Governo Espriella retira 30 peças do Museu Nacional da Colômbia
Itens sobre feminismo, população LGBTQ+ e acordo de paz com as Farc saíram da mostra permanente; especialistas falam em censura
Pelo menos 30 objetos deixaram a exposição permanente do Museu Nacional da Colômbia, em Bogotá, por ordem do governo do presidente Abelardo de la Espriella.
Entre eles há peças ligadas aos movimentos feminista e LGBTQIA+, à violência política, à Constituição de 1991 e ao Acordo de Paz de 2016. A decisão levou manifestantes à porta do museu e abriu um debate na imprensa e nas redes sociais.
A retirada se insere na “guerra cultural” que o próprio presidente anunciou em 17 de julho de 2026. Nesse dia, Espriella divulgou o nome de Paola Holguín para o Ministério da Cultura.
Tanto o presidente quanto a ministra têm defendido em discursos a moral católica e a família tradicional como bases do país. Os objetos sobre direitos das mulheres e minorias sexuais se encaixam nesse debate.
Outros itens retirados remetem à história política recente. Estão entre eles cartazes das campanhas presidenciais de dois candidatos assassinados em 1990 e o balígrafo, caneta feita com projéteis de fuzil, usada na assinatura do acordo de 2016.
O historiador Pablo Stefanoni vê na iniciativa um movimento mais amplo da direita radical: “As novas direitas radicais propõem explicitamente uma contrarrevolução cultural antiwoke. O termo é usado para gerar pânico moral: o wokismo seria o responsável pela crise do Ocidente, e a direita seria a muralha da salvação”.
Ele compara o episódio ao “conceito de bolchevismo cultural da Alemanha nazista”, que rejeitava a chamada “arte degenerada”. Para Stefanoni, “é a direita que busca doutrinar em nome da luta contra a doutrinação”.
O argumento da ministra
Holguín defendeu a retirada. Segundo ela, a vocação institucional do museu “NÃO consiste em servir como instrumento de doutrinação política, foco de difusão de versões tendenciosas da nossa história, nem muito menos como meio de amplificação da agenda governamental”.
A ministra acrescentou que o Museu Nacional “NÃO pode ser um espaço de apologia ao crime ou de revitimização; deve observar os direitos das vítimas à verdade, à justiça, à reparação e à não repetição”.
Críticas de estudiosos
A museóloga Cristina Lleras, curadora de Arte e História do museu entre 2004 e 2012, lembra que uma mostra permanente reúne anos de pesquisa: “Jamais é o resultado de algo que simplesmente ocorreu a uma pessoa num determinado dia”, diz.
Lleras admite que narrativas museológicas mudem, desde que por critério técnico. “É normal que determinados temas sejam revistos, mas sempre a partir de uma perspectiva técnica”, afirma. Para ela, a retirada por ordem presidencial “é um ato autoritário, porque não existe nenhum tipo de diálogo”.
Sebastián Vargas, da Universidade del Rosario, especialista em usos públicos da história e políticas da memória, também considera saudável a atualização de exposições. Segundo ele, uma revisão legítima exige a participação de profissionais de museus, curadores, comunidades e autoridades institucionais, o que não ocorreu.
Vargas descreve a ação dos funcionários do ministério como uma remoção “arbitrária e a portas fechadas”. Em sua avaliação, a medida pode ser considerada inconstitucional, por afetar a liberdade de expressão e o acesso à informação, previstos no artigo 20 da Constituição. “[A intervenção] aproxima-se perigosamente da censura”, declara.
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