Morcegos carregam vírus perigosos sem adoecer como outros mamíferos: mais de 500 espécies revelaram um sistema duplo de genes de anticorpos
Pesquisa identifica dois conjuntos funcionais de genes de anticorpos em morcegos e revela uma organização imunológica inédita entre mamíferos
Cientistas descobriram que morcegos da família Vespertilionidae possuem dois conjuntos distintos de genes responsáveis pela produção de anticorpos, uma organização inédita entre os mamíferos estudados. A pesquisa, publicada em julho de 2026, confirmou o sistema em 26 espécies de uma família que reúne mais de 500, oferecendo novas pistas sobre a capacidade desses animais de conviver com determinados vírus sem desenvolver doenças graves.
Por que o sistema imunológico dos morcegos surpreendeu os cientistas?
Os morcegos são conhecidos por abrigar diversos vírus, incluindo agentes associados à raiva e a outras doenças infecciosas. Algumas espécies conseguem manter determinadas infecções sem apresentar sintomas graves, comportamento que desperta interesse científico. Entretanto, essa tolerância não é universal: morcegos também podem adoecer e morrer em consequência de infecções.
A nova descoberta envolve os vespertilionídeos, maior família de morcegos existente, com representantes distribuídos por diferentes continentes. A organização dos genes de anticorpos desses animais apresenta uma característica não documentada anteriormente em outros mamíferos, sugerindo que sua resposta imunológica evoluiu por caminhos particulares.
Como funcionam os dois conjuntos de genes de anticorpos dos morcegos?
Os anticorpos são proteínas produzidas por células do sistema imunológico para reconhecer estruturas associadas a agentes infecciosos. Nos mamíferos, sua formação depende de regiões específicas do DNA, incluindo o chamado locus IgH, responsável pela cadeia pesada das imunoglobulinas.
Enquanto os demais mamíferos estudados possuem um único locus IgH, os pesquisadores identificaram dois conjuntos completos em cromossomos diferentes dos vespertilionídeos analisados. Ambos apresentam capacidade de participar da produção de anticorpos, mas utilizam mecanismos parcialmente distintos para gerar diversidade imunológica.
Entre os principais resultados estão:
- Identificação de dois loci IgH em 26 espécies analisadas;
- Localização dos conjuntos genéticos em cromossomos diferentes;
- Confirmação de atividade dos dois sistemas;
- Análise detalhada do morcego Eptesicus fuscus;
- Diferenças na utilização dos genes pelas células imunológicas;
- Possível contribuição para respostas variadas contra agentes infecciosos.

Por que os anticorpos dos morcegos apresentam uma organização tão diferente?
Os pesquisadores concentraram parte das análises no morcego-marrom-grande (Eptesicus fuscus), espécie norte-americana utilizada em estudos sobre doenças infecciosas. Seu genoma apresenta um conjunto IgH menor, com aproximadamente 272 mil pares de bases, e outro maior, com cerca de 918 mil pares de bases.
Essas regiões estão localizadas nos cromossomos 5 e 24, respectivamente. A análise de células individuais mostrou que ambos os conjuntos conseguem participar da produção de anticorpos. Entretanto, as células apresentaram preferência pelo conjunto menor, indicando que os dois sistemas não são necessariamente utilizados com a mesma frequência.
Quais evidências científicas confirmam o sistema duplo de anticorpos?
O estudo foi publicado em 29 de julho de 2026 na revista Science Advances, sob o título Immunoglobulin heavy chain locus duplication in bats. A investigação foi desenvolvida por Taylor Pursell, Ashley Reers, Artem Mikelov e outros pesquisadores, incluindo Hannah Frank, da Universidade Tulane. A equipe utilizou sequenciamento genético e análise da atividade dos genes em células imunológicas.
Os resultados confirmaram a presença de dois loci IgH nas 26 espécies examinadas. Como a família Vespertilionidae reúne mais de 500 espécies, os cientistas consideram provável que essa organização tenha ampla distribuição evolutiva. Entretanto, isso não significa que todas as espécies tenham sido examinadas individualmente, nem que a duplicação explique, sozinha, a tolerância a infecções virais.
O que diferencia o sistema imunológico dos morcegos daquele dos humanos?
Nos humanos, a produção de anticorpos depende de um locus de cadeia pesada localizado no cromossomo 14, além de regiões genéticas responsáveis pelas cadeias leves. A diversidade surge principalmente pela recombinação de segmentos do DNA, permitindo reconhecer uma grande variedade de agentes infecciosos.
Nos vespertilionídeos estudados, os dois conjuntos IgH ampliam as possibilidades de organização genética. A duplicação pode ter ocorrido há dezenas de milhões de anos, durante a evolução da família. Entretanto, possuir dois conjuntos não significa automaticamente produzir o dobro de anticorpos ou apresentar imunidade superior à humana.
| Característica | Resultado científico |
|---|---|
| Família estudada | Vespertilionidae |
| Espécies analisadas | 26 |
| Conjuntos IgH | Dois loci funcionais |
| Locus menor | 272 mil pares de bases |
| Locus maior | 918 mil pares de bases |
O que a descoberta pode revelar sobre a resistência dos morcegos aos vírus?
A identificação desse sistema oferece um novo caminho para compreender a evolução das respostas imunológicas em mamíferos. Os pesquisadores poderão investigar se os dois conjuntos de genes contribuem para reconhecer diferentes vírus, controlar infecções ou modificar a duração da resposta imunológica.
A descoberta também pode orientar futuras pesquisas sobre vacinas, anticorpos e mecanismos naturais de resistência a doenças. Entretanto, não existe evidência de que esse sistema duplo permita desenvolver imediatamente novos tratamentos humanos. O próximo desafio será determinar como essa organização genética influencia infecções reais e por que foi preservada durante a evolução de tantos morcegos.
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