimo do território estadual.
Para dar escala, essa área supera a de todo o estado do Rio de Janeiro. Nem todas essas cidades ficam na beira do rio: elas estão dentro da bacia, a região cujas chuvas e córregos acabam escoando para o mesmo canal principal. É essa rede que transforma algumas nascentes no alto da Chapada em água que chega a lavouras, vilas e praias a centenas de km dali.
A altitude que moldou a história e o clima da cidade
A sede do município fica a cerca de 1.268 metros, segundo os dados municipais da Prefeitura de Piatã, uma altura rara para uma cidade nordestina. O mesmo relato liga a ocupação colonial à busca por ouro e metais ao longo dos caminhos do Rio das Contas, entre os séculos XVII e XVIII, quando as serras de Santana e da Tromba passaram a orientar quem chegava.
O entorno reforça esse cenário de montanha. A Área de Proteção Ambiental Serra do Barbado, criada em 1993 e espalhada por vários municípios da região, abriga o Pico do Barbado, com 2.033 metros, conforme o Inema. O ar mais fresco da altitude também ajudou a fazer do café de altitude uma marca da economia local.

O que ver nas serras de Piatã?
Os melhores cenários estão no relevo: serras de campo aberto, mirantes naturais e a vista ampla da Chapada a partir do entorno da sede. A cidade funciona como base para quem quer entender a paisagem onde o Rio das Contas começa.
Boa parte dessas áreas fica em terrenos protegidos ou particulares, então o acesso depende de orientação local. A tradição religiosa também ocupa o alto das serras, e um dos passeios mais conhecidos da cidade combina fé e mirante.
Serras, mirantes e capelas no alto da Chapada
Entre a sede e as cabeceiras do rio, alguns lugares mostram melhor a identidade de serra do município:
- Serra de Santana: a subida até a Capela do Senhor do Bonfim é tradição da Semana Santa e oferece uma das vistas mais abertas da região.
- Serra da Tromba: área de campos rupestres onde estão parte das nascentes do Rio das Contas, com paisagem de pedra, capim e flores pequenas.
- Serra do Atalho: outro trecho das cabeceiras protegidas, indicado para contemplação com guia ou orientação de quem conhece a área.
- Igreja Matriz do Bom Jesus: referência histórica no centro da sede e ponto de partida natural para conhecer a cidade a pé.
- Serra do Barbado: conjunto de montanhas que se estende por vários municípios da região e forma o horizonte mais alto para quem circula por essa parte da Chapada.
As nascentes ajudam a explicar a importância da serra. Para conhecer também as paisagens e a produção de café da região, veja este vídeo do canal Rolê Família:
Como é o clima de Piatã ao longo do ano?
A altitude mantém as temperaturas amenas em Piatã durante todo o ano, com máximas médias entre 22°C e 26°C e mínimas que descem a 13°C no meio do ano. O contraste está na chuva: novembro e dezembro concentram os maiores volumes, enquanto junho, julho e agosto somam pouco mais de 30 mm.
Piatã em cada estação
Cada período do ano traz temperaturas e volumes de chuva bem diferentes:
Faixas baseadas nas médias climatológicas de 30 anos do Climatempo, calculadas a partir das mínimas e máximas médias de cada mês. As condições podem variar entre os anos por fenômenos como El Niño e La Niña; para a previsão atual, consulte a página de previsão da mesma fonte.
Onde a água da Bahia começa a correr
Piatã costuma ser lembrada pelo frio e pelo café, mas guarda um papel menos visível e mais amplo. Das serras acima de 1.600 metros sai a água que, depois de cruzar o interior, chega ao mar do litoral sul.
Vale subir até a Chapada e conhecer Piatã com outro olhar, sabendo que cada córrego daquelas serras faz parte de um caminho que só termina no Atlântico.
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