PF classifica Canella como ‘patrono político’ de organização ligada ao CV
Deputado eleito foi preso nesta quinta, 15, por suspeita de utilizar uma rede de postos de combustíveis como plataforma de lavagem de dinheiro
A Polícia Federal (PF) classificou o deputado estadual eleito Márcio Canella (União), preso nesta quinta-feira, 15, como “patrono político” e “articulador de alto escalão” de uma organização criminosa ligada ao Comando Vermelho (CV).
Canella é alvo da oitava fase da Operação Unha e Carne, deflagrada para desarticular uma organização criminosa suspeita de utilizar uma rede de postos de combustíveis na Região Metropolitana do Rio de Janeiro como plataforma de lavagem de dinheiro.
Segundo a PF, o parlamentar eleito atuava como um elo entre o poder público e a rede de postos de combustíveis.
A corporação afirma que a organização criminosa integrada por Canella apresenta um “ecletismo econômico e pragmatismo geopolítico que transcendem cisões faccionais”. Segundo os investigadores, o grupo estabeleceu “pontes operacionais com milícias e com o tráfico de drogas para fins de perenidade territorial e blindagem política”.
A PF também aponta que a participação de Canella nesse esquema se traduzia em atos de favorecimento e cooptação.
“A inserção ‘Márcio Canella’ nesse ecossistema paramilitar traduz-se em atos concretos de favorecimento e cooptação. A comprovação dessa alegação foi a nomeação de ex-vereadores sob investigação por liame miliciano ao seu quadro de secretários municipais em Belford Roxo”, diz a corporação.
Ainda segundo a PF, Canella seria destinatário de valores provenientes de crimes cometidos pelas organizações criminosas. A corporação destacou a apreensão de um “vasto acervo de relógios de altíssimo valor, os dois veículos de luxo 0 km/seminovos e as duas motocicletas de grife”. Para os investigadores, os bens “convergem com a hipótese criminal de lavagem de capitais”.
A PF também apontou que os indícios de atuação de Canella “em proveito de organizações criminosas” ganham força com áudios divulgados pela imprensa. Para a corporação, as gravações “descortinam espantoso cenário de simbiose espúria”.
A PF ressaltou diálogos entre um capitão da Polícia Militar e lideranças da cúpula do Comando Vermelho. Segundo a PF, o policial “agia expressamente como canal de interlocução e intermediário dos interesses da gestão municipal chefiada por Canella”.
Operação Unha e Carne
O delegado e ex-secretário estadual de Polícia Civil Marcus Amim também foi preso.
“O grupo investigado conta com a participação de agentes públicos e articulação político-institucional”, disse a PF, em comunicado.
Os agentes cumprem seis mandados de prisão preventiva e 16 de busca e apreensão nos municípios do Rio de Janeiro, Niterói, Angra dos Reis, Petrópolis, Armação dos Búzios, Nova Iguaçu e São Gonçalo.
O ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, determinou ainda o sequestro de bens e valores e a suspensão das atividades econômicas de 112 empresas ligadas à rede de lavagem de dinheiro.
Desse total, 96 são postos de combustíveis utilizados para camuflar e legalizar recursos de origem criminosa.
7,6 bilhões de reais
Um Relatório de Inteligência Financeira do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (COAF) enviado à Polícia Federal indica que o esquema movimentou mais de 7,6 bilhões de reais nos últimos seis anos.
“Além do crime de organização criminosa armada, os investigados poderão responder, na medida de suas responsabilidades, por lavagem de dinheiro, corrupção ativa e passiva, violação de sigilo funcional, venda ilegal de combustíveis e formação de cartel, além de outros que poderão surgir no decorrer das investigações”, afirmou a PF.
“A ação desta data se insere no âmbito da Força-Tarefa Missão Redentor II, iniciativa coordenada pela Polícia Federal que visa desarticular organizações criminosas atuantes no estado do Rio de Janeiro, em conformidade com as diretrizes estabelecidas pelo Supremo Tribunal Federal na ADPF 635”, acrescentou.
Márcio Canella
Ex-prefeito de Belford Roxo, Canella já havia sido preso em flagrante na sexta fase da Operação Unha e Carne “pelo crime de possuir ou portar arma de fogo de calibre restrito”, segundo a PF.
Na ocasião, os policiais encontrarem um fuzil .556 no interior do veículo do então pré-candidato ao Senado.
Ele era alvo de um mandado de busca e apreensão naquela etapa da Unha e Carne.
A candidatura de Canella ao Senado perdeu força devido à prisão e ele acabou optando por sair candidato a deputado estadual.
Márcio Canella foi eleito deputado estadual pelo Rio de Janeiro, com 197.178 votos.
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