Dez romarias reconhecidas por lei federal: a cidade que teve um padre como primeiro prefeito e abrigou a editora de cordel mais importante do Brasil
A devoção religiosa ajudou a moldar a própria identidade local
Poucas cidades brasileiras têm o calendário guiado pela fé de forma tão literal. Juazeiro do Norte, no Cariri cearense, recebe peregrinos praticamente de janeiro a dezembro e, em 2026, viu dez dessas datas entrarem por lei no calendário turístico do país, ao lado de uma história centenária que mistura política, poesia popular e xilogravura.
O que muda com as romarias de Juazeiro no calendário turístico oficial?
As romarias passam a ter reconhecimento nacional como eventos turísticos. A Lei 15.443, sancionada em 26 de junho de 2026, incluiu no Calendário Turístico Oficial do Brasil dez celebrações religiosas realizadas no município ao longo do ano, ferramenta criada para divulgar eventos e estimular o turismo em todo o território nacional.
A lista começa em 17 de janeiro, com a memória da beata Maria de Araújo, passa pelas romarias de Nossa Senhora das Candeias e Nossa Senhora das Dores e termina no ciclo natalino, que vai de 23 de dezembro a 6 de janeiro. Na prática, quase não há mês sem peregrinação, e a romaria de Finados, entre 29 de outubro e 2 de novembro, é uma das que mais lotam as ruas da cidade.

Por trás das romarias, alguns marcos ajudam a entender como Juazeiro se tornou o que é hoje:
Como um padre se tornou o primeiro prefeito de Juazeiro do Norte?
Pela política, depois de ser afastado do altar. Cícero Romão Batista, o Padre Cícero, nascido no Crato em 1844, foi suspenso de suas funções religiosas e proibido de celebrar missas. Segundo registro da biblioteca do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), ele entrou na vida pública quando o povoado começou a lutar pela emancipação, conquistada em 22 de julho de 1911, e foi nomeado o primeiro prefeito do novo município.
Juazeiro foi elevada à categoria de cidade em 1914 e cresceu impulsionada pelos romeiros que chegavam para ver o padre e, muitas vezes, decidiam ficar. Cícero morreu em 1934, mas segue como a figura central da cidade, que se transformou na mais importante do interior cearense.

Por que Juazeiro virou o grande centro do cordel brasileiro?
Por causa de um romeiro alagoano que chegou para pedir a bênção ao padre. Em 1926, José Bernardo da Silva desembarcou em Juazeiro como vendedor de folhetos e, em 1932, comprou as primeiras máquinas tipográficas. De acordo com a Prefeitura de Juazeiro do Norte, em 1949 ele adquiriu os direitos de publicação de Leandro Gomes de Barros e João Martins de Athayde, e nos anos 1950 a Tipografia São Francisco se tornou a editora de cordel mais importante do país.
A tipografia também ajudou a popularizar a xilogravura, a gravura talhada em madeira, nas capas dos folhetos, por ser mais barata que os clichês de metal. Em 1980, por sugestão do poeta Patativa do Assaré, ela passou a se chamar Lira Nordestina e, depois de comprada pelo Estado, ficou sob os cuidados da Universidade Regional do Cariri (URCA), que mantém o espaço como centro de xilogravura.
O que fazer em Juazeiro do Norte?
O roteiro gira em torno da fé, mas vai além das igrejas. Entre a colina, as oficinas de gravura e os mercados de artesanato, a cidade mostra a cultura popular do sertão em sua forma mais viva.
Colina, cordel e santuários
Alguns endereços concentram a melhor experiência para quem visita a cidade pela primeira vez:
- Colina do Horto: a estátua do Padre Cícero, de 27 metros, domina o ponto mais alto da cidade, com vista para o Vale do Cariri e a Chapada do Araripe.
- Museu Vivo do Padre Cícero: na própria colina, reúne réplicas em cera de personagens da história da cidade, incluindo o próprio padre.
- Trilha do Santo Sepulcro: percurso de 2.650 metros pelo Horto até capelas onde os romeiros acendem velas.
- Lira Nordestina: opção fora do óbvio para ver matrizes de xilogravura e conhecer a história do cordel impresso na cidade.
- Basílica de Nossa Senhora das Dores: igreja da padroeira, construída por iniciativa do Padre Cícero e palco de grandes romarias.
- Capela do Socorro: guarda o túmulo do Padre Cícero e recebe multidões no Dia de Finados.
Quem busca vivenciar a fé e as tradições do Ceará, vai curtir esse vídeo especialmente selecionado do canal Boa Sorte Viajante – Matheus Boa Sorte, que conta com mais de 1 milhão de visualizações, onde Matheus Boa Sorte mostra a história e devoção em Juazeiro do Norte:
Como é o clima de Juazeiro do Norte durante o ano?
O clima de Juazeiro do Norte é quente e marcado por duas estações bem definidas. A chuva se concentra entre janeiro e abril, com pico de cerca de 150 mm em março, enquanto de junho a novembro o tempo fica seco e as máximas chegam a 33°C.
Juazeiro do Norte em cada estação
Cada período do ano traz temperaturas e volumes de chuva bem diferentes:
Faixas baseadas na climatologia de 30 anos do Climatempo para Juazeiro do Norte. As condições podem variar entre os anos por fenômenos como El Niño e La Niña; para a previsão atual, consulte a previsão do tempo para Juazeiro do Norte.
Fé e poesia no coração do sertão
Juazeiro do Norte nasceu em torno de um padre e cresceu com a força dos romeiros, dos tipógrafos e dos gravadores de madeira. O reconhecimento federal das romarias confirma o que o calendário da cidade mostra há mais de um século: ali, devoção e cultura popular andam lado a lado.
Você precisa subir a Colina do Horto, folhear um cordel na Lira Nordestina e sentir de perto a energia de uma cidade que nunca para de receber peregrinos.
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