Fibras apodreceram e desapareceram, mas pequenos vestígios ficaram nas ferramentas: arqueólogos estão reconstruindo cordas e fios usados na Idade da Pedra
Resíduos microscópicos e experimentos revelam como humanos pré-históricos transformavam fibras vegetais em cordas, fios e instrumentos essenciais
Grande parte das tecnologias utilizadas pelos primeiros humanos desapareceu sem deixar objetos reconhecíveis. Cordas, fios, redes e cestos eram produzidos com materiais que se decompõem facilmente, ao contrário das ferramentas de pedra. Agora, vestígios microscópicos estão ajudando a reconstruir as cordas da Idade da Pedra, revelando técnicas que podem ter transformado a caça, o transporte e a fabricação de instrumentos. Pesquisas realizadas na China, França e Alemanha mostram que resíduos vegetais, marcas de desgaste e experimentos permitem investigar atividades praticadas dezenas de milhares de anos atrás.
Por que as cordas da Idade da Pedra quase desapareceram dos sítios arqueológicos?
Fibras vegetais e materiais de origem animal sofrem decomposição pela ação de microrganismos, umidade e alterações químicas. Por isso, os arqueólogos encontram principalmente ferramentas de pedra, ossos e outros materiais resistentes, enquanto grande parte dos objetos usados diariamente desaparece.
Essa diferença cria uma visão incompleta da pré-história. Cordas poderiam servir para amarrar ferramentas, transportar objetos, fabricar redes e construir abrigos. Entretanto, muitos desses usos permanecem hipóteses quando não existem resíduos, marcas ou outros vestígios capazes de sustentá-los.
Como os pesquisadores identificam fibras antigas em ferramentas de pedra?
Os cientistas utilizam microscópios para examinar pequenas partículas presas às superfícies e aos sulcos das ferramentas. Também analisam arranhões, áreas polidas e deformações que podem indicar contato repetido com determinados materiais.
Em abril de 2026, pesquisadores identificaram microvestígios de cânhamo e linho em ferramentas de Shizitan, no norte da China. Os objetos pertencem a ocupações humanas datadas de aproximadamente 28 mil a 18 mil anos atrás.
Entre as principais evidências investigadas estão:
- Microfibras vegetais preservadas nas ferramentas;
- Marcas microscópicas de raspagem e corte;
- Resíduos associados ao processamento de plantas;
- Sulcos produzidos pelo movimento de fibras;
- Semelhanças com ferramentas experimentais.

O que uma ferramenta de marfim revelou sobre a fabricação de cordas?
Na caverna Hohle Fels, no sudoeste da Alemanha, arqueólogos encontraram fragmentos de uma peça de marfim de mamute com mais de 35 mil anos. Depois de remontada, a ferramenta apresentou aproximadamente 20 centímetros de comprimento e quatro perfurações cuidadosamente trabalhadas.
Os furos possuíam sulcos espiralados que poderiam orientar fibras durante sua torção. Em experimentos, pesquisadores utilizaram uma réplica e fibras vegetais para produzir aproximadamente cinco metros de corda em dez minutos. O resultado demonstrou a viabilidade da técnica, embora não prove que todos os exemplares semelhantes tivessem exatamente a mesma função.
Como a arqueologia experimental ajuda a reconstruir tecnologias desaparecidas?
O estudo publicado na revista Science Advances, em 2024, por Nicholas Conard e Veerle Rots, combinou análise de resíduos, observação microscópica e experimentação para investigar a peça de Hohle Fels.
Os pesquisadores testaram diferentes materiais, incluindo fibras de plantas e tendões animais. A comparação entre o funcionamento das réplicas e as características arqueológicas fortaleceu a interpretação de que o instrumento poderia auxiliar na produção de cordas. Entretanto, reproduzir um resultado funcional não demonstra automaticamente como cada comunidade utilizava determinada ferramenta.
Quais descobertas mostram que os humanos dominavam fibras há milhares de anos?
Na França, um fragmento de cordão com aproximadamente 50 mil anos, encontrado em Abri du Maras, apresentou três conjuntos de fibras torcidas. A descoberta constitui uma evidência direta de produção de cordões por neandertais.
Outros sítios preservaram evidências indiretas ou ferramentas associadas a essa tecnologia. Esses materiais ajudam a reconhecer diferentes etapas, desde a preparação das plantas até a torção necessária para formar fios resistentes.
| Sítio arqueológico | Evidência identificada |
|---|---|
| Abri du Maras, França | Cordão de aproximadamente 50 mil anos. |
| Hohle Fels, Alemanha | Ferramenta perfurada com mais de 35 mil anos. |
| Shizitan, China | Microfibras de 28 mil a 18 mil anos. |
| La Draga, Espanha | Cordas vegetais preservadas do Neolítico. |
Por que essas descobertas podem mudar nossa visão da Idade da Pedra?
A fabricação de cordas exigia selecionar matérias-primas, preparar fibras, controlar a torção e combinar diferentes elementos. Essas atividades indicam planejamento e conhecimento das propriedades dos materiais, habilidades que raramente aparecem diretamente no registro arqueológico.
Os pesquisadores também investigam como essas tecnologias influenciaram a organização do trabalho e a cooperação. A produção de cordas poderia exigir várias pessoas e períodos específicos de coleta de plantas. Embora nem todas essas práticas possam ser reconstruídas com segurança, os novos estudos mostram que a Idade da Pedra envolvia muito mais do que instrumentos de pedra: incluía conhecimentos sofisticados sobre materiais flexíveis e perecíveis.
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