Escritório de Flávio faturou R$ 13,7 milhões desde 2023
Notas fiscais somam esse valor até julho de 2026; maior cliente identificado pagou R$ 4 milhões em 2025
O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), pré-candidato à Presidência, tem uma sociedade de advocacia que emitiu notas fiscais de pelo menos R$ 13,7 milhões entre janeiro de 2023 e julho de 2026.
O levantamento partiu do UOL, que examinou 62 documentos, e foi confirmado pelo GLOBO. Em geral, os textos das notas citam “assessoria jurídica” e não indicam processos nem detalham o trabalho feito.
Dois pagamentos de R$ 2 milhões, de agosto e outubro de 2025, equivalem a 29% do total documentado. Os valores vieram do Nilo & Almeida Advogados Associados, o maior cliente entre os identificados. Ambas as notas indicam uma conta do escritório de Flávio no BRB.
Contrato de abril de 2025
O sócio da banca, Edvaldo Nilo de Almeida, foi nomeado em 2022 pelo então presidente Jair Bolsonaro (PL) para a Comissão de Ética Pública da Presidência. Ao UOL, ele disse que os valores se referem a um contrato firmado em abril de 2025 e negou irregularidade.
Em nota ao GLOBO, o escritório de Flávio afirmou que os pagamentos “decorreram de contrato de prestação de serviços advocatícios celebrado em abril de 2025”.
A nota prossegue: “Os serviços foram regularmente prestados conjuntamente pelos dois escritórios a clientes privados, sem qualquer envolvimento de recursos públicos ou participação de entes federativos. Após a efetiva prestação dos serviços, as respectivas notas fiscais foram emitidas e os valores correspondentes foram pagos em 06/08/25 e em 21/10/25, data em que se encerrou a relação contratual”.
Segundo o UOL, os pagamentos foram direcionados a contas no Santander e no BRB. A PF associa a conta do Santander citada em uma das notas a Flávio e ao advogado Willer Tomaz. Os dois negam ter dividido conta bancária.
Outra nota, de R$ 500 mil, é de abril de 2025 e refere-se a “assessoria jurídica” prestada a uma empresa ligada a uma consultoria. Essa consultoria recebeu R$ 58 milhões do Banco Master entre 2024 e 2025. O documento indica que a banca emitiu ao menos 41 notas. Flávio alega sigilo profissional e não divulga a lista de clientes.
Processos e limites da advocacia parlamentar
O GLOBO identificou ao menos 18 processos no país em que o escritório consta como parte. Casos sob sigilo não entram na conta. O senador assinou petições nas áreas criminal, civil e empresarial.
O Estatuto da OAB permite que parlamentares advoguem, desde que não atuem em ações que envolvam a União ou órgãos públicos. A norma também proíbe o trabalho para concessionárias de serviço público.
Em um dos casos, no STJ, Flávio atua ao lado da banca de Willer Tomaz. Os dois são investigados em inquérito sobre suspeita de lavagem de dinheiro por meio de plataformas de apostas. A disputa judicial envolve uma fábrica de balas e pirulitos do Rio Grande do Norte. Eles representam um sócio que tenta evitar a execução de R$ 159 milhões, em processo que dura mais de 20 anos.
Em 2025, também no STJ, Flávio pediu habeas corpus para trancar ação penal contra dois ex-sócios de Glaidson Acácio dos Santos, o Faraó dos Bitcoins, preso sob acusação de chefiar esquema de captação de criptoativos. Glaidson nega as irregularidades.
No Tribunal de Justiça do Distrito Federal, o senador atuou como advogado e parte numa ação contra um ex-sócio, para exigir prestação de contas de uma loja de chocolates em shopping do Rio. Ele recorreu à Justiça depois de ser notificado por uma dívida de R$ 1,5 milhão. O juiz negou o pedido em dezembro de 2023.
A mesma loja já fora alvo de quebra de sigilo bancário numa investigação do Ministério Público sobre suposta rachadinha no gabinete de Flávio na Alerj, que o parlamentar nega. A denúncia foi anulada por instâncias superiores.
No STF, Flávio advoga em dois casos. Um é a execução penal do pai, Jair Bolsonaro, que cumpre prisão domiciliar após condenação pela trama golpista. O outro é uma queixa-crime, apresentada no início de 2025, contra o ex-ministro Fernando Haddad. O senador pede condenação por calúnia, difamação e injúria, e retratação, por Haddad ter dito que ele comprou mais de cem imóveis com dinheiro de rachadinha.
Sede na residência e gestão à distância
O escritório funciona na casa de Flávio em Brasília, adquirida por R$ 5,97 milhões em 2021. Registros da Receita Federal apontam Letícia Caetano dos Reis como administradora. Contadora, ela mora a 35 quilômetros da sede.
Letícia é irmã de Alexandre Caetano dos Reis, preso sob suspeita de envolvimento nas fraudes do INSS.
Segundo a PF, o escritório de contabilidade dele atendia Antônio Carlos Camilo Antunes, o Careca do INSS. A defesa de Alexandre afirmou que ele “apenas exerce sua profissão, sem participação em supostos ilícitos”. As notas da banca de Flávio indicam que a contabilidade é feita por esse escritório.
O GLOBO foi à casa de Letícia. Ela não quis falar. O marido, Raphael Silveira, disse que ela trabalha para o escritório do irmão, antes presencialmente e hoje em home office, e não respondeu sobre a atividade dela para a banca do senador. Flávio também não se manifestou.
Em 2022, um ano após a abertura do escritório, Letícia disse à Agência Pública que não tinha acesso aos contratos de Flávio e só falava com ele por WhatsApp. Parlamentares do PT apresentaram requerimentos para quebrar o sigilo dela e convocá-la à CPI do INSS, mas a comissão não os votou.
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