Um pergaminho medieval guardava muito mais que palavras: DNA retirado da pele de ovelha revelou a história escondida de uma doença animal
Pesquisadores identificaram material genético de um vírus em manuscritos medievais e reconstruíram milhares de anos da história de uma doença dos rebanhos
Durante séculos, manuscritos medievais preservaram textos religiosos, registros administrativos e conhecimentos antigos. Agora, pesquisadores descobriram que algumas dessas páginas também guardavam vestígios de uma doença que atingia rebanhos europeus. Uma investigação publicada em setembro de 2026 identificou DNA da varíola ovina em pergaminhos produzidos há mais de mil anos, permitindo reconstruir parte da evolução de um vírus que ameaça ovelhas desde a Idade do Bronze. A descoberta mostra como documentos históricos podem funcionar como arquivos biológicos, revelando informações que seus autores jamais imaginaram registrar.
Como o DNA da varíola ovina permaneceu preservado em pergaminhos medievais?
Antes da popularização do papel na Europa, escribas utilizavam pergaminhos preparados com peles de ovelhas, cabras e bezerros. O processo envolvia limpeza, tratamento com cal, raspagem e secagem. Apesar dessas etapas, pequenos fragmentos de material genético podiam permanecer nas fibras.
Os pesquisadores investigaram documentos produzidos entre os séculos VIII e XIV e identificaram sequências do vírus da varíola ovina, conhecido como SPPV. Entre os materiais estavam os Evangelhos de York, manuscrito produzido provavelmente entre 990 e 1020, no qual três folhas apresentaram vestígios genéticos do patógeno.
O que os cientistas descobriram ao analisar o DNA antigo?
A equipe internacional, liderada pela University College Dublin, combinou análises de manuscritos com amostras arqueológicas de dentes, ossos e pele de animais. O material permitiu identificar diferentes linhagens virais e acompanhar mudanças genéticas ocorridas durante milhares de anos.
O estudo recuperou 21 genomas antigos inéditos do vírus, incluindo exemplares anteriores ao período medieval. As amostras mais antigas vieram de comunidades pastoris da estepe eurasiática, demonstrando que a doença já circulava durante a Idade do Bronze.
Entre os principais resultados estão:
- Identificação de 21 genomas antigos inéditos;
- Detecção do vírus em documentos medievais europeus;
- Evidências genéticas com aproximadamente 3.800 anos;
- Presença viral em peles de diferentes animais;
- Identificação de linhagens medievais distintas das atuais.
O vídeo veterinário apresenta a varíola ovina, seus sintomas e medidas de prevenção. Não aborda diretamente os pergaminhos históricos.
Por que a varíola ovina representava uma ameaça para os rebanhos antigos?
A varíola ovina é uma doença viral altamente contagiosa que pode provocar febre, lesões cutâneas, problemas respiratórios e morte. Sua disseminação compromete a criação de ovelhas, especialmente em populações sem imunidade prévia, causando prejuízos à produção de carne, leite e lã.
Para comunidades agrícolas antigas, essas perdas poderiam representar uma ameaça à subsistência. Registros romanos já descreviam enfermidades semelhantes, enquanto documentos medievais mencionavam surtos entre rebanhos. Entretanto, descrições históricas isoladas não permitem confirmar a identidade exata dos agentes responsáveis.
Como a pesquisa conseguiu reconstruir milhares de anos de evolução viral?
O estudo publicado na revista Science Advances, em setembro de 2026, reuniu evidências genéticas de 39 amostras arqueológicas e históricas nas quais o vírus foi detectado. A comparação entre sequências antigas e modernas permitiu reconstruir relações evolutivas e investigar a diversificação dos capripoxvírus.
Os resultados indicam que as principais linhagens desse grupo viral se separaram aproximadamente entre 11.500 e 3.700 anos atrás, dependendo do modelo utilizado. Essa cronologia coincide parcialmente com transformações na domesticação e circulação de animais, mas não demonstra que esses processos tenham causado diretamente a diversificação dos vírus.

Quais manuscritos conservaram sinais da varíola ovina?
Além dos Evangelhos de York, os pesquisadores encontraram material genético viral no Corpus Glossary, produzido por volta de 800, e em uma cópia medieval das Epístolas de São Paulo. As descobertas envolveram documentos preservados em diferentes instituições europeias.
Um resultado particularmente interessante apareceu na identificação das peles utilizadas. O vírus não estava presente apenas em pergaminhos ovinos. Também surgiu em materiais de bezerros e cabras, possivelmente devido à contaminação durante a fabricação, ao contato entre páginas ou ao uso de produtos de origem animal.
| Material analisado | Descoberta |
|---|---|
| Pergaminhos de bezerro | 10 folhas com DNA viral |
| Pergaminhos de cabra | 4 folhas com DNA viral |
| Pergaminhos de ovelha | 3 folhas com DNA viral |
| Dentes da Idade do Bronze | Evidências com cerca de 3.800 anos |
O que essa descoberta revela sobre o estudo de doenças antigas?
A investigação demonstra que manuscritos históricos podem preservar informações biológicas além de seu conteúdo escrito. Fragmentos de DNA encontrados nas páginas permitem estudar animais utilizados na fabricação, possíveis contatos entre materiais e a circulação de patógenos em sociedades antigas.
Os pesquisadores também identificaram uma linhagem medieval aparentemente extinta, diferente daquela predominante atualmente. Essa informação amplia o conhecimento sobre a evolução da varíola ovina, embora ainda existam lacunas geográficas e cronológicas. Novas análises de pergaminhos e restos arqueológicos poderão esclarecer como diferentes variantes surgiram, circularam e desapareceram ao longo dos séculos.
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