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O Brasil sabe crescer com consumo mais fraco?
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Carlos Graieb
8 minutos de leitura 13.10.2026 13:08 comentários
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O Brasil sabe crescer com consumo mais fraco?

Deterioração financeira das famílias expõe os limites do modelo econômico e exige uma revisão das estratégias empresariais para 2027

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Carlos Graieb
8 minutos de leitura 13.10.2026 13:08 comentários 0
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O Brasil sabe crescer com consumo mais fraco?
Foto: Divulgação
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A vulnerabilidade financeira das famílias brasileiras aumentou no segundo trimestre de 2026 e a deterioração atingiu praticamente todo o país. É o que mostra um estudo divulgado em 7 de outubro por pesquisadores do FGV Ibre.

O Índice de Vulnerabilidade Financeira Familiar (IVF), elaborado com dados do Banco Central e do IBGE, combina seis dimensões: inadimplência, endividamento em relação à renda, pressão das dívidas de curto prazo, custo do crédito, capacidade de enfrentar imprevistos financeiros e fragilidade do mercado de trabalho.

Entre o primeiro e o segundo trimestre, o índice nacional subiu 1,01%, com piora em 22 das 27 unidades da Federação. Maranhão, Tocantins e Rondônia permaneceram como os estados de maior vulnerabilidade, enquanto o Distrito Federal registrou o menor índice.

A principal exceção à tendência de deterioração foi Mato Grosso, onde o IVF recuou 2,53%, a maior queda do país. O estado passou da quarta para a décima posição no ranking de vulnerabilidade, favorecido também pela piora dos indicadores de outros estados. O estudo, no entanto, não identifica quais das seis dimensões explicam essa melhora.

Por que isso importa

O agravamento da situação financeira das famílias ajuda a explicar a má avaliação do governo Lula nestas eleições : apesar do desemprego historicamente baixo e da desaceleração da inflação, muitos brasileiros não percebem melhora correspondente em seu padrão de vida.

O consumo por habitante está praticamente estagnado, enquanto dívidas e prestações absorvem uma parcela crescente dos rendimentos.

Os indicadores apontam para uma questão mais abrangente que a necessidade de ajuste fiscal no início do próximo governo: a insustentabilidade do modelo de crescimento adotado nos últimos anos, fortemente dependente da expansão do emprego, do crédito e dos gastos públicos.

O desafio será criar condições para que investimentos e ganhos de produtividade sustentem o crescimento, uma vez que os estímulos tradicionais ao consumo já não produzem os mesmos resultados.

Panorama: os limites de um modelo

Entre 2021 e 2024, o consumo das famílias cresceu vigorosamente, chegando a avançar 5,1% em 2024. Em 2025, a expansão caiu para 1,3%. Segundo levantamento do economista Manoel Pires, do FGV Ibre, entre o terceiro trimestre de 2024 e o segundo trimestre de 2026, o consumo acumulou alta de apenas 0,84%, enquanto o PIB cresceu 3,65%.

A deterioração também aparece nas expectativas. Em maio, os economistas ainda avaliavam a possibilidade de uma desaceleração moderada, amortecida pelos estímulos fiscais. Em setembro, a Oxford Economics já projetava crescimento do consumo inferior a 1% em 2027 e 2028. Em outubro, algumas estimativas passaram a admitir estagnação do consumo no próximo ano.

Três motores da expansão anterior estão perdendo potência. O primeiro é o emprego, que chegou a níveis historicamente bastante elevados. Isso é positivo, mas significa que há menos espaço para incorporar novos trabalhadores. Para produzir mais, o país precisará elevar a produtividade.

O segundo motor é o crédito, que encontra famílias crescentemente endividadas. O terceiro é a expansão fiscal, que esbarra no aumento da dívida pública e no custo de financiamento do governo.

A consequência é que novas transferências de renda, estímulos ao crédito ou incentivos à contratação tendem a produzir resultados cada vez mais limitados.

Lupa: por que mais crédito pode significar menos consumo

Um estudo publicado em 30 de setembro por Pedro Avelino, Flávio Ataliba Barreto e João Mário Santos de França, também do FGV Ibre, ilumina uma contradição importante.

O saldo de crédito às pessoas físicas alcançou 4,67 trilhões de reais em agosto, com crescimento de 10,5% em doze meses. Ao mesmo tempo, o comprometimento da renda com dívidas atingiu 28,7%, recorde da série do Banco Central, e a inadimplência bancária das pessoas físicas chegou a 6%.

O que avançou, na verdade, foram as modalidades emergenciais de crédito, como o rotativo e o parcelamento do cartão e o cheque especial. O saldo do rotativo cresceu 21% em doze meses, com juros médios de 444,9% ao ano em agosto. Enquanto isso, linhas de prazo mais longo e juros menores perderam força.

O crédito continua aumentando porque as famílias precisam financiar despesas correntes ou substituir dívidas antigas. Nessas circunstâncias, sua expansão não representa maior capacidade de consumo.

O estudo também recomenda cautela com a expectativa de que a redução da Selic produzirá rapidamente uma recuperação da demanda. Nas modalidades emergenciais, os juros dependem fortemente do risco de inadimplência. Se esse risco permanecer elevado, o alívio poderá ser lento, mesmo com a queda da taxa básica.

Para as empresas, há um efeito adicional: bancos mais seletivos, consumidores com menos renda disponível e maior risco de atraso nos pagamentos podem limitar as vendas financiadas, mesmo sem uma contração generalizada do crédito.

Radar empresarial: como crescer depois do ciclo do consumo

A velocidade do ajuste fiscal influenciará o comportamento dos juros, do crédito e da demanda nos próximos anos. As equipes econômicas dos dois candidatos à Presidência apresentam horizontes diferentes para essa tarefa.

A equipe econômica da campanha de Flávio Bolsonaro já mencionou um período de aproximadamente 18 meses para estabilizar as contas públicas. Um ajuste concentrado desse tipo restringiria mais intensamente a demanda no início do mandato, mas, caso aumentasse a confiança nos rumos da economia, abriria espaço para uma redução mais rápida dos juros e uma retomada dos investimentos.

Em entrevista publicada nesta terça-feira, 13, o ministro do Planejamento, Bruno Moretti, apresentou uma trajetória mais gradual para um eventual novo governo Lula, com esforço fiscal de aproximadamente 0,5 ponto percentual do PIB no primeiro ano e ajuste distribuído ao longo do mandato. Essa alternativa poderia suavizar o aperto inicial na economia, mas seus resultados dependeriam da crença na sustentabilidade das contas públicas. Se persistirem dúvidas, os juros poderão continuar elevados por mais tempo.

São trajetórias com riscos diferentes. Entretanto, nenhuma das duas resolve, por si só, o problema estrutural do crescimento brasileiro. O ajuste fiscal pode criar condições mais favoráveis ao investimento, mas não substitui uma agenda de produtividade, inovação e ampliação da capacidade produtiva.

Para as empresas, essa distinção é decisiva. A recuperação cíclica do consumo, estimulada por juros menores e alguma recomposição da renda disponível, não deve ser confundida com a possibilidade de reproduzir o ritmo de expansão observado entre 2021 e 2024.

O planejamento empresarial para 2027 deveria considerar três movimentos.

Revisar as expectativas de crescimento das receitas: empresas cuja expansão recente dependeu do aumento do número de consumidores, do crédito e das transferências de renda devem avaliar se essas condições continuarão presentes. O cuidado é especialmente importante no varejo, nos bens duráveis e nos serviços voltados às famílias. A projeção de vendas precisa refletir a capacidade efetiva de pagamento dos clientes, não apenas a expectativa de redução dos juros.

Buscar crescimento por produtividade e competitividade: num mercado consumidor menos dinâmico, reduzir custos, incorporar tecnologia e aperfeiçoar processos tornam-se prioridades. Empresas podem continuar crescendo mesmo quando seu mercado avança pouco, mas isso exigirá ganhos de eficiência e, frequentemente, conquista de participação sobre concorrentes.

Identificar oportunidades na mudança da composição do crescimento: se o país conseguir ampliar o investimento, setores ligados à infraestrutura, tecnologia, bens de capital e serviços empresariais terão fontes de expansão que dependem menos do consumo doméstico. Para empresas médias, há oportunidades tanto no investimento direto quanto no fornecimento de produtos e serviços a essas cadeias.

Essas decisões não precisam aguardar a definição do próximo programa econômico. O ritmo da transição dependerá das políticas adotadas, mas a perda de dinamismo do consumo já é observável. Preparar-se para diferentes cenários significa reconhecer que a próxima etapa de crescimento poderá beneficiar setores e empresas de maneira bastante distinta daquela observada nos últimos anos.

Resumo da ópera

O Brasil entra em 2027 diante de uma transição econômica: o crescimento sustentado pela expansão do emprego, do crédito e dos gastos públicos perdeu força. O ajuste fiscal será necessário, mas não bastará para criar um novo ciclo de expansão. Será preciso elevar investimentos e produtividade. Para as empresas, a mudança exige rever expectativas de consumo, buscar eficiência e identificar oportunidades numa economia em que os investimentos poderão assumir papel mais importante. O ritmo dessa transição dependerá das decisões do próximo governo, mas preparar-se para ela não deve esperar pelos resultados das políticas econômicas.

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Carlos Graieb

Carlos Graieb é jornalista formado em Direito, editor sênior do portal O Antagonista e da revista Crusoé. Atuou em veículos como Estadão e Veja. Foi secretário de comunicação do Estado de São Paulo (2017-2018). Cursa a pós-graduação em Filosofia do Direito, da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (USP).

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