Clarita Maia na Crusoé: Felca e Os Demônios
Sob a convicção de agir em nome do bem, indivíduos podem ser arrastados por uma dinâmica coletiva que transforma causas legítimas em pretextos para a perseguição e a crueldade
No ano em que completaria 28 anos, Fiódor Dostoiévski foi preso por integrar o Círculo de Petrashévski, grupo de intelectuais que discutia socialismo, liberdade de imprensa e o fim da servidão. Vivia-se ainda em uma Rússia czarista, convulsionada pela ação de células terroristas e grupos de insurreição social. Após um simulacro de fuzilamento, Dostoiévski teve a pena comutada em quatro trabalhos forçados na Sibéria e anos de serviço militar obrigatório.
A experiência inspirou alguns de seus mais notáveis livros, mas, sobretudo, mudou o autor: o antigo simpatizante socialista tornou-se crítico do radicalismo revolucionário, do materialismo e das ideologias impostas pela violência. Essa ironia histórica encontra sua expressão mais contundente em Os Demônios (1872).
Aos 28 anos, o influenciador Felca viu-se submetido a uma espécie de tribunal moral das redes sociais, não pelo que efetivamente disse ou fez, tampouco por uma suposta recusa em se pronunciar sobre o que quer que seja, mas por ter escolhido abordar precisamente um tema consabidamente sob seu escopo de interesse no Dia de Combate ao Bullying.
Sua escolha por um recorte temático específico foi interpretada como omissão política e, por conseguinte, elevada à condição de falta moral imperdoável.
Os ataques que se seguiram revelaram perturbadora indiferença ao risco, concreto e potencialmente trágico, de que alguém marcado por experiências traumáticas, ao ser novamente submetido…
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