As marés não obedecem apenas à Lua e o aquecimento do planeta está mudando a forma como oceanos amplificam ou abafam esse movimento
Simulações científicas revelam como a profundidade, o aumento do nível do mar e o aquecimento dos oceanos podem intensificar ou enfraquecer as marés até 2100
As marés oceânicas podem se intensificar ou enfraquecer conforme o planeta aquece, mesmo sem mudanças significativas na atração gravitacional da Lua e do Sol. Uma pesquisa publicada em 2026 mostra que o aumento do nível do mar, as alterações na temperatura dos oceanos e o derretimento de plataformas de gelo modificam esse movimento.
Por que as marés oceânicas variam tanto entre diferentes regiões?
A Lua exerce a principal influência gravitacional sobre as marés terrestres, enquanto o Sol também participa do fenômeno. Entretanto, essa combinação astronômica não determina sozinha a altura atingida pela água. A configuração dos continentes, a profundidade oceânica e o formato das baías interferem diretamente na propagação das ondas de maré.
Por isso, duas regiões submetidas praticamente às mesmas forças astronômicas podem apresentar diferenças enormes entre marés altas e baixas. Em determinadas baías, a água encontra condições favoráveis à amplificação, enquanto outras áreas dissipam parte da energia pelo atrito com o fundo oceânico. A geometria local funciona como um mecanismo natural de intensificação ou amortecimento.
Como o aquecimento global está modificando as marés oceânicas?
Pesquisadores identificaram três processos climáticos capazes de alterar as marés durante o século XXI. O primeiro envolve a elevação do nível do mar, que modifica a profundidade disponível para propagação das ondas. O segundo corresponde ao aumento da estratificação oceânica, quando diferenças de temperatura e densidade se tornam mais pronunciadas.
O terceiro processo envolve o afinamento das plataformas de gelo antárticas, que modifica as cavidades oceânicas abaixo dessas estruturas. As simulações mostram que esses fatores podem reforçar ou enfraquecer as marés, dependendo da região. Em determinadas plataformas continentais, as mudanças previstas chegam a vários centímetros até 2100, sem representar um comportamento uniforme do oceano.
- A gravidade lunar continua sendo a principal força geradora das marés;
- O Sol também influencia a periodicidade e a intensidade das oscilações;
- A elevação do nível do mar altera a propagação em áreas rasas;
- O aquecimento modifica a distribuição vertical da densidade oceânica;
- O derretimento antártico pode afetar marés em regiões distantes.
Uma animação científica produzida pela NASA mostra como as marés circulam pelos oceanos e são modificadas pelos continentes, profundidades e características das bacias marítimas.
Como a profundidade e a geometria costeira amplificam as marés?
Quando uma onda de maré entra em uma baía estreita, a redução gradual da largura pode concentrar sua energia e aumentar a amplitude. Esse comportamento depende também da profundidade e da velocidade de propagação. Em outros ambientes, o atrito com o fundo oceânico dissipa energia, produzindo oscilações menores.
Outro mecanismo importante é a ressonância, que ocorre quando o período natural de oscilação de uma bacia se aproxima do período da força geradora. Pequenas mudanças na profundidade podem modificar esse equilíbrio. O aumento do nível do mar não significa necessariamente marés mais altas em todos os locais, porque diferentes mecanismos podem atuar em sentidos opostos.
Como os cientistas investigaram as mudanças futuras nas marés?
A pesquisa foi conduzida por Lana Opel, Michael Schindelegger e colaboradores de instituições internacionais, incluindo a Universidade de Bonn, na Alemanha. Publicado no Journal of Geophysical Research: Oceans, o estudo científico original utilizou modelos numéricos para investigar três fatores climáticos e suas consequências sobre as oscilações oceânicas.
Os pesquisadores combinaram simulações tridimensionais e modelos de águas rasas, considerando cenários climáticos intermediários e de emissões elevadas. As projeções abrangeram diferentes períodos entre 2050 e 2100, permitindo comparar alterações na amplitude e no comportamento das principais componentes das marés, incluindo oscilações aproximadamente diárias e semidiárias.

Quais regiões podem apresentar mudanças maiores nas marés?
Os resultados indicaram que o aumento da estratificação tende a enfraquecer determinadas marés superficiais em grandes áreas oceânicas. Em contrapartida, a elevação do nível do mar pode aumentar localmente a amplitude em regiões costeiras rasas, incluindo áreas próximas ao estreito de Taiwan, ao delta do Ganges e à plataforma continental da Flórida.
Sob um cenário de emissões elevadas, as simulações apontaram alterações de aproximadamente 5 a 10 centímetros em determinadas regiões até 2100, associadas à elevação do nível do mar. Mudanças nas cavidades sob plataformas antárticas também produziram respostas distantes, demonstrando que o comportamento das marés depende de conexões entre diferentes bacias oceânicas.
| Fator | Efeito sobre as marés |
|---|---|
| Geometria costeira | Pode amplificar ou amortecer ondas |
| Profundidade | Modifica velocidade e atrito |
| Elevação do nível do mar | Pode aumentar amplitudes costeiras |
| Estratificação oceânica | Tende a enfraquecer marés superficiais |
| Plataformas antárticas | Podem alterar oscilações a longa distância |
Por que compreender as marés futuras é importante para as cidades costeiras?
As alterações identificadas possuem implicações para portos, navegação, ecossistemas costeiros e planejamento urbano. Mesmo mudanças de poucos centímetros na amplitude das marés podem contribuir para níveis de água mais elevados quando coincidem com tempestades e marés meteorológicas, especialmente em regiões que já enfrentam inundações frequentes.
Entretanto, os resultados representam projeções condicionadas aos cenários climáticos e às simplificações dos modelos. A elevação média do oceano continua sendo um fenômeno diferente da mudança na amplitude das marés, embora ambos possam afetar simultaneamente uma mesma costa. Incorporar essa interação às avaliações de risco pode melhorar as previsões de inundação, principalmente em estuários, deltas e baías vulneráveis.
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