Pancadaria também é informação
Primeiro bloco do debate entre Lula e Flávio Bolsonaro não foi bonito, mas trouxe muita informação que interessa aos eleitores
Há um certo escândalo com a pancadaria entre Lula e Flávio Bolsonaro no primeiro bloco do debate presidencial da Band, na noite deste domingo, 18.
Muitos analistas qualificam o confronto como baixaria, uma vez que ele não girou em torno de ideias, mas dos escândalos e falhas morais dos dois personagens.
Pessoalmente, não vi problema nenhum no que aconteceu.
Debates políticos desse tipo são um jogo e não uma busca desinteressada e colaborativa pela verdade.
Os participantes agem de modo estratégico, para derrotar o adversário e conquistar os espectadores.
Se conseguirem fazer isso apoiados apenas na oratória, excelente. Mas não extrapolam o aceitável se usarem de artimanhas para desconcentrar ou desconcertar o oponente.
Cadeiradas, xingamentos e frases maldosas ultrapassam, obviamente, a linha vermelha.
Inteligência emocional
A capacidade que um candidato à presidência da República tem de aguentar pressões e provocações não é irrelevante.
Importa aos eleitores verificar se o político tem presença de espírito e “inteligência emocional”, uma vez que faz parte do seu trabalho – ao menos nas democracias – enfrentar oposição ativa enquanto estiver no poder.
Para usar a linguagem das MMA, Lula e Flávio Bolsonaro realizaram uma trocação no bloco inicial do programa.
O senador deu o primeiro golpe: em vez de responder a uma pergunta sobre licença-maternidade, começou a falar da lobista Roberta Luchsinger, que um dia antes havia ameaçado fazer uma delação premiada que, supostamente, poria Lula em dificuldades.
O presidente respondeu na mesma moeda: bombardeou Flávio Bolsonaro com perguntas sobre seu envolvimento com Daniel Vorcaro ou milicianos fluminenses. Cada vez que ele se esquivava de um assunto, Lula insistia na questão ou o acusava de ser mentiroso.
Não foi bonito, mas também não foi inútil.
Informação
Quem esperava que o presidenciável de direita perdesse o controle, não viu isso acontecer.
Lula, por outro lado, não mostrou a prontidão de outros tempos. Em diversos momentos, pareceu catatônico antes de conseguir concatenar uma réplica.
Os dois claramente haviam se preparado para um embate desse tipo. Teria sido uma vitória significativa tirar o equilíbrio do adversário. Mas nenhum deles conseguiu e é improvável que tenham conquistado a simpatia de eleitores indecisos com suas performances. Flávio pareceu agressivo em alguns momentos. Lula, irritadiço e incapaz de tirar vantagem de sua experiência.
Tudo isso foi informação absorvida pelos espectadores. Permitir que os candidatos sejam avaliados pelos seus gestos e reações também é uma função dos debates na televisão.
Vazio de ideias
Concordo que o encontro foi vazio de ideias. Lula e Flávio Bolsonaro lançaram propostas ao vento, sem entrar em detalhes sobre sua implementação e viabilidade. Ideias maravilhosas, todo mundo tem. Um bom gestor público se distingue pela capacidade de resolver, na prática, problemas que atingem os cidadãos.
Ainda assim, Flávio Bolsonaro se saiu melhor mais uma vez, porque ao menos conseguiu apontar para o que estaria no coração da sua proposta: um governo de mudança, que pretende trazer prosperidade a quem hoje está endividado e paga caro pela comida e devolver a sensação de segurança a quem tem medo de sair de casa.
Lula não conseguiu transmitir uma ideia clara do que seria o seu quarto mandato. É um problema que assombra desde o início sua campanha de reeleição: ela atira para todo lado e não tem mensagem central.
Não sei se essa diferença ficou marcada o bastante para mexer o ponteiro das intenções de voto. Nesta quarta, 21, deve ser divulgada a primeira pesquisa pós-debate e teremos um indicador.
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