Cientistas queimaram papiros modernos de propósito e descobriram que traços de chumbo podem fazer letras antigas aparecerem em raios X
A técnica só foi testada em réplicas modernas carbonizadas em laboratório, nunca em um rolo real da biblioteca

O que você vai ver
- Por que pesquisadores escolheram queimar papiros novos de propósito.
- Como uma ferramenta pensada para baterias de íon-lítio virou peça-chave do experimento.
- Que aparelho barato poderia triar rolos antigos antes de qualquer tomografia cara.
- Por que a técnica ainda não foi testada em nenhum rolo verdadeiro de Herculano.
- O que precisa acontecer antes dessa técnica poder ser usada na biblioteca real.
Pesquisadores recriaram artificialmente a carbonização que o Vesúvio causou em rolos de papiro há quase dois mil anos, e descobriram que pequenos traços de chumbo na tinta usada pelos escribas antigos podem ser a chave para ler textos que ninguém jamais conseguiu desenrolar fisicamente.
Por que os pesquisadores queimaram papiros novos de propósito?
A erupção do Vesúvio, em 79 d.C., carbonizou a biblioteca de Herculano, da qual restam cerca de 1.800 rolos e fragmentos hoje guardados na Itália, na França e na Inglaterra. Para testar uma hipótese sobre como ler esses rolos sem abri-los, a equipe liderada por Douglas Seiler reproduziu o processo: escreveu em papiro egípcio com tinta de fuligem misturada a diferentes concentrações de nitrato de chumbo e carbonizou os rolos em forno de alta temperatura, em ambiente com pouco oxigênio.

Como um software de baterias virou peça central do experimento?
O chumbo absorve raios X com muito mais eficiência que o papiro carbonizado, cerca de 25 vezes mais, e isso foi suficiente para fazer a escrita aparecer com contraste forte numa tomografia computadorizada feita no NIST, o instituto americano de padrões e tecnologia. Para reconstruir o texto sem desenrolar fisicamente o papiro, a equipe adaptou um algoritmo originalmente criado para “desenrolar” virtualmente estruturas de baterias de íon-lítio.
Que aparelho barato poderia triar rolos antes da tomografia?
Além da tomografia, a equipe propõe usar fluorescência de raios X portátil, equipamento relativamente barato, para identificar rapidamente quais rolos contêm metais na tinta antes de submetê-los à tomografia completa, etapa mais cara e demorada. Em papiros egípcios de Tebtunis, essa mesma técnica já encontrou chumbo e cobre em documentos posteriores ao século I d.C., o que mostra que tinta metálica não era incomum na Antiguidade.

Por que a técnica ainda não foi testada em rolos reais?
Todo o experimento usou réplicas modernas, não os papiros carbonizados originais de Herculano, e os próprios pesquisadores reconhecem que é apenas uma prova de conceito. Não há, até agora, nenhuma evidência de que os rolos já decifrados da biblioteca continham tinta com chumbo, e muitas tintas antigas eram feitas só de fuligem, o que tornaria a técnica inútil para boa parte do acervo.
O que falta para a técnica valer para a biblioteca real?
Antes de qualquer aplicação prática, seria necessário fazer uma busca sistemática por chumbo nos próprios rolos de Herculano, usando primeiro a fluorescência portátil para triagem e só depois a tomografia nos candidatos mais promissores, etapa que ainda não foi realizada e que vai determinar se essa nova rota de leitura serve para mais do que uma demonstração em laboratório.
Técnicas que tentam resgatar informação perdida há séculos também aparecem no relato sobre as proteínas antigas que deram nome a ossos de denisovanos que ficaram sem identidade por milhares de anos.
Mais detalhes sobre o estudo estão disponíveis na reportagem original do ScienceDaily.
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